sexta-feira, 27 de setembro de 2024

SAUDADES DO FUTURO


Hoje acordei meio estranho, não estava triste; não estava alegre; não estava animado para trabalhar; tampouco desanimado ao ponto de ficar deitado; não estava com fome, apenas o cafezinho de lei, mas sem conversar; não estava com vontade de sair e subir o morro da minha casa, porém também não queria ficar dentro dela; meu telefone me chamava em altos brados, mas eu não estava a fim de me aborrecer de manhã; me forcei a ler as mensagens do WhatsApp por que sabia que iria me aborrecer depois; perguntei-me o que estava errado e não consegui me responder; perguntei-me o que planejara fazer hoje, e me vi sem planejamento; opa!, aí está!, ontem eu não tinha feito a minha agenda de hoje. E como não pensara no amanhã, meu amanhã, que é hoje, está vazio, sem sentido e sem estímulos. Já que me perguntando, refletindo, buscando respostas, me lembrei de um advogado amigo e irmão, muito espiritualizado, e com o qual sempre converso sobre tudo, como os amigos costumam fazer. Ele me disse, na última vez que nos vimos, que o mundo está estranho, que a Justiça, a área dele, não é justa, que juízes ganham demais, não sabem demais, legislam demais, julgam de  menos, enquanto o povo, sofrido, sentido, carente, descrente; está perdido, confuso, desanimado e inquieto, dando mais material para o judiciário legislar. O povo que Affonso Romano de Sant'Anna define, com santa ira, assim: "Povo não pode ser o coletivo de fome. Povo não pode ser um séquito sem nome. Povo não pode ser o diminutivo de homem. O povo, aliás, deve estar cansado desse nome." 
Esse povo cansado que clama por Justiça, recebe as penas da lei, leis feitas por quem não é povo, aplicadas por quem também não é. Meu amigo defende que, não podendo acreditar nas leis, que podem ser alteradas a qualquer momento e por quaisquer circunstâncias, circunstâncias que jamais levam em consideração o povo, ele, esse coletivo abstrato e invisível, inseguro perde a esperança em dias melhores, perde o estímulo de trabalhar, de empreender, de estudar, de criar, de construir o futuro. 
Nesse ponto dos meus pensamentos, retorno ao poeta, escritor e cronista. Ele escreveu que o futuro anda fazendo uma falta enorme a muita gente, gente que não se dá conta disso, como as pessoas cinza-esverdeadas das filas de banco e dos assentos dos ônibus, ou os executivos que gesticulam e falam alto ao celular, mas que giram tontos em seus negócios, como perus bêbados; que esse país já teve uma relação melhor com o futuro; que mesmo mentiroso, imaginário e irrealizável, aquele futuro realizava o presente, as pessoas saíam de suas casas, rumo ao futuro prometido e acreditado, e assim, produziam. E o poeta continua, dizendo "desconfiar que as pessoas hoje estão pensando apenas no presente, e, portanto, pensando curto, parco e pouco". O século XX passou, o século XXI está passando, e o futuro continua nebuloso. Provavelmente daí venha a ansiedade e a angústia, que tantas crises provocam, conclui nosso cronista. 
E eu, na minha manhã apática, cinza esverdeada, concluí, ouvindo o advogado e o poeta, que de fato, sem visualizar o amanhã, não temos interesse em realizar o hoje, e como o amanhã também será um hoje, melhor antecipar o futuro, para que o hoje de amanhã, que se repetirá dia após dia num presente contínuo, seja o nosso futuro e nos leve a, diariamente, acordar sabendo o que fazer. E querendo fazer. Deixo minha cadeira, o morro me espera, o futuro me chama. 


