quarta-feira, 17 de dezembro de 2025

SOZINHOS NA MULTIDÃO

Não sei se o mundo era assim, ou se eu é que estou prestando atenção nele agora que fiquei mais velho. Às vezes acho já ter nascido velho. 
Neste fim de ano, me lembrei de Aurélio, Ivo e Eraldo, amigos que se foram para sempre, na minha adolescência, sem aviso prévio, sem um abraço, sem um endereço, como se o tempo em que moramos na mesma rua, brincamos no mesmo quintal, estudamos no mesmo colégio, dividimos a mesma mesa ou a mesma paixão por uma garota, tenha apenas passado, sem vestígios, sem memória, mesmo uma vaga lembrança. Eles se foram sem olhar pra trás, como uma folhinha na correnteza. Com uns quinze anos, eu chorei no colo da minha mãe, de saudade pela perda deles, pela cidade vazia, pela ausência sentida desses amigos que o vento levou, indiferentes às conexões formadas e que ficaram para trás. 
Já disse que nasci velho, né? Tão cedo, já estranhava que o mundo fosse assim, assim distraído das amizades, assim egoísta, assim impessoal, um mundo no qual pessoas tão presentes por um tempo, num repente silencioso se vão com apenas um adeus, ou mesmo sem adeus, sem se importar com as expectativas que quebram, com o vazio que deixam, com as sementes que plantaram, com a decepção que causam. 
Suponho que os pais daqueles meus amigos fizeram o mesmo com os próprios amigos, era coisa de adultos, as crianças só repetiam. 
Estou falando no passado, mas, o presente é igual, e aí está o problema maior, as crianças crescem, e, adultas, são vítimas do mesmo círculo vicioso e imutável.
Se somos convidados para uma festa, um batizado, uma simples visita, não aceitamos, ou pior, aceitamos, não vamos, e depois "justificamos" a ausência.
Se trabalhamos com uma equipe, criamos laços, expectativas, mas a qualquer momento aceitamos uma outra proposta, que buscamos ou não, e lá vamos nós, sem aviso prévio, cegos pela expectativa do futuro, que nos faz esquecer do presente e irrelevar o passado.
Se interagimos num grupo de amigos, do clube, da igreja, da escola, do bairro, e nele criamos projetos, oferecemos ou conquistamos apoio, sem mais  decidimos mudar, e os outros,  "- Ora, os outros, que se mudem também!"
"O mundo não para; a competição é acirrada, predatória e desleal; aqui é cada um por si," justificamos impacientes, muitas vezes desgostosos por sermos vencidos pelo "sistema", quando nossos impulsos mais íntimos nos dizem que deveríamos ser mais solidários, rever os amigos, aceitar convites para estar juntos, nos comprometermos com outros, buscar o convívio dos iguais, e dos desiguais, respeitar as expectativas que criamos nos outros, saber elogiar e receber elogios, saber criticar e receber críticas, e, com essas premissas e valores em mente, saber ir embora, mudar, aceitar propostas, buscar melhores caminhos, mas valorizando passado e presente, sem se deixar cegar pelo futuro, e sem se permitir ferir as pessoas. 
Talvez decepcionados com os outros, reagimos copiando-lhes o comportamento e normalizando o desvalor pelas relações, pelos sentimentos, pelo próximo; e assim perdemos a nossa essência, a humanidade que nos define com todas as suas emoções, inseguranças e incoerências, e nos transformamos em inteligência artificial. Ou nos conscientizamos disso e buscamos nos fortalecer nas relações, ou seremos solitários em meio a uma multidão de outras máquinas.

