domingo, 30 de junho de 2024

PRA QUE TANTA HISTÓRIA?

Tenho contado muitas histórias de meu pai aqui, e ainda há muitas pra contar, histórias que demonstram o homem que ele foi e explicam um pouco do homem que eu sou. Eu sou o meu pai. 
Tudo que vivi e como vivi, tudo que sou e como sou, decorreu de como vi meu pai ser e viver. 
Ele era trabalhador, teimoso, incansável e persistente, e eu sou assim. Não era o dono da verdade, mas dava trabalho convencê-lo de algo, como a mim. 
Ele era advogado de si mesmo, e me queria advogado. Eu me formei em Direito, para orgulho dele, que não sabia a diferença entre ser formado e ser advogado. Aliás, tive outro pai na Faculdade, o Orlando Tupini, amigo de meu pai, muito mais velho que eu, que foi pra Cachoeiro comigo, e foi meu pai por diversas vezes, assinando os documentos do crédito educativo na Caixa Econômica.  Estudei de graça, os contratos não tinham correção monetária, e a inflação corroeu o valor da dívida. O Orlando, já velho como eu o sou hoje, se formou também. 
Meu pai dividira comigo o protagonismo na família, me queria nessa posição por que a assumira na sua própria família, quando solteiro. 
Então, fomos para Bom Jesus por que eu queria, e depois para Nova Friburgo só por que eu queria. E depois para o Rio por que estavam muito sozinhos. E de volta para Friburgo por que no Rio faltava natureza, faltava verde, faltava ar. Agora falta muito mais do que isso, falta tudo, especialmente beleza, numa cidade antes "maravilhosa". 
Fiz tudo o que pude pelos meus pais, só não sei se fiz o que eles de fato queriam. Acho que, por eles, nunca teriam saído de Varre Sai. Uma máquina do tempo à minha frente, e eu digitaria as coordenadas da Arataca de 1970. Será?!!!! 
O fato é que, repetindo os passos de meu pai, com um pouco mais de assertividade por que tive a educação que ele me deu; cometendo muitos erros pela impulsividade que herdei dele; mudando, ou mudando-os qual ciganos, pela minha inquietude típica dele; vivemos uma vida cheia, dinâmica e rica, que ele, em seus longos e emocionantes discursos de aniversário, sempre fez questão de pontuar, de enfatizar, dizendo-se feliz pela família que construiu e vitorioso por ter vivido mais que o dobro do que previa. Meu pai viveu 90 anos mas sempre achou que morreria com 45, e me  assombrava com isso. 
Viveu muito e muito intensamente; se dizia muito feliz e eu acredito que foi. E o legado que deixou perpetua a sua presença. 
Que o exemplo dele sirva para ao menos um pai, e essas memórias já se justificarão. O exemplo de um pai que viveu para a família, que foi pobre a vida inteira mas, ainda assim, educou os seus filhos, deu-lhes ética e dignidade, ensinou-os a amarem o próximo, a respeitarem os mais velhos e a serem generosos. Ele que dizia "Deus não dá asas a cobra", sempre que queria ir mais longe e limitações financeiras o impediam, foi muito além do que esperava. Deus deu-lhe asas. 

sábado, 29 de junho de 2024

PORTÃO REABERTO. O NOVO SEMPRE VEM.

Repete agora o mesmo caminho. Vai buscar o filho, que espontaneamente foi para trás do muro. Vai com braços e alma abertos, disposto a trabalhar, a unir esforços até a sonhada estabilidade. 
Reencontram-se, filho e pai. Não é muito emocionante, na verdade é meio estranho, ele não aparenta estar seguro, confiante, alegre, parece mais, triste, inseguro, frágil. Não conseguem traçar planos, obstáculos surgem a cada frase, até à conclusão das próprias frases. Muitas perguntas sem respostas, e o pai fala para ocupar os silêncios que o filho procura insistentemente. 
Criam uma agenda para os próximos passos, literalmente os próximos, apenas daquela tarde/noite, mais do que isso se mostra distante demais. 
Então, ele vai cuidar das pendências que deixou, o apartamento, a casa, a namorada; as pendências do trabalho serão tratadas nos dias seguintes. Vai preparar uma base plana para um recomeço, agora que há mais um elemento na equação, uma criança inesperada, reconhecida e aceita, e que muda totalmente a vida desse garoto de quarenta anos. 
O portão, porém, fechado, escondera uma informação muito importante, havia duas incógnitas naquela equação, havia mais uma criança! 
Algo que famílias bem organizadas costumam planejar por meses e anos - criar e educar um filho é uma tarefa hercúlea, especialmente na sociedade de hoje de tantos desafios - irrompia abruptamente na realidade desse garoto que nunca levou a vida a sério, e que se vê agora, sem uma estrutura prática de vida, e, principalmente, sem estrutura emocional adequada, responsável por duas crianças, duas outras vidas que não tiveram direito de opção. 
E o trabalho? Não será possível trabalhar por uns meses, integralmente necessários à recuperação. Então, não há planos de trabalho, só a tarefa rígida e árdua de cumprir os passos preestabelecidos. 
E como ficam as duas mães? E as crianças, uma que já chora, e mama, e demanda cuidados? 
O portão já foi aberto, os demônios estão agitados, a vida se apresenta tal qual é, e não há como voltar, resta reorganizar as cartas que caíram no susto, retomar o jogo, e não blefar; a vida pode até ser um jogo, mas com duas crianças não se pode blefar. É possível perder, mas blefar nunca, esse jogo é melhor com as cartas na mesa. 