domingo, 22 de setembro de 2024

QUARTOS COLORIDOS DE MIM

Você diz que eu sou ingênuo, que o meu cérebro é dominado pelo quadrante vermelho, que privilegia as relações e as emoções... e acho que é sim, viu? Fiquei pensando nisso desde ontem, e vejo que você acertou, o teste é bom mesmo. 
Você diz que eu quero ajudar a todo mundo, e que demonstro isso o tempo todo, mas que pessoas que nem precisam tanto se aproveitam disso. Eu concordo, vejo acontecer. 
Você diz que, emocionado com um pedido mais inteligente ou mais apelativo, eu baixo a guarda, se guarda tenho, e me exponho a ser manipulado, e eu acho que isso acontece mesmo. 
Você diz que o meu  quadrante que pensa com mais objetividade, que faz cálculos lógicos e que projeta resultados futuros para determinar as ações do presente, está, digamos, um azul pálido, meio que enfraquecido pelo calor do vermelho, pela tranquilidade do verde e pelo brilho do amarelo; que emoção, organização e criatividade, estão desequilibrando meu sistema neural, e minhas sinápses estão carentes do azul. Sei lá, minha mulher diz, mesmo, que homem não sabe nada de variação de cores. 
Noutro dia ouvi, do Cortella, que quando alguém reage mal a algo que dizemos ou fazemos, por melhor que tenha sido o que fizemos ou dissemos, o que a pessoa disse ou fez em resposta não tem a ver conosco, mas com ela mesma. Daí que não devemos nos deixar atingir pelo que as pessoas falam ou fazem, isso diz respeito tão somente a elas. Gostei de ouvir isso, e mudei minha cabeça na mesma hora. Mas eu, vermelhinho, nunca consegui me abstrair, e sempre reagi dizendo coisas como: "Não ponho preço no seu serviço, não venha botar preço no meu!". Ou, "Se você não tem tempo pra fazer o seu trabalho, por que aceitou o trabalho? " Ou ainda, " Se você não quer para o seu filho, por que quer que eu faça com o filho dos outros? “ E por aí vai. E por aí, perco contatos, contratos e amizades. E aí precisa do remedinho azul, precisa que o azulzinho entre em cena, potente e pragmático, para restabelecer o equilíbrio. 
Acho que sou mesmo assim, emocional e ingênuo. 
Se um amigo precisa de um empréstimo bancário, empresto meu carro pra ele ofertar em garantia; até um imóvel já transferi para o mesmo fim! Se outro precisa de trabalho, adapto o perfil do cargo para o acolher. Se um cliente está em dificuldade com pagamentos, elasteço o prazo, libero os juros, reabro o crédito. Se uma pessoa me procura pra pedir ajuda, de alguma forma vou ajudá-la, certamente. Sempre confio primeiro, e só depois do dissabor posso mudar de opinião, porém não sem uma segunda ou terceira chances. E já faltei a compromissos importantes para ajudar a pessoas que nem conhecia direito, sem pensar no que perdia. Se me oferecem um negócio, que também é uma oportunidade de fazer o bem, não titubeio; avalio, sim, os riscos, porém se tenho condições de fazer o negócio, pondero os riscos frente às oportunidades, e decido superar uns para alcançar outros, sobretudo porque a oportunidade poderá não se repetir. 
Na minha ingenuidade, acreditei sempre estar ganhando, de uma ou outra forma, mesmo perdendo nalgumas situações. Emprestei meu nome, ganhei restrições; meu carro e o imóvel, e os perdi; dilatei muito prazo de devedores e a inadimplência persistiu; confiei em muitas pessoas que me decepcionaram; maaaas, ganhei amigos, ganhei satisfação pessoal, vi pessoas que ajudei prosperarem, móvel ou imóvel que perdi não me fizeram falta, e até por causa disso ou a partir disso, constituimos uma empresa que sustenta dezenas de famílias e até uma Escola, esta também a partir de um desses erros vermelhos; e se o azul está pálido, é de vergonha, por ter que reconhecer logicamente estar dando certo. Meu vermelhinho não faz nada para ter quinze minutos de fama, nem pra deixar de ser oprimido para ser opressor (talvez isso seja mais coisa do azul), ele age talvez por um pouco de egoísmo, fazer o bem hoje para estocar coisas boas para amanhã, ajudar quem parece precisar, para merecer ajuda quando de fato precisar, enfim... um "egoísmo bom", se isso existe. 
Você me diz que eu me desgasto ouvindo a todo mundo, tentando ajudar a todo mundo, me enganando e me decepcionando às vezes, quando deveria me preservar mais, ficar mais azul vez em quando, para guardar energia pra quando eu mesmo precisar, ou até pra ajudar mais e melhor a mais pessoas, e acho que é sim, viu? 
O propósito do teste foi alcançado, temos um diagnóstico, um rx do funcionamento do meu cérebro que demonstra um certo desequilíbrio entre os quadrantes; só não sei se devo, ou se quero, trabalhar pra mudar isso, e então resolvi escrever pra mim mesmo; me ouço melhor quando escrevo, faço muito ruído quando falo, e às vezes me desvio, ou deixo outros desviarem, por rumos, pra mim, menos importantes. 
Buscando, no infinito azul, alguma resposta ou alguma inspiração, não me vejo como sensível em excesso e pouco objetivo, embora me veja assim algumas vezes, e embora já tenha decidido assim muitas vezes; vejo mesmo que, nos erros que cometi por decidir mais avermelhado, os prejuízos foram empalidecidos pelos resultados satisfatórios e mensuráveis que obtive. Sei que o capitalismo enaltece essa dureza dos Abílios, Jorges, Elons, mas eu, na minha insignificância feita de umas dezenas de anos, vividos quase todos no lado fraco da corda, não acho que ensine a ninguém repetindo os erros que esse pessoal comete, e morre cometendo. Quero viver diferente, não como São Francisco ou Madre Teresa (estou longe de ser santo), mas como um Fernando qualquer, que chegou mais longe do que um Terceiro Sargento de Aeronáutica, o máximo que sonhou um dia pudesse alcançar (sem qualquer demérito ao cargo), e não passou no concurso. Fato é que estou desgastado, não por agir assim, mas por ter que defender o tempo todo essa linha de ação, seja para os que me vêem como concorrente, seja pra quem me ama, seja para quem não vê o que eu vejo e quer me fazer ver diferente. Como o poeta, eu diria: Metade de mim é abrigo, mas a outra metade é cansaço. 