quarta-feira, 10 de dezembro de 2025

RIMANDO AMOR E DOR

Tenho escrito alguma coisa sobre o meu mundo, muito escrevi com o Apolo deitado ao meu lado, e quantas vezes parei para fazer-lhe um carinho, ou ele me obrigou a parar!
Dias atrás, comecei um texto, de novo com ele, mas desta vez sobre ele. Queria registrar uma história de  amor que só eu e ele, talvez a Valeria, conhecíamos.
Mal sabia eu que essa história teria começo, meio e fim, e um fim muito mais próximo que o esperado, e muito, muito mais doído.
Pra que rimar amor e dor? cantou o poeta. Eu acho que andam juntos, mas vou rimar escrever pra não morrer, para desabafar. O início do texto era assim, o fim, o universo escreveu:
Ele chegou numa noite escura, por um amigo trazido. Brilhavam os olhos pequenos e espertos, mas ele parecia aturdido. Será que vai gostar de mim? Ou vai ser um estresse? O amor é tão estranho! Acontece sem avisar, muitas vezes nem acontece! 
Dia seguinte o sol nasceu num céu azul, e a paz parecia se impor. Mas ele não estava nessa vibe, os olhinhos não tinham o mesmo tom. 
Cheguei o mais próximo que pude, um carinho ofereci. Ele ficou na solitude, não pareceu reagir. Me aproximei novamente, quando o trabalho permitiu, escolhi palavras doces e os braços estendi. Ele reclamou, e me arranhou. Mais tarde, pensei ler nos seus olhos um desejo de... nem sei. Com coragem fiz um carinho, minha mão ele beijou. E uma relação de amizade, aí então começou. E como é próprio das relações, seja de humanos ou animais, ora é bom, ora ruim, mas sempre se quer mais. 
Com ele valia tudo, não precisava muito não, não era exigente com comida, gostava de maçã e mamão, da raçãozinha de cada dia, até comia pimentão. 
Cidadão do mundo, conosco por todo lugar viajava, e só ficava bravo, quando um estranho se aproximava. Era o guardião da Valeria, ela era a sua deusa adorada, olhinhos fixos na sua presença; na ausência, fixos na entrada. Após o jantar, para o sofá, só esperava a TV ligar. E a entrega era total. Dormia de roncar, sobre nós ou entre nós, não gostava de jornal, 
E ia sozinho para sua cama, quando passávamos do habitual, mas se deitava no tapete, até que fizéssemos igual. Todo dia pedia carinho pela manhã, primeiro a ela, depois a mim, seu maior fã. 
Arrumamos uma amiga pra ele, para a Laika é que fez mais bem, ele tinha a nós sempre presentes, ela não tinha ninguém. 
Os dois brigaram no início, era da índole dele proteger, mas depois ficaram inseparáveis, era brincar e correr.
Ele, porém, muito agitado, nisso se parecia comigo; pulava, gritava, acariciava, só não era de muitos amigos. No mesmo tom recebia e se despedia, não gostava que fossem embora, zangava com Arthur e Leninha, dentro de casa ou lá fora. Embora pequeno, era ágil, só se chegava quando ele queria. Valeria se desesperava, quando os carros ele perseguia. E ela reclamava comigo, por chegar muito rápido; eu dizia que ele não era burro, não seria tão descuidado.
Até que ontem, quando eu chegava, alegre pra contar uma novidade, ele correu para mim, eu não o vi, e... nosso mundo caiu. 
Não pensei que fosse possível sofrer tanto assim, não sabia que tanto espaço ocupava um animalzinho tão pequenino! Sabia, mas não sentia, que a vida é frágil, e que pode mudar em um segundo. Sem recurso. E agora tenho que viver com a saudade do meu amigo, e com a culpa por ele e pela dor da Valeria.
A Rafaela, que chorou muito, abraçada a mim e à "vóbis", me falou hoje: "Tio Ando, não fica triste. Sabe o que eu fiz ontem? Eu pedi a Deus pra me mostrar o que fazer com a minha tristeza. Ele disse pra eu jogar pra cima, pro universo. Eu fiz e perguntei: Deus, e agora? E ele disse: Agora, caminhe!".
A Rafa tem sido, do alto dos seus dez aninhos, o nosso suporte quando a noite cai; a Laika, uma golden que trouxemos do Rio só por estar doente, amiga e carinhosa, ocupa um pouco das nossas mãos tão carentes de fazer carinho. Nada acontece por acaso, tudo e todos têm, neste mundo, a sua função, e aquele leãozinho chatinho e valente, certamente cumpriu a sua com  louvor. Que Deus o receba no céu dos cães...  Quanto a mim, ainda muito tenho que caminhar.