terça-feira, 25 de junho de 2024

GRITO DE DESESPERO


Eu tinha sete anos de idade e desfilei num "sete de setembro", com fome, suado ao sol e com os pés suando dentro de um fedorento sapato escolar de plástico, para o governador do Rio, Dr Geremias de Matos Fontes. 
Aprendia a partir dali que éramos o  país do futuro, que os governantes são autoridades respeitadas e tbém respeitáveis, que merecem nossas vênias e aplausos debaixo de sol ou chuva, que o Supremo é o guardião da Lei e da Justiça (só muitos anos depois entendi o abismo que existe entre uma e outra coisa), que as Câmaras Legislativas representam o povo, e que a Constituição vem do povo, feita pelo povo e para o bem do povo. 
Mais tarde, os espertos iluminados diriam que continuávamos sendo o país do futuro por culpa do brasileiro, que não sabe votar.  E pronto, tudo pacificado. Agora tá certo, achamos os culpados. Somos nós, o povo! Mas que povo? 
O povo que é obrigado a votar nos que se apresentam ou que lhes são apresentados?
Que vota no Tancredo (o amigo do establishment e avô do Aécio) e ele morre? 
O povo que tem que suportar, sob o "rei do maranhão" (do estado mais pobre do Brasil), uma inflação de 89% ao mês?
Que reage, elegendo um caçador, como que indo à luta, e vê caçada a sua poupança de marajá miserável? (Aliás, o "rei do maranhão" por "sorte" retirara a sua poupança do banco às véspera do confisco). 
Esse povo que, ao viver por uns anos uma chance de futuro real, se sente forte pra fazer alternar o poder com o proletariado, e aí então percebe que o proletário escolhido só estava esperando uma chance pra exatamente deixar de ser... proletário?
O mesmo povo que sonhou com o Joaquim que amarelou, com o Hulk que esverdeou, com o exjuizministroecandidato que escorregou no tapete vermelho dos expertos, ele que, talvez fosse experto como Juiz, tentou ser esperto como ministro, e acabou sendo inocente como político, pagando certo por sua esperteza? 
É mesmo culpado pelas agruras do país, o seu povo que, ao ver se esvaindo a sua esperança pelos dutos de petróleo e esgoto, e o orgulho pátrio pelos sacos de vento dos escândalos, decidiu agir contra todas as evidências e sinais, e depositar seus sonhos nas duas mãos direitas de alguém que, aparentemente, nem sabe a diferença entre direita e esquerda, e acaba optando pelo centro? 
Esse povo acuado entre três poderes, sufocado pelas decisões e indecisões, idas e vindas de tribunais e assembleias, onde as leis são feitas e também alteradas, interpretadas, reinterpretadas,  validadas ou não, e em última análise atropeladas, sempre, sempre, sempre, de uma ou outra forma, em proveito próprio, sempre, sempre, sempre, o interesse de poucos  sobreposto ao de muitos? 
Esse povo é culpado de, agora, ter que escolher entre o proletário transformado em burguês e o "imbrochável" dito de direita, que preside um país como se síndico de um pequeno condomínio, ambos terrívelmente evange...lizados pelo manual "Como ficar rico fingindo ser democrata de esquerda ou de direita preocupado com o povo, mas ocupado com os amigos da corte“? 
Esse povo vai escolher, é patriota; e vai se arrepender, é seu destino; e vai ser culpado, como sempre, por seus filhos nascerem no eterno país do futuro
É um pesadelo viver num país assim! A saída talvez seja o aeroporto, difícil será escolher um destino, haja vista os outros exemplos. 
Existe outra saída: candidatar-se e eleger-se, mas quem o faz costuma passar para o lado dos opressores.
Existe, talvez, ainda outra: criar e executar um novo modelo de Educação, um que ensine liberdade com responsabilidade, livre arbítrio para escolher e capacidade para fazê-lo, e que coloque o interesse de todos acima do interesse de poucos.
Como fazer isso se, num país tão grande, quem pode não quer fazer, não vê vantagem; quem precisa está domesticado, se habituou ao pouco e acha bom; e quem tenta, desanima por falta de apoio de quem pretende proteger, ou é "desanimado" por quem não tem interesse em mudança?
Meus netos aprenderão, sob o sol escaldante, ao lado da bandeira hasteada em um Sete de Setembro futuro, que mais de duzentos anos após o Grito, o Brasil  precisará gritar mais forte por um futuro que não terá chegado.
07.09.22, enquanto manifestações pelo país gritavam sim ou gritavam não, alguns choravam. 

domingo, 23 de junho de 2024

PORTUGUÊS OU ITALIANO?

Meu pai tinha orgulho de si mesmo, dos amigos que cultivou, dos compromissos que honrou, do crédito que tinha, do nome que fez. Tudo merecidamente. 
Quantos já pegaram dinheiro emprestado a 10% ao mês, e mais de uma vez, e pagaram todas as vezes? Quantos já morreram por  não pagar? Meu pai fazia o empréstimo, sofria para pagar, trocava de calçada envergonhado quando atrasava, mas ao final pagava a dívida, ainda que com juros sobre juros, para ter o direito de andar com a cabeça erguida, e de voltar a se endividar. A vida é difícil às vezes, mas ele parecia nem notar, só tocava em frente. Gostava de uma música, e cantava sempre enquanto trabalhava, que dizia: 
Lui, respeita Januário. 
Tu pode ser famoso mas seu pai é mais tinhoso
E com ele ninguém vai, Lui, Lui, 
Respeita os oito baixos do teu pai. 
Quando eu o admoestava, reagia bravo: 
- Moleque, respeita os oito baixos do teu pai! 
Mas eu não entendia na minha meninice, aprendendo diuturnamente com ele a honrar os compromissos, não compreendia que ele fizesse empréstimos e depois atrasasse o pagamento, mudasse de caminho para não encontrar o credor. Era uma contradição. Somente mais tarde, quando eu, adulto, tinha que, a cada manhã, escolher os credores aos quais eu poderia pagar, os eleitos do dia, tal a escassez de recursos que me impedia de pagar a todos no vencimento, entendi que nem sempre se vê todas as facetas de uma mesma verdade, é preciso viver, é preciso saber viver. 
Certa vez, numa conversa sonolenta pós almoço de domingo em família, comentei que meu nome deveria ser Possodelli, da família italiana da minha mãe, mais bonito, mais nobre, e não o Silva, da família do meu pai, afinal todo mundo era Silva no Brasil. Nossa! A siesta sonolenta se transformou numa guerra, o domingo acabou. Meu pai disse irritado que o nome dele era o patrimônio que ele nos deixaria e que eu não tinha o direito de lhe tirar isso! Nem sei como fiz para acalmá-lo e convencê-lo de que era uma brincadeira, como de fato era... eu acho! 
Uns anos antes eu o obrigara a desfazer uma venda que ele fizera em meu nome sem minha autorização, e isso foi algo muito traumático. Eu levava uma vida um tanto atribulada, não dei muita importância ao fato ou aos sentimentos dele, e nem sei dos desdobramentos da história, sei que, agora, a minha "brincadeira" com o nome foi de mal gosto, e que fui insensível, especialmente pelo fato pretérito ocorrido, e tê-lo esquecido e nunca me preocupado, só aumenta a minha insensibilidade e o meu desvalor. Pena que eu não tenha revisitado esse assunto antes da morte dele, é possível que ele nunca tenha esquecido essa ofensa, embora tenha, com certeza, me perdoado. 
Eu ainda me chamo Silva, e também os meus filhos. Mas Possodelli é bonito demais, né não?!! 