domingo, 15 de setembro de 2024

SE NÃO FOI, NÃO VAI TER FINAL

Ela estava muito acima de mim, era muita areia para o meu caminhão, mas muita mesmo, tanto que eu a admirava sem me aproximar, tal a distância que a via de mim, um abismo. Mas eu a via. Trabalhávamos na mesma área, éramos colegas mas não amigos. Numa noite fui convidado, junto com a turma da qual eu meio que participava, para o aniversário de uma amiga comum no ap delas, com todo o glamour e a carga romântica que Copacabana carrega consigo. Minha amiga aniversariante, recém separada, cantava, com os pulmões de outra Fafá, a de Belém, "Jogue a cópia da chave, por debaixo da porta, que é pra não ter motivos de pensar numa volta, fique junto dos seus, boa sorte, adeus", e repetia entusiasmada. À meia luz, ela brilhava, e quando tocou, claro, como sempre toca, a eterna "Whisky a go-go", ao primeiro acorde já estávamos um nos braços do outro. Mais forte que a sensação de muito gelo e cuba libre, me  eletrizava a energia que lhe fluía da pele. No fim da festa não houve beijo, não sei como a noite terminou, aquela noite não terminou. Marcamos de sair no dia seguinte, e saímos, fomos conversar ao som das ondas, as mesmas que Cecília diz "...se quebram tão debruçadas na areia, quase vida, quase morte, quase canto de sereia". E aquela sereia, do pedestal que construí pra ela, da crista da onda, descia até mim, um humano qualquer. Poderia ser uma linda história de amor, não tivessem as águas desenhado nas areias um caminho diferente.
No dia seguinte, eu ainda processava aquela impressionante sequência de ondas que se precipitaram sobre mim e me inundaram corpo e alma, quando soube que ela tinha viajado de urgência, seu pai falecera inesperadamente. Ela era muito ligada ao pai, muito mesmo, mas mesmo assim não tenho explicação para a mudança radical e repentina que então se produziu. Não houve um recado, não houve um bilhete, whatsapp não havia. Algo aconteceu no interior daquela estrela e ela não voltou a brilhar em nossa constelação, não voltou ao trabalho, não voltou a comandar as ondas com seu riso fácil, a liderar os amigos com sua delicadeza de alma, ela não voltou pra mim. 
Soube que se casou uns poucos meses depois, com um homem muito mais velho, viúvo e com filhos, num acerto qualquer que nunca entendi. Não sei se foi assim, assim ouvi. Impactado com  a fantástica sensação de ter passado de simples mortal a namorado de sereia, e sereia de Copacabana!, tive que assimilar a realidade de voltar à insignificante mortalidade, e contrariando o meu perfil, fiquei paralisado e inseguro como um minúsculo tatuí, inexpressivo e invisível, e como tal nada fiz para tentar esclarecer o mistério, me deixei esquecer na areia. 
A vida é o que se inventa, diz a canção, então inventei outras vidas e o tempo passou, e hoje, como canta o poeta, "lembrei de nós, do que não foi, e se não foi, não vai ter final". Não tem final um relacionamento que não aconteceu, momentos que não se concretizaram, uma história que não teve desfecho. Ela viveu bem, eu imagino, eu também, tenho certeza, e um sonho a mais não faz mal.

quinta-feira, 12 de setembro de 2024

PETRÓPOLIS PARA QUEM NÃO FOI A PETRÓPOLIS, HOJE.

Ontem, pela manhã, Rafaela dizia, - Amanhã não vou dormir. - Ué, como não vai, ansiedade com a viagem?  - Também, mas se dormir não vou acordar e vou perder o passeio; minha mãe também! 
Na Escola também estava assim, um frissom geral já na véspera. Passeio escolar é um acontecimento. 
Hoje, cinco e meia da manhã, frio mas não muito, muita criança, muita algazarra e alegria, professoras e mães tentando organizar as coisas, o ônibus quase cheio e o motorista quieto, provavelmente também ansioso pela partida embora já faça isso há anos, mas, nesse caso, acho que para se desincumbir logo da imensa responsabilidade de transportar pessoas... e crianças. 
Eu queria ser criança outra vez, dormir de perder a hora; não dormir de medo de perder a hora; até querer tomar remédio para enjoo; ter minha mãe e/ou meu pai sempre ao lado; rir de qualquer bobagem inclusive de mim; querer ser motorista de ônibus; me apaixonar pelo amiguinho ou amiguinha; sonhar com a tia ou o tio; me emocionar com uma borboleta de cores vibrantes; vibrar com o sol, nascente ou poente, e com a lua que acalma o sol; admirar o horizonte que emoldura astros e estrelas; gostar dessas viagens loucas, cansativas e desconfortáveis... ora, eu sou uma criança!
Saímos às seis horas, o dia clareando, o trânsito ainda tranquilo, não tinha névoa na serra. Eu achava que iríamos por Teresópolis, mas num ônibus tão grande seria mesmo uma  péssima escolha. O guia Thiago falava e todos ouviam como se estivessem numa sala de aula: Aqui é Cachoeiras de Macacu. Município muito grande, embora não pareça. E tem fábricas de doce de banana, de cerveja, envase de água mineral... - Tio, uma pergunta? Nós estamos em Cachoeiras de Macau?! Igualzinho em sala de aula.
Lanchamos em Cachoeiras, seguimos viagem. E o guia seguia também: Vejam lá a Serra dos Órgãos, aqui já estamos em Guapimirim. Já, já vamos pegar a BR040 e depois a serra para Petrópolis. Vamos entrar pelo bairro do Quitandinha, lá era só uma quitanda, uma espécie de venda, de mercadinho, uma quitandinha, daí o nome do bairro, famoso pelo Hotel Cassino do Quitandinha, um prédio imponente e lindo, como também seus jardins e o grande lago. Aprendemos com Thiago segundo, o guia local, que o Cassino fechou, junto com todos os outros quando o jogo foi proibido pelo governo militar de Gaspar Dutra, o hotel faliu, seus apartamentos foram vendidos para famílias, como num condomínio residencial qualquer (só que chiquérrimo), e as áreas de lazer e dos grandes salões foram vendidas ao SESC. 
Daí fomos pra a casa de Santos Dumont, o Professor Pardal brasileiro, que qual europeu de raiz, fincou raízes em Paris, mas tão leves que voaram, elevando o nome do Brasil. E o Thiago segundo falava das escadas famosas, com degraus parecendo metades de raquetes, do rústico chuveiro de águas quentes, feito com balde metálico fixado ao teto, com divisões para água quente de um lado, água fria de outro, misturadas por um sistema de comportas acionadas por cordas; e nos ensinou que o BIS do 14, nasceu de ser uma versão aperfeiçoada do décimo quarto modelo que nosso herói tentou fazer voar; tinha o 14, ele o considerou bom e chamou a segunda versão de 14 BIS. 