sexta-feira, 21 de junho de 2024

DOR DE BARRIGA

Quando estou com um grande problema por resolver, tenho presente e dolorida uma sensação de angústia que não me abandona até que haja o andamento de alguma solução. De há muito percebi que quando estou com fome tenho sensação exatamente idêntica. Curioso que seja a mesma em situações à primeira vista distintas. Percebi também que, satisfeito o estômago, a mente se acalma e  soluções para os problemas da vida fluem mais fácil. Quem tem fome tem pressa, diz a campanha, é a fome de alimento para o corpo agravada pela fome da alma, e a satisfação de uma pode ajudar a satisfazer a outra. 
Meditar sobre isso talvez colabore para entendermos as muitas fomes que a nossa sociedade sofre, e que são agravadas, muitas vezes, pela fome mais básica. Um indivíduo faminto, sente mais fundo a insegurança, a humilhação, o preconceito, pesa mais nele a realidade das desigualdades e as angústias da vida. 
Trato disso aqui agora, não por essa razão, que menciono apenas por ter me ocorrido enquanto escrevo e não perdi a oportunidade, mas por que estou sentindo essa dor nesse momento, e tenho vivido assim: com fome ou não, a maldita sensação de dor de barriga sempre presente, como se o dia e a vida estivessem cinza. Ontem não estavam. É assim, uma montanha russa, um dia ruim, outro bom, vários ruins, alguns bons, e a vida se esvaindo, as areias do tempo escoando ritmadamente, pra não mais retornarem. E até enquanto vivo um momento feliz, tenho a certeza sentida de que no momento seguinte não mais estarei feliz. Não é uma premonição, é experiência vivida por anos, nos quais as vitórias que me orgulham foram embaçadas pelas frustrações que me angustiam. A alegria não dura, e o preço que pago para alimentar-lhe a chama é muito alto, pergunto-me se não alto demais. Até quando minha mente e meu coração vão aguentar essa pressão alta, essa inquietude de alma, essa dor surda, que muito provavelmente desgastam pouco a pouco a minha máquina de vida? Vida plena, prenhe de satisfação e prazer, existe? Só em Deus, respondem os Cristãos. Eu sou Cristão, mas "homem de pouca fé!" já disse Jesus. Senhor, aumenta a minha fé, eu suplico. E nessa busca frenética por respostas e paz, o tempo continua, inexoravelmente, escoando "no devagar depressa dos tempos", como já disse Guimarães. 

terça-feira, 18 de junho de 2024

BURROS SEM RABO

Meu pai comprou uma casa na cidade. Um sobrado. É! Uma casa bonita, alta, em frente ao Ginásio João XXIII, onde eu faria o Secundário, atual Fundamental 2.
A compra dessa casa eu acompanhei. O Juca, dono do "Bar do Juca", a ofereceu ao meu pai. Inimaginável, achávamos minha mãe e eu, totalmente fora da nossa realidade! E ele, maravilhado com a possibilidade, achou normal e possível, falou conosco - nessa época com onze anos eu participava de todas as decisões dele, negociou 50 parcelas e alguns trabalhos, e lá fomos nós, morar na mesma região que os ricos. Fabiano, o mais novo dos seis, nasceu lá. A casa era estruturada em madeira e alvenaria, com assoalho também em madeira, com dois cômodos embaixo, num funcionava o botequim de meu pai, no qual eu atendia no contraturno da escola, e noutro eu dei aulas de alfabetização para adultos, pelo MOBRAL (Movimento Brasileiro de Alfabetização, criado pelo regime militar em 67 e extinto em 85). Meu pai foi meu aluno, não aprendeu nada comigo, nunca mereci mais que zero em didática.
No assoalho de tábuas ficou marcada nossa passagem para sempre naquela casa: numa noite de pane elétrica na cidade, uma vela foi colocada sobre a mesa da sala de jantar, de forma a iluminar todos os quartos. E esquecida. Ocorre que a vela estava apoiada sobre uma tampa plástica de algum recipiente, as chamas alimentadas e realimentadas pela cera, queimaram o suporte, depois o tampo da mesa, e depois a tábua do piso da sala, que ficou com uma depressão negra de carvão, uma mancha de uns trinta centímetros quadrados, que ainda estava lá quando nos mudamos para Bom Jesus do Itabapoana, em busca de melhores oportunidades de educação e trabalho. A tábua queimada talvez tenha sido substituída, minha memória permanece. 
Outra de tantas histórias lá vividas, essa que me dá orgulho contar: a casa era (ainda é) no nível da rua, e atrás dela havia um terreno íngreme, muito íngreme e comprido, de terra infértil, com velhos cafeeiros improdutivos. Uns mil metros quadrados de morro. Meu pai negociou com o lixeiro da cidade, no dizer mineiro de Fernando Sabino, um "burro sem rabo", que ele diariamente descartasse na rua, ao lado da nossa casa, o lixo recolhido numa carroça, nas casas da cidade. E todo fim de semana meu pai transferia o lixo, num balaio sobre os próprios ombros, para o terreno da casa, iniciando do ponto mais alto até o mais baixo, operação que durou meses.
Em algum tempo, não saberia dizer quanto, tínhamos bananas nanica, prata, maçã e da terra, cargas mesmo de bananas, e tínhamos melancia, tomate, batata, chuchu e mamão, e pássaros de todas a espécies, como sanhaços, saíras, sabiás, trinca ferros etc. Flores, frutos e pássaros, que transformaram um organismo morto num paraíso vibrante, a partir do lixo e da vontade de ferro de um homem. 