O Thiago segundo fala num tom monocórdico, cronometrado e acerta todas. Sem tirar o olhar da plateia, sem perder o fio e o ritmo, ele orienta o motorista, sabe quando a fábrica que fechou e virou estacionamento está à esquerda (as meninas olharam pra direita), e ainda espera que o motorista diga se entendeu. E se irrita baixinho: "- E ele não responde!",  e com o microfone aberto! Mas ele não desiste: - Turminha, foi D Pedro I que comprou o terreno pra fazer a casa de campo dele, ele comprou mas não viu, só D Pedro II curtiu, o pai se mandou pra Portugal.
O Museu Imperial é a razão principal do passeio, e não decepciona. Muita história, muito passado que se torna presente e real, muitos detalhes que vimos na escola e só agora ficam evidentes, e curiosidades que  vamos conhecendo a depender do Thiago que estivesse do nosso lado, e lá nos coube um casal de Thiagos, os professores de história Patrícia e Rodney, que esmiuçaram pra nós, o que as telas, joias, os móveis e as carruagens deixavam de dizer. 
Enquanto o Thiago segundo falava da esposa do xará dele, o Pedro II... - Tio, eles já morreram?!!! Bom, ainda não tínhamos feito o tour pelo museu, quem sabe na saída a ordem natural se restabeleça! Oremos. 
Foi legal ver a linda coroa de D Pedro II. Lamentável que pra fazê-la roubaram as pedras da coroa do pai dele; de uma certa forma continuamos sendo Império, por mais impostos que se cobre, continuamos pobres, nós, os súditos. Por que pedras haviam, e muitas!
Vamos para nossa última parada, o Palácio de Cristal. E o Thiago Segundo continua falando: Adquirido da França, pelo Conde d'Eu, para abrigar a primeira feira de flores de Petrópolis, na Primeira República foi abandonado, uma chuva de granizo destruiu parte dos cristais, e o que sobrou... sumiu. O tempo passa, o tempo voa, e as histórias de ladroagem continuam numa boa, e como vimos, começaram há muito tempo. Nem sei como não levaram a estrutura metálica do Palácio, afinal, as do viaduto da Rodrigues Alves, no Rio, eram maiores e muitíssimo mais pesadas e sumiram também, como se "sumir" fosse possível! Mágica da Cidade de Pedro, mas também das cidades, estados e países de muitos outros nomes. 
A volta de um passeio desses, divertido mas extenuante, normalmente é mais tranquila. Sem sobressaltos, descemos e subimos essas serras dessas terras maravilhosas que Deus nos deu e nas quais temos o privilégio de morar, e que sobrevivem, aos trancos e barrancos, por mais de meio século, a essas figuras, de ou fora de governos, capazes de abandonar a cultura, apagar a memória, desviar joias, roubar cristais, espoliar o povo; gente que adoraria estar dentro daquelas liteiras que vimos expostas, enquanto trabalhadores sem salários os carregaríamos pelas ruas.
Precisava voltar ao tom leve do texto, mas deu ruim, já não consigo. Fico por aqui, com a certeza de que fizemos um passeio lindo, e a julgar pelo que ouvi das crianças, um passeio com um conteúdo riquíssimo, que foi apreendido e que  elas não esquecerão. Falando por mim, eu também jamais esquecerei, aprendi muitas coisas novas, e reafirmei coisas que já sabia, sobretudo como é bom conviver em paz com gente, e com vocês pais que estiveram conosco.
Obrigado e até já. 