sexta-feira, 14 de junho de 2024

COSTURANDO HISTÓRIAS

Minha mãe fazia nossas roupas, ela não era beeem uma costureira, mas se virava. Diz-se que "o sapo pula por precisão", éramos oito pessoas a serem vestidas, meu pai não tinha como pagar, e ela supria as necessidades, às vezes até socorria algum amigo ou parente.
Uma tarde, acompanhei meu pai à cidade, para comprar uma máquina de costura para minha mãe. Ele deve ter "namorado" aquela máquina por muito tempo e poupado dinheiro para adquiri-la, ou comprou fiado, disso não me lembro. Sei que fomos pra cidade, ele, e eu do alto dos meus oito anos.
Morávamos no Sítio das Jaqueiras, distante uns 5 Km, não sei se tanto, porém para mim era muiiiito longe! E íamos a pé, naturalmente. 
Na volta, alguém nos levou numa pick-up, e meu pai pediu a um dos seus amigos para ajudar-nos até onde era possível ao veículo chegar.
Da estrada até o local da nossa casa eram uns bons 500 metros de descida íngreme, em meio ao pasto, por um caminho acidentado que nem caminho era, mas a vala por onde as águas pluviais desciam, erodindo agressivamente o solo.
Esse episódio ficou marcado na memória da criança, mais especialmente por duas razões:
A uma; quando voltávamos pra casa, os três na carroceria da pick-up, aprendi uns versos que meu pai falava para o "Tuca", muito engraçados e que não posso transcrever aqui, e que mostravam o homem alegre, irreverente e muitas vezes criança que ele era. Como reflexão, se este fosse um texto sério e eu tivesse alguma competência para desenvolver o tema, isso também serviria para demostrar como as crianças são perceptivas e memorizam o que aprendem, especialmente se for "porcaria", donde deveríamos ter mais cuidado com os exemplos que damos. Mas que era uma delícia ouvir meu pai falando bobagens, lá isso era!  A duas; a máquina saiu da caminhonete para os ombros do meu pai lá na estrada, desceu todo o caminho escuro e irregularmente desenhado, até chegar à nossa casa, e tudo num só fôlego, sem parar e sem conversar, talvez apenas uns gemidos provocados pela dor nos ombros, nos quais o móvel robusto, de madeira e ferragens, provocava sulcos na pele.
Eu o vi repetir proeza assim pelo menos mais duas vezes, uma quando segurou sozinho uma caixa d'água que instalávamos na lage da minha casa e a danada se negava a subir as escadas; e outra, quando mudamos para a casa que construímos em Nova Friburgo, e ele transportou nas costas, por uns 200 metros, sozinho e encurvado, um guarda roupas de 3 portas. Eu vi. Nem sei se é verdade minha, tão absurdo era!
Houve outras inúmeras demonstrações de força, sobretudo de força de vontade, como... Bom, já seria outra história.
Ah, a máquina está até hoje comigo. Meu irmão Fabiano queria levá-la quando nossa mãe faleceu, mas ele, que ao contrário de mim gosta de objetos antigos, foi generoso ao saber do meu interesse. Ela está no mesmo lugar. Um pedacinho dos meus pais e da nossa história. Para que mexer com as histórias?! 

quinta-feira, 13 de junho de 2024

ENTRE ARATACA E ARATACAS

Depois de uns dois anos morando na Arataca do meu tio Neca, meu pai conseguiu escapulir, e nos levou para uma casa que alugou na cidade. 
Ele era aposentado pelo INPS (atual INSS), um estilhaço de pedra explodida estilhaçara-lhe a coluna, e por isso recebia uma pensão menor do que um salário mínimo, que tinha que, pessoalmente, resgatar no banco, na capital. É que os bancos eram tão burros e rígidos quanto os bancos do jardim, o que o obrigava a uma viagem todo mês, em tempos de estradas de terra batida e barrenta, ônibus desconfortáveis, e sem comunicação (na Varre Sai da época só existia um posto telefônico para toda a cidade e só muito depois se veio a ouvir trim-trim nalgumas residências mais abastadas; celulares por lá nem eram sonhados!). Uma viagem tão longa, difícil, suja mesmo, repetida mensalmente, por míseros, em valores de hoje, oitocentos reais! Na época era permitido remunerar alguém por menos que um salário mínimo mensal, o que só mais tarde foi proibido, afinal, se era mínimo...
Pois bem, com aquela merreca, mais o seu trabalho diuturno na roça e sua enorme iniciativa e credibilidade, meu pai nos levou pra cidade, para morar em casa alugada, sustentando uma família já então com cinco pessoas, e ainda com o compromisso inafastável de fazer de todos, "dotores". 
Naquela casa fui apresentado à escola (o Colégio Miguel Couto Filho ainda está lá, igualzinho), às minhas primas distantes, tão queridas, tão lindas e que tanto me ajudaram, Ana e Maria; ao botequim do meu pai, onde aprendi as operações básicas antes mesmo de saber que era matemática; ao bulliyng que na época não se chamava assim, e à minha irmã Roneida que nasceu lá. 
Nos mudamos um ano depois para outra arataca, uma casinha também no fundo de um vale, branca com janelas azuis e uma biquinha d'água de nascente, envolvida por um cafezal, duas jaqueiras, três araucárias centenárias, que muito nos alimentaram com seus pinhões, brejo para plantar arroz, e iluminada por lamparinas e lampeões de querosene, e pela fé inquebrantável de meu pai em si mesmo, na sua capacidade excepcional de se adaptar aos momentos, aos ambientes e situações, e de se levantar após as várias quedas, com a tranquilidade da certeza de que cair e levantar fazem parte do caminho. Naquele sitio Flávio e eu vivemos grandes aventuras, Rosângela era novinha, Roneida recém nascida, e eu ia a cavalo, todo dia pela manhã, buscar leite na sede da fazenda para alimentá-las. 
De lá nos mudamos uns dois anos depois, em busca de proximidade com a Escola, era o meu pai na sua incessante busca pela educação dos filhos. Estávamos há uns 5 km da cidade, que pareciam 50 a duas crianças que iam e vinham, a pé, diariamente, sob sol e chuva, e fomos morar em frente ao colégio. 
Dali, de importante, lembro de conhecer o pão com manteiga (não gostei, era margarina sem sal), de uma das poucas fotos de família (era difícil e caro fotografar e revelar, e a cara da Roneida é piada interna até hoje); lembro também do mais importante, o nascimento da minha irmã Rosilene. 
Meu pai, porém, queria mais, ele queria uma casa pra chamar de sua. E foi atrás. Comprou, sei lá como, do meu Tio Neca, parte do terreno em que ficava a casa dele, e com um pedreiro, um carpinteiro, toras de madeira para fazer as colunas, e a sua liderança forte, num piscar de olhos estávamos morando em nossa própria casa, e ao lado dos nossos tios e primos, a família querida que tão bem nos recebeu depois da "fuga" do Rio de Janeiro. 
Ainda iríamos nos mudar mais uma dezena de vezes!

segunda-feira, 10 de junho de 2024

TRÊS CONTOS DE FAMÍLIA

Na madrugada o ventilador, sempre mansinho e preguiçoso, virou um tufão, e Sylvia acordou num susto, estaria alguém em casa?! E como entrara no quarto, com a porta trancada, como trancada também estava a porta externa? O coração soava alto, não tão alto quanto a geladeira que gritava, enquanto o micro-ondas ficava mudo, tão mudo quanto a Laika, que com seu silêncio afastava a possibilidade de invasão. Um cafezinho vai acordá-la de vez, e nunca foi tão expresso, assim mesmo, com X, tal a velocidade em que saiu. O café clareou as ideias, mais do que a luminosidade excessiva das lâmpadas, e ela começou a perceber que alguma coisa ocorrera com o sistema de energia elétrica da casa. Mais tarde soube provavelmente ser um pico de amperagem (?) que ocorrera, e à noite, um gerador na rua, em frente a sua casa, denotava ser mesmo algo assim. Pergunte aos operadores, garota! Ela não vai, prefere a dúvida a ter que conversar com alguns desconhecidos à noite, embora more nessa rua já há uns 10 anos, e tenha a segurança do Jonas e da Laika. Ela não vai exatamente por essas duas razões, a amperagem daqueles dois não dava picos, mansos demais. 

Vinicius veio de Niterói ver a namorada, ver o pai, ver a casa do Cascatinha. A namorada está grávida e próxima demais, o pai  está distante e preocupado demais, a casa está por receber hóspedes e mau cheirosa demais. E ele... ele está perdido demais. Enfrentar os problemas externos resolve os problemas internos, às vezes. A namorada tá bem, a menina terá uma menina; a casa está aberta, o cheiro do esgoto se dissipará pela natureza; o pai também está bem, aberto para o novo que vem todo dia. Vinícius então volta pra Niterói, amanhã é Dia das Mães, e ele tem três mães a homenagear... não está mais tão perdido; como a Sylvia, ele também tem muitos seguranças.

Renata e Rafaela estão no carro, vão fazer natação, emagrecer e ficar saudável é preciso. Um carro freia, outro também, e outro, e alguém bate atrás. O impacto vai deixar marcas em mãe e filha, poucas, como também no carro, mas o suficiente para  o carro não andar. Chora a pequena, trava a mãe, chegam os pais. O garoto do hotel velho de carteira nova lembra de tudo, olhara no velocímetro antes de bater na traseira do veículo delas, que bateram no da frente, que bateu no da frente, que atingiu o da frente. Ele estava a apenas 30km/h, viu no velocímetro enquanto tentava frear. Os carros são muito leves hoje em dia, como leves são os jovens, e distraídos, e brilhantes.

A vida segue, os carros serão consertados, as casas higienizadas, ventiladores ficarão mais lentos, as criancas mais rápidas, as mentes mais agitadas, os pais mais ocupados, as mães cuidando de todos, e o tempo deslizando e testemunhando histórias. 

domingo, 9 de junho de 2024

SANDICES DA PANDEMIA

Não me toquem.
Afastem-se de mim.
Eu estou com Covid. 
Final da quarentena, mas... nunca se sabe, né?

Ainda não sinto cheiros
Também não sinto dores 
Sinto horror de ver notícias
E saudade do meu pai. 

Ele não teve tanta sorte... se foi.
Não mais lerá poesias, nem me dará um beijo. 
Também não mais sofrerá com as maldades. 
Nem terá que votar a favor ou contra a vacina. 

Minha mãe já não estava aqui. 
Eu fiquei sozinho, estou vacinado, 
Mas não contra a solidão.

Não sei viver só. 
Preciso de vocês 
Até pra descobrir que é melhor ficar só. 

sábado, 8 de junho de 2024

DEUS, CORUJAS E MORCEGOS

Meu pai não era muito religioso, no sentido literal, mas pregava e vivia mandamentos como honrar pai e mãe, respeitar a mulher do próximo, amar o próximo com a si mesmo, não roubar e não matar; e era adepto ferrenho do "fazei o bem, não olhai a quem", pelo qual se chegaria certamente a Deus. E ele deve ter conseguido.
Me lembro da oração que ele fazia sempre, às refeições: "Meu Deus abençoai esse cumê que me deu sem merecê". Deve ter aprendido com os pais dele, repetiu, decorou e aceitou como estava, com  a rima pobre e bonitinha, rica de significado e tradição. Nunca se interessou muito por orações pré-formatadas, Pai Nosso e Ave Maria eram suficientes, o resto ele falava de improviso com Deus, num papo-reto
Quanto a mim, ainda criança eu tocava o sino na igreja às seis da manhã e às seis da tarde. Saía de casa ainda escuro, corria assustado de qualquer papel que o vento movimentasse, atravessava tremendo o salão da igreja, tentando, sem êxito, não olhar pra estátua do "Senhor morto", subia a escadaria da torre entre ruídos de madeira podre, e de corujas e morcegos voando assustados (só eles?), tocava o sino como se atirasse nos meus fantasmas, e voltava vitorioso para casa pra tornar a sair para o Colégio. 
Antes porém, com menos de sete, estudava em casa. Minha mãe não tinha paciência, então aprendi com meu pai, que era analfabeto, os numerais, as primeiras palavras e frases da cartilha, como "Vovô viu a uva", a única de que me lembro. Muitos lápis se quebraram na minha cabeça, imagino como seria com minha mãe!
Dna Elcy (professoras viraram tias bem mais tarde, antes eram só profissionais de educação, com o dever de ensinar, sem a emoção de pais e tios), Dna Elcy foi minha primeira professora, e em uma semana me passou para a terceira série primária, graças à teimosia de um analfabeto que acreditava na educação. 
Somente quando eu contava sete anos começamos a frequentar a igreja da cidade, onde meu primos já estavam, sendo que um deles, José Ronaldo, da minha idade, veio a se ordenar padre, espero que para ficar mais perto de Deus e interceder pelo perdão aos erros que iríamos cometer pela vida afora. 
Três padres conheci bem de perto. Do Pe José admirava o vocabulário rico, mas me marcou uma vergonha que me fez passar (ou me pareceu, à época): Era um casamento, já o tinha auxiliado em diversos; ele ia encerrando as assinaturas quando eu o alertei para uma que faltava. Ele riu, riu alto. - O coroinha querendo ensinar padre a rezar missa!.  Suprema humilhação, todos riram de mim. Ainda hoje acho que no tal livro existe uma linha em branco, mas... que me cale pra sempre! O Pe Manoel começou seu trabalho em Varre Sai e fui seu auxiliar por muito tempo, acho que aprendemos juntos muita coisa. Somos amigos até hoje, preciso ir vê-lo em Natividade e conversar um pouco, tenho me cobrado muito isso. E Pe Antônio era homem de obra. "Tá vendo aquela igreja, moço? Ajudei a reformar." A música antiga não é bem assim, adaptei-a pra me servir. Fui servente de pedreiro na igreja, e em seguida nos mudamos da cidade. Pe Antônio virou santo para a região, e eu... bom, de santo não tenho nada! 