sexta-feira, 6 de setembro de 2024

EM GRAMADO TAMBÉM SE TRABALHA

Quase todo mês vamos a São Paulo, e algumas vezes viajamos pelo Brasil, participando de Congressos de Odontologia. Essas viagens, embora a trabalho, funcionam como válvula de escape para o estresse do dia a dia, porque mudam a paisagem e o ambiente, as pessoas com as quais nos relacionamos, os assuntos dos quais nos ocupamos. As questões muitas vezes são resolvidas mais facilmente quando vistas por outro ângulo, isso quando não se resolvem por si mesmas, o que não raro acontece.
Neste agosto nos entregamos a um desafio estimulante: viemos a Gramado, a belíssima cidade do Rio Grande do Sul, onde acontece um Congresso de Endodontia. Na dúvida se o evento aconteceria, em decorrência da tragédia que se abateu sobre a região, optamos por não comprar passagens aéreas,e, confirmado o congresso, tivemos que vir de carro, mas não deixaríamos que isso fosse um problema. Foram cerca de dois mil quilômetros de rodovias, isso só numa perna!, a maior parte em estado precário de conservação e segurança. Valeria e eu, Edgar e Ricardo, o ruído do motor, e, entre umas e outras paradas, aprazíveis e produtivas reuniões de trabalho. 
Nosso escritório é no carro, dizia Edgar; na verdade é no carro, no quarto ou na sala de casa, na empresa ou no avião. O trabalho nos acompanha diuturnamente, está integrado à persona desses quatro indivíduos que o veem, não com a dúvida do "trabalha pra viver ou vive pra trabalhar?", mas como vida mesmo, de moto-contínuo, de engrenagens que rodam criando sentido e dinâmica, produzindo resultados concretos, realizando sonhos, enfrentando, superando ou contornando obstáculos, transformando o futuro, e formando legados. 
Ricardo, Edgar e Valeria, são profissionais como não se encontra facilmente, é gente que assume compromissos por gostar de assumi-los, e que faz o que precisa ser feito sem se perguntar se deve ou não deve fazer, se vai ou não receber por isso. Dessas pessoas que, quando se encontra, não se pode mais abrir mão e nem se imagina perder, pessoas com as quais se cria laços pra toda a vida e mais um pouco. 
O problema é que não se faz uma empresa, ou pelo menos não se mantém, com meia dúzia de três ou quatro pessoas. Como formar um time de profissionais com esse comprometimento, com o nível de disposição e fidelidade desses três? Eles não tiveram nenhuma formação convencional específica, foram educados, desde o berço no seio da família, e enquanto cresciam e amadureciam, a valorizar relacionamentos, compromissos, trabalho e conquistas, a fazerem o que tivessem que fazer mesmo sem receberem ordens para fazê-lo, a serem proativos; e eles trouxeram espontaneamente esses ensinamentos para a vida empresarial. Que Escola ensina isso?!!! Uma alternativa é garimpar pessoas que tenham formação semelhante e integrá-las à equipe, e incorporar tais valores à filosofia da empresa, para aumentar no time a capacidade de trabalho, de resiliência, de respeito e admiração pelos clientes e entre os colegas,  engajando todos numa mesma vibe, encantando o cliente. 
Assuntos assim tratamos no escritório, onde quer que ele esteja; agora está em Gramado, em seguida BH, muitas vezes em São Paulo. Enquanto conhecemos os bons restaurantes da cidade, ou nos divertimos jogando baralho, zoamos o Edgar que trata a cútis com esfoliante, fazemos churrasco no enorme airbnb alugado pela Valéria (com aquecedor para suportar o frio de zero grau previsto), também fazemos planos para aprimorar o serviço que a Endovita entrega, organizamos o estande de vendas, atendemos os cerca de trezentos clientes, e nas noites, depois do jantar acompanhado por vinho e cerveja, trabalhamos mais. Queremos ser melhores para os nossos clientes, queremos que eles saibam disso, vamos focar nisso e vamos chegar lá, dando-lhes tanta alegria e satisfação ao comprar e receber, quanto a que sentimos ao atender bem e vender, ou quando estamos juntos e nem sabemos distinguir o que é lazer e o que é trabalho. 