sexta-feira, 7 de junho de 2024

TRANSTORNO

Eu gosto de lavar louças, aprendi ajudando minha mãe. Funciona para mim como uma terapia, como também varrer um escritório ou um quintal. Ocupado com aquela tarefa mecânica, relaxo, e, às vezes, me concentro nalgum assunto que preciso resolver.
Quando lavo loucas, primeiro separo pratos, talheres e panelas; depois lavo superficialmente as peças; e somente então lavo tudo efetivamente, ponho para escorrer cada um em seu devido lugar, as facas com as pontas para baixo para prevenir acidentes, garfos e talheres bem visíveis, para facilitar-lhes a identificação quando forem guardados. TOC? - Não,  organização, tanto que, se estou apressado não faço assim, às vezes nem lavo. Fato é que produzimos mais e melhor quando trabalhamos numa pia, numa mesa ou numa mente limpa e organizada. Também assim faço com a gestão do meu dia, minhas tarefas, meus problemas, e com os dias, tarefas e problemas das pessoas que me procuram, cada vez com mais frequência e volume do que dou conta.
Os problemas, como as tarefas, precisam estar bem visíveis, bem identificados, bem organizados, seja na sua bancada, seja na sua mente. Separe-os por cores, depois por tamanhos, depois por formatos, e quantas outras variáveis houver, por grau de dificuldade por exemplo, e somente então comece a examiná-los. Não se surpreenda se descobrir que tem menos problemas que pensava, ou que eles são mais simples do que você temia. Claro, pode ser que você conclua ter de fato um grande problema nas mãos, e outra vez a organização interna entra em cena. Não se desespere pelos problemas, todos os temos, e quando eles estiverem postos às claras, sem os fantasmas das sombras e as fantasias do medo, à luz da razão provavelmente parecerão menores, menos monstruosos. Tenha em mente que todos têm solução, e se não há solução também não há problema, e  com essa premissa, procure as alternativas, elas existem, você só tem que encontrá-las. Talvez estejam na sua frente, talvez em um amigo, talvez em Deus, mas elas existem, e você as encontrará. Muitas vezes o tempo é a solução dos problemas, ele os traz, ele os leva, vêm e vão sem que nada tenhamos feito. Fernando Collor (que bom que veio, que bom que foi), popularizou a frase "O tempo é o senhor da razão", e ela é muitas vezes verdadeira. De qualquer forma, os problemas precisam ser resolvidos para que a vida continue, mas você os resolverá mais facilmente quanto mais organizados forem o seus pensamentos. Experimente lavar louças. 

CULÊ, CULÊ, CULÊ!

Meu pai criava porcos e galinhas, para ajudar na economia doméstica. 
Eu gostava de vê-lo, ou ouvi-lo, chamando as galinhas pela manhã (prrrruuuuuu! prrrrrruuuuuu!), e elas apareciam por entre as plantações de café, banana, cana e flores, correndo estabanadas e famintas. 
Em seguida ele alimentava os porcos no chiqueiro, porém lá, quando ele chamava os bichinhos (Culê, culê, culê!) vinham os porcos, mas também as galinhas, em busca de um petisco de sabor diferente. E ele dizia, rindo: - Culê, culê, tudo é porco!. 
Quantas vezes eu acordei com os chamados do meu pai! 
Em casa, quando um irmão tentava culpar o outro por uma peraltice, ou no convívio externo, quando precisava avaliar o conceito de alguém, quase sempre a frase se ouvia, nem sempre entendida. 

A política, com razão, ganhou sinônimos negativos desde os tempos de Rui Barbosa; políticos a praticam em próprio proveito, e prejudicam os poucos (acho que ainda existem alguns) que honram o mandato popular e que são reduzidos ao mesmo denominador.  Também professores, padres, pastores, policiais, médicos e outros profissionais que lidam com seres humanos em situação de vulnerabilidade, inclusive e especialmente crianças, desonram seus ofícios ao serem omissos, ou, um tanto pior, maliciosos no trato com alunos, fiéis, pacientes, cidadãos, e, de novo, lançam à lona o conceito e o orgulho dos profissionais dignos de assim serem chamados. 

Alimentar os animais pela manhã era, na minha infância, uma tarefa deliciosa. Sessenta anos depois, observar os caminhos que estamos trilhando, me tira o apetite. Meu pai, que era um observador das cenas da vida, já dizia e hoje repetiria: Culê, Culê, Culê, tudo é porco!

quarta-feira, 5 de junho de 2024

SERPENTES A BORDO

Três amigos e eu fomos ao Rio, levados pelo meu pai, para prestar concurso para Terceiro Sargento de Aeronáutica. Na época me parecia uma boa ideia ter uma carreira militar, receber pra estudar por três anos, e, depois, poder vir de helicóptero, metido num uniforme branco, buscar a garota que eu amava.
Desde que mudamos para o interior do Estado, com 4 anos de idade, eu não voltara ao Rio, portanto, não conhecia nada de lá. O ônibus que nos levaria à casa dos meus tios chegou e saiu com estrépido, eu sentado no banco do corredor, no meio do veículo, bem posicionado para admirar a minha cidade natal, e segurando um pacote de linguiça de porco, pura, que minha mãe fizera especialmente para meu tio.
Eu não conhecia, porém, a agressividade ao volante, dos motoristas cariocas! Numa das primeiras esquinas tive que optar entre mim e as linguiças, e na dúvida, tentei proteger a ambos, claro que sem êxito. Dobrando a esquina em uma velocidade cantada, e freando num ponto a seguir, o motorista me deixou ajoelhado e envergonhado no corredor, enquanto as linguiças, qual serpentes assustadas, deslizavam e passavam por baixo da roleta lá na frente, meus amigos por testemunhas da minha humilhação. Já ri muito disso, mas no momento foi punk, palavra desconhecida à época.
Muitos anos depois, Aldir Blanc e João Bosco compuseram um samba que conta a história do casal que fora pescar siris no Farol da Barra, e... "na volta, ônibus cheio, o balde derramou em pleno coletivo... o velho trocador até pensou, "não bebo mais, siri passando em roleta mesmo pra mim é demais". É, pra mim também. O casal da história fora pescar para agradar a um compadre querido, e ficou sabendo, depois da aventura, que ele estava proibido de comer exatamente frutos do mar. Frustração total. A música pareceu feita pra mim, uma lenha no ônibus, pra depois chegar ao Maracanã, onde seria a prova, e não passar no concurso (havia matérias que eu ainda nem vira no colégio!). Me identifiquei de imediato, fui ao show do João Bosco, no Teatro Carlos Gomes, e comprei o disco "100ª apresentação", um LP que guardo até hoje, embora não tenha mais onde tocá-lo. 
Essa foi a primeira das três vezes que estive no Maracanã. Nas outras, vi o Fluminense perder uma decisão para o Vasco, e a seleção feminina de vôlei perder outra decisão para a Rússia. Tomei a decisão de não ir mais ao Maracanã. Talvez até devesse ter ido à decisão com a Alemanha em 2014, quem sabe quebrava a escrita?! Ôpa, acabo de escrever e o Lucas já me avisou que esse jogo não foi no Maraca, então o placar não mudaria, eu iria ao estádio errado! 


ERA SÓ O QUE EU QUERIA DA VIDA

A música, na alexa, pergunta: Mas o que é vida, afinal? É seguir o caminho que o mundo traçou, a cartilha que alguém ensinou, a receita da vida normal?

E eu, e meus botões, ficamos pensando no filósofo, que de certa forma responde: a vida não está pré-determinada, não há um destino pré-definido, a vida é uma sequência de fatos, incidentes e acidentes, obstáculos e oportunidades, e cabe a nós, passageiros, driblar ou superar os obstáculos que se apresentam, aproveitar as oportunidades, aprender com as derrotas, comemorar as vitórias... viver.

Muitas vezes eu olho pra trás, para a minha vida vivida:  Nasci na roça, no subúrbio do Rio; cresci na roça, no interior do interior do Rio; sofri as dores de adolescente tímido, pobre e sonhador; voei em sonhos pelo mundo todo, mas na real, as estradas me levaram de Varre-Sai pra Bom Jesus, Cachoeiro do Itapemirim, Marataízes, S José do Calçado, Brasília, Rio de Janeiro, São Paulo, Nova Friburgo, sempre em busca de estudar, trabalhar, melhorar a vida pra mim e os meus. E quantas aventuras, obstáculos, medos, erros, desespero, quantas vitórias, quantos amores...quanta vida! 

Algumas vezes olho para hoje, para a minha vida sentida: tudo lindo! Tenho mais de sessenta anos, trabalho dia e noite, tenho saúde e energia pra continuar trabalhando, moro no paraíso em meio à natureza, tenho uma mulher maravilhosa, poucos grandes amigos, problemas pequenos embora não poucos, dinheiro o suficiente, filhos vivendo suas vidas sem depender de mim, netos lindos e maravilhosos que estão aprendendo a não depender de mim também, irmãos próximos o recomendável, mãezinha do meu lado, e paizinho do lado de Deus mas que me visita todo dia quando me vejo no espelho. Sentado na sala, na cozinha ou na varanda, muitas vezes trabalhando no whatsapp, estou integrado com a natureza, seus pássaros, seus cheiros, suas cores, e com Deus. Era só isso que eu queria da vida!

Fazia o meu melhor, mesmo quando fui derrotado, mesmo quando magoei, quando fui egoísta, arrogante, cruel até. Vivi até hoje pensando em chegar aqui. Com perdão pelos meus erros, vou continuar nessa estrada até o seu fim, sem pedir quase nada, e agradecendo por tudo, inclusive pelo que virá. 

Senta, tome um copo, tá em casa, deixa que o amanhã seja amanhã, tem muito tempo, o que vale é o sentimento e o amor que a gente tem no coração.



domingo, 2 de junho de 2024

UM ADVOGADO ENTRE PEDRAS

Meu pai trabalhou numa pedreira. Ele quebrava pedras com uma marreta, a popular "sexta-feira", e dizia, com um certo orgulho, que era "marroeiro".
Certa feita, por causa de um acidente de trabalho não devidamente reconhecido pela empresa, nós fomos despejados da casa em que morávamos, e vimos, mediante força policial, nossos móveis e utensílios jogados na calçada, na rua mesmo.
Meu pai bateu às portas da Justiça, naturalmente que através da defensoria pública, e durante a audiência sentiu que o advogado não se empenhava, era apenas mais um processo para ele, assalariado do Estado. 
Com a voz forte e alta, imagino que, com pouco mais de trinta anos, muito mais forte e alta ainda do que a voz que aprendemos a temer e respeitar, ele se dirigiu ao Juiz, coisa inimaginável:
- Eu posso falar com o senhor, sua Excelência?
O Defensor Público se assustou, e puxou-o pela mão:
- Seu José, senta seu José!
E o Juiz, grave (Sorriria por dentro?):
- Fale, seu José!
E meu pai falou, discursou emocionadamente, e disse que era marroeiro mas não era burro, sabia que aquilo era uma injustiça. E o Juiz fez Justiça. Ele ganhou a causa e a ideia fixa de que eu seria advogado. Voltamos para nossa casa com o orgulho vingado. 
Eu queria ser médico e fiz Direito. Acaso do destino?
Meu pai era marroeiro, também foi advogado.... antes, era Pai.
Ele repetiu essa história muitas e muitas vezes... foi verdade!
Ele também foi enfermeiro, salvando um homem da morte por picada de cobra; foi policial, prendendo um bandidinho que machucou o meu irmão; foi açougueiro, tendo abatido centenas de suínos pela vida; foi leiloeiro nos leilões da igreja; construtor, líder de equipe, veterinário, promotor de bailes, dançarino, foi pai, ótimo pai, e foi filho depois, humilde filho, ao se reconhecer dependente dos filhos que tão bem soube criar. Meu pai foi exemplo. 