quinta-feira, 5 de setembro de 2024

DUPLO ELE NA PÁSCOA

Sábado Santo em Nova Friburgo, na serra fria e chuvosa não se enxergava um palmo adiante do nariz. Oportunidade de descansar das duas semanas de trabalho quase ininterrupto, pausado somente quando a mente dava sinais de que o sono era improrrogável. O site de nossa empresa está disfuncional, e só Valeria consegue dar o suporte técnico necessário aos desenvolvedores do novo, em construção. 
Considerando que foram quinze ou vinte dias bem complicados, e que os assuntos do dia a dia não ficam, generosos, aguardando na fila até que um problema maior seja resolvido, a névoa que ocultou até a bouganville na janela foi muito bem-vinda.
Entra então uma mensagem da Professora Leila, cerca do meio dia: - Dna Valeria, será que a senhora estaria disponível, e o seu Fernando, hoje mais tarde? Desculpe, sei que a senhora deve estar com sua filha do Rio, seu Fernando com os filhos e netos, mas Lúcia e eu gostaríamos de conversar com vocês, hoje. Depois das quatro horas seria possível?
Lá se foi o descanso! - Claro que seria possível, necessário até! Afinal, ficaríamos em suspense até a segunda feira, ou mesmo até o domingo?!
 "Batemos ponto" no Colégio Novo Rumo nos últimos vinte meses, porém, sumimos nos últimos vinte dias; algo deve ter acontecido, seja na Escola, seja na cabeça de Leila e Lúcia, as responsáveis pela direção do colégio, para pedirem uma reunião em pleno Sábado de Páscoa, quando nós poderíamos estar reunidos com a família e amigos, e muito certamente também elas.
Leila e Lúcia estão entre as melhores pessoas que conhecemos. Elas fundaram o Colégio há mais de 20 anos, o Rumo Certo. Comeram o "pão que o diabo amassou com o rabo" para realizarem seu sonho, até abrindo mão de emprego estável no Estado, e junto com o sacrifício de outras abnegadas professoras, como Luiza, Suely e Raquel, fizeram por anos e anos uma educação modelo reconhecida. A pandemia, porém, já encontrou o Colégio, fora de rumo, com dificuldades financeiras. Um "grupo de investidores" assumiu o negócio, mas só conseguiu transformar o buraco em um abismo tão grande que o Colégio seria fechado em julho de 22, momento em que, por vias tortas, minha mulher e eu chegamos. Impregnados, já de há muito, por uma fixação em educação que meu pai tinha, e eu tendo três irmãs professoras a me influenciarem, assumimos a gestão da Escola, e fizemos o que sabemos fazer, saneamento físico, fiscal e financeiro, natural que com um razoável suporte de caixa, utilizando-nos da poupanca que criamos nos 12 anos de nossa empresa, toda a poupança.
A escola,  porém, embora com um corpo bonito, não teria alma, se não dotada de um corpo docente também bonito, e foi aí que entraram as "duplo L" , Lúcia e Leila, que retornaram à administração da Escola sem nenhuma remuneração, e que, ao contrário, ajudam como podem a pagar as dívidas pretéritas, especialmente as de cunho trabalhista.
Infelizmente os fornecedores da nossa empresa em São Paulo, indústrias e importadoras, não se sensibilizaram com nossa causa e não se dispuseram a nos ajudar como imaginamos o fariam; num eterno sábado nebuloso, não enxergam o outro, exceto quando lhes é conveniente. O mesmo podemos dizer dos pais de nossa região, os que podem pagar o Colégio, porém, preferem  prestigiar outras regiões, confirmando o ditado do santo de casa que não faz milagres.
Fato é que, apesar de tudo, e embora o fluxo de caixa mensalmente negativo, a Escola vai muito bem obrigado, dando um show de como educar, e sendo case comentado nas rodas de papo especializado. 
Leila e Lúcia restituiram a credibilidade ao Rumo Certo, que ressurgiu para um Novo Rumo, e hoje, Domingo de Páscoa, esse texto é um reconhecimento a elas, à sua generosidade, competência e resiliência. 
Ah, o motivo da reunião que tanto nos preocupou: Elas queriam nos trazer uma garrafa de vinho. 
Já fui à igreja hoje e orei por todos. Amém. 

domingo, 1 de setembro de 2024

CRIANÇAS DESCOBRINDO O BRASIL

Minha mãe disse que o que tenho é uma virose, então é. Eu acho que é diarreia mesmo, daquelas que te deixam no banheiro o tempo todo, mesmo com o frio que está fazendo! Então, não vou poder ir com meus colegas da Escola à cidade de Petrópolis, terei que esperar o próximo ano. E eu queria tanto! Paciência!, diz minha mãe, vá com a sua imaginação. Como se fosse a mesma coisa, ora! Já conheço a cidade, de fotografias, vídeos e até por uma colega de nove, do oitavo ano, mas não é igual.
A viagem já começaria na noite anterior, quando fosse dormir. Como dormir?! Ia ficar acordada até não aguentar mais, já me vendo sair de casa sem nem tomar o café direito, correr até o meu Colégio, encontrar os amigos (quase todos com seus pais), as tias, os tios, e um ônibus enorme e colorido, com uma faixa também enorme, escrito "COLÉGIO NOVO RUMO DESCOBRINDO O BRASIL". Minha mãe ia ficar muito feliz se pudesse ir comigo, eu sei porque ela ficou muito triste quando eu levei o convite da minha escola e ela disse que não poderia faltar ao trabalho, e olhe que também ela não conhece Petrópolis. Eu queria ir falar com o patrão dela, aposto que o convenceria do quanto é importante os pais ficarem junto com os filhos, principalmente nos momentos de descoberta, imagine, descobrir como o Brasil começou e depois ficar trocando ideias em casa! Mas ela só sorriu quando eu pedi; acho que não acreditou na minha capacidade, ou talvez tenha pensado que o patrão dela é um pai insensível, sei lá. Que sei eu, com meus sete anos?! 
Mas agora é tarde, na minha imaginação o ônibus já voa por curvas e retas, subidas e descidas, o motorista silencioso enquanto todos falam ao mesmo tempo. Minha tia nos mostra as grandes plantações, e nos ensina os nomes em ordem alfabética: agrião, alface, brócolis, cebolinha, couve, espinafre, pimentão, repolho...  nossa! só vi tanta verdura junta assim, na feira ou no supermercado. Já vi um pouquinho na horta da minha Escola, até ajudei a plantar, mas não tem nem comparação. Eu gostaria de estar lá com aquelas pessoas plantando e colhendo. Será que elas gostariam de ir comigo a Petrópolis? Será que o patrão delas deixaria? Será que os pais delas iriam junto, ou todos estão trabalhando? Outras paisagens desviavam os meus pensamentos, e acabei indo cantar com meus amigos. Delícia de viagem! Acho que minha mãe até cantaria comigo. 
Vi uma placa: BEM-VINDO A PETRÓPOLIS! A tia disse que estava escrito corretamente, duas palavras separadas, porém ligadas por um tracinho chamado hífen. Nunca mais vou errar isso. Descemos todos do ônibus, professoras na frente, os pais com os filhos, os filhos sem pais, outros professores atrás. Meu amigo estava com a mãe dele e me deu a mão. Minha tia, então, foi cuidar de outras crianças. Dizem que a cidade é fria, mas não estava, deve ser a emoção do passeio e a ansiedade de conhecer o Palácio Imperial, a Casa de Santos Dumont, o Palácio de Cristal, o restaurante do hotel... acordei com água na boca!
Estava sonhando, não era viagem de verdade. Minha mãe prometeu que ano que vem será, então será.