OS HOMENS DA CASA

Meu pai sempre foi o homem da casa, mesmo quando eu me tornei adulto; houve um tempo em que ele, consciente e quase que formalmente, me cedeu espaço, mas não muito; minha mãe, porém, não era fraca não, hein!
Eu era uma criança tímida, muito tímida, e morava na roça. Embora fosse a roça da roça, entre os jovens da roça que era a cidade, e os da roça que eram os arredores, havia um abismo. E eu ainda era um dos melhores, senão o melhor aluno da classe. Pronto: confusão armada! Presentes todos os ingredientes para que eu fosse o alvo preferido de todos. 
Era o meu lápis que era roubado, o meu livro que era escondido, eu era o escolhido para ser o bobo da roda. 
Certa vez, roubaram meu lápis, meu pai comprou um novo; dia seguinte roubaram a borracha, meu pai comprou uma nova e a amarrou ao lápis. Roubaram o lápis e a borracha, e eu apanhei. Uma surra para não deixar que me roubassem, meu pai disse.
Na saída da escola, sempre um "garoto problema", forte como um touro (eu achava), queria me bater, sob os aplausos e estímulos dos outros garotos, felizes por ter sido eu o escolhido, e não eles. Achava ser ele que roubava meus materiais, e falei para minha mãe. No dia seguinte, na janela da minha casa, que dava pra rua pela qual todos passávamos, tinha um bambu de uns 3 metros encostado, aguardando o garoto, que sentiu bem forte o peso dele manejado pelas mãos da minha mãe. Minhas coisas e eu fomos deixados em paz.
Muitos anos depois, eles morando em Friburgo, meu pai viajando, eu morando no Rio e minha mãe sozinha com meus irmãos menores, o alarme da minha casa dispara. Ela não se intimidou: pegou meu '38, saiu na madrugada e mandou bala para o alto. Quando meu pai voltou da viagem, os amigos do bairro lhe contaram a proeza,  admirados da bravura da minha mãe. Meu pai se orgulhou, o rato que disparou o alarme não deu a mínima, e o bairro dormiu mais tranquilo, minha mãe estava vigilante!
Nossa família sempre teve um homem da casa, mesmo quando meu pai esteve ausente. 





sábado, 1 de junho de 2024

TIO PATINHAS & CIA


 Meu pai, analfabeto, não queria ver sua história difícil repetida nos filhos, e traçava seus planos sempre nesse sentido, daí, quando não estávamos morando perto de Colégio, ele sempre estava planejando voltar para perto de um.Assim, que, no Sítio da Arataca, ele mesmo me ensinava. Na cidade, fomos para pertinho do Colégio, e depois, para um pouco mais  longe, o Sítio das Jaqueiras. Foi lá, que numa de suas viagens mensais à capital fluminense para receber o benefício de aposentado, meu pai me perguntou o que eu queria que ele me trouxesse de presente, algo que nunca acontecera. Lembro como se há 60 dias e não 60 anos! O livro que ele me trouxe foi uma revistinha do Tio Patinhas, que li e reli por uns dois anos, para ele, para minha mãe, meus irmãos e para as visitas. Quando voltamos à cidade, eu tive a oportunidade de barganhar o exemplar por outros, iniciando uma coleção de gibis, revistas e bolsilivros, que enriqueceram meu vocabulário e me acompanharam por toda a adolescência, até conhecer Monteiro Lobato, Castro Alves, e cia.Nessa época fomos morar em frente ao colégio, e depois, ciganos, sempre estivemos por perto de um, e, não por acaso, quando nos mudamos para Bom Jesus do Itabapoana também fomos morar ao lado de colégio.Meu pai me queria advogado, eu, médico, mas medicina não era para pobre, e quando um amigo me pediu para levá-lo ao vestibular da Faculdade de Direito de Cachoeiro Itapemirim, eu fiz junto com ele as provas, ele não se deu bem, meu pai é que se deu, realizou o seu sonho. Quase. Eu só advoguei profissionalmente uma vez, mas o suficiente pra ele. Para mim também foi, mas o conhecimento das leis, a habilidade em interpretá-las ou em buscá-las, foram e continuam sendo vitais, servindo-me em inúmeras situações práticas e também a muitos de meus amigos e familiares que me pedem ajuda. Já de há muito aconselho a quem me pede sugestões sobre qual faculdade cursar, que faça Direito, sempre que não tenha uma tendência a outra carreira. Na dúvida, faça Direito, talvez nenhuma outra prepare tanto para a vida prática, seus conflitos e obstáculos, qualquer que seja a função que se vá abraçar. Meu pai me queria advogado, me ensinou que educação era prioridade, me fez morar perto dos colégios. Hoje, sou advogado, faço negócios como ele fez, e ajudo a administrar uma Escola. Meu pai sempre esteve certo! 

ARQUIVADO NA NUVEM

No avião, vindo de São Paulo, uma ideia fixa, uma pergunta mesmo, se instalou em minha mente: Viver pra quê?
Não foi a primeira vez, só foi diferente. 
Há uns dez ou quinze anos, meu pai sofreu um AVC, nunca sofri tanto, ele ficou 15 dias na UTI, e eu na recepção, dia e noite. Há um ano meu pai se foi, e eu não sofri sequer um terço do que naquela época.
Interessante a vida, inteligente o Criador: o tempo passa, vamos vivendo, convivendo, sobrevivendo; ansiosos, ambiciosos, egoístas, altruístas, saudáveis, incansáveis, esgotados, idiotas, sábios, estúpidos ... e de repente a vida se apresenta tal como de fato é, como sempre foi, uma passagem, um túnel, com entrada e saída. 

Passar a vida acumulando ou tentando acumular bens para quê? Já pergunta, e responde, Augusto Cury: "- Para ser o mais rico do cemitério?!" Que sentido tem a vida se não for para partilhar e compartilhar? Para que acumular ódio, mágoa, rancor? Somos mesquinhos ao querer ganhar uma discussão a qualquer custo, ao manter uma posição qualquer por qualquer motivo, e às vezes sem motivo. Por quê somos tão ciosos do nosso valor, da nossa importância, dos nossos merecimentos, se não somos nada? Um cocô de pulga no universo?! 
Valorizamos, num dia, coisas que já não têm valor no outro, até as companhias. Por que colocamos em risco as amizades, os amores, os vínculos que criamos nessa caminhada, priorizando os nossos próprios interesses sobre os dos outros?
E nem a idade, a proximidade da morte, a própria morte morando ao lado, nada é capaz de nos abrir os olhos! Mesmo que não sejamos escravos do dinheiro e do poder, somos neuroticamente preocupados com o futuro, com a presunção de que temos algum controle sobre o amanhã.
Naquele avião fiquei pensando nisso, e meu pai diria que 'pensando morreu um burro", mas, somos burros! Tive o desejo de conhecer o depois, seja como ele for, escuridão ou nada, apenas uma passagem, uma saída, como a luz que brilhava à  minha frente: Saída /Exit. 
O avião deve ter sacudido a nuvem e dela caiu um arquivo confidencial que alguém lá havia arquivado. Vou elaborar melhor a ideia, e salvar por cima. Talvez não haja mais nada mesmo a fazer, só... sair.