sábado, 31 de agosto de 2024

OS SEGREDOS DOS MUNDOS

Um gato apareceu na casa da minha irmã. Rajado com predominância de cinza, daqueles invisíveis na paisagem, o bicho é arisco, e só se aproxima à noite pra buscar alimento, coerente com a natureza solitária e a personalidade forte dos gatos. 
Vantagens dos gatos sobre os cães, são o voto de silêncio que quase sempre praticam, a tranquilidade que passam e a higiene individual. Esse gato porém, o "selvagem", de uns tempos pra cá passou a emitir sons lamuriantes durante a noite, como o som característico de cio, e não conseguimos dormir. Assim mesmo, não conseguimos, no plural, por que minha irmã é minha vizinha, e o gato que escolheu a casa dela levou a minha de brinde. E por casa, entenda-se a varanda, o telhado, os carros, alguma roupa recém lavada...   
O Arthur e a Yara concluíram que ele tinha algum problema, e com alguma esforço, conseguiram se aproximar o suficiente pra notar-lhe uma ferida na cabeça, que poderia ser consequência de um acidente, de uma picada de inseto ou mesmo de uma doença, e que poderia ser grave. 
Remédios ministrados junto com o alimento noturno não foram suficientes, porém, pra curar a ferida, e os miados foram ficando maiores, mais doloridos e mais desesperados, eram mais uivos.
A alternativa que restou foi aprisionar o bichano numa gaiola, aproveitando a fome que cegou a sua desconfiança, e levá-lo à clínica veterinária. 
Claro que fui eleito pra levá-los naquela noite gélida de sexta, mas, tudo por amor aos animais... e à volta das minhas noites tranquilas. 
A auxiliar estimou que nos atenderia em uns vinte minutos, mas ela deve ter começado a marcar esse tempo umas duas horas depois. A médica chamou o bichinho de "selvagem", porque não tinha nome mesmo, nem dono, porque era muito arisco e bravo, e porque ela sofreu pra dominá-lo, depois que o deixou escapar da gaiola. 
Nós o levamos de volta dopado, com uma ferida feia, mas tratada, e um olho inutilizado. Somente em cinco dias o laboratório diria se era uma doença, e aí poderia ser grave e perigosa inclusive para os humanos, ou mesmo uma ferida comum. E, enfim tivemos uma noite tranquila; uma!, a seguinte já foi dominada pelo som tão conhecido do gato, agora, caolho. 
Gatos são assim, à primeira vista não confiam em ninguém; se não estão contentes na casa onde estão, vão embora sem nem um miado; escolhem outra casa sem perguntar se o aceitam; se ficam doentes, fazem chantagem para obter cuidados; somente a fome é capaz de desarmar suas defesas, só dão carinho a quem elegem, e não o recebem de quem não querem. Guardam todos os segredos dos mundos nos olhares fixos e profundos, e não contam pra ninguém. Não olhe nos olhos do seu gato, você pode descobrir coisas que não gostaria de saber. 
Hoje o laboratório informou que o bichinho é saudável; e ele deve ter ficado muito alegre, compartilha sua alegria conosco todas as noites e as noites inteiras. 

terça-feira, 27 de agosto de 2024

ESPELHO, ESPELHO MEU.

As casas da roça geralmente são dotadas, na sua entrada principal, de um grande quintal, também chamado terreiro ou pátio, que é usado para secagem de café, arroz, milho, feijão, mamona, algodão, etc., também para a fogueira de São João e para os arrasta-pés sob o ritmo da sanfona e da viola, que nem só de pão vive o homem. 
Meu pai  costumava "descansar"  varrendo aqueles terreiros ou realizando outras tarefas leves e mecânicas. Eu copiei esse hábito, e ultimamente venho percebendo outros que copiei pela vida. Por exemplo, eu observava meu pai todo o tempo, e o via, carinhoso, plantar, orgulhoso e satisfeito, colher; e o ouvia dizer, sempre, que assim era a vida, colheríamos o que plantássemos e como plantássemos. Não se expressava assim, não entendíamos assim, mas era isso que ele queria dizer, assim ele vivia nós hoje o sabemos. Eu também o acompanhava quando construía um galinheiro, um curral ou uma casa (os projetos eram mais ou menos similares), inclusive, mais tarde, fui servente de pedreiro na obra da igreja. A propósito, por uns anos convivi com um padre, e ouvia música clássica diturnamente (Pe Manoel tinha um toca-discos Sonora, cuja fidelidade de som quem conheceu não esquece). Na mesma fase da vida, trabalhei no armazém do meu padrinho Baptista, que atendia a todos com uma enorme atenção, sempre sorrindo e com uma anedota pronta para alegrar o momento e vender mais. Não me esqueço da frase, repetida dezenas de vezes, "meias pra senhoras, pretas", sem a pausa da vírgula, que arrancava um sorriso da cliente. Também com ele aprendi a usar uma palavra código para marcar os preços de custo e de venda dos produtos; segredo absoluto para os clientes que só viam letras onde ele via números... eu também, embora ele não soubesse. 
Claro que, desde a minha infância e adolescência, vejo muita maldade, muita preguiça, preconceito, muito desprezo pelo próximo, testemunhei muita gente se dar bem fazendo o mal, vi muito desespero também, frente aos obstáculos da vida, mas não espelhei o meu comportamento nesses exemplos ruins. Gosto de construir, e sei um pouco; adoro cultivar plantas e amigos; não sou um aficionado pela música clássica, mas não caí no extremo oposto do mau gosto musical; atendo sempre com alegria, carinho e respeito os meus clientes, embora com firmeza e sinceridade; e tento sempre olhar a vida e as pessoas pelo lado positivo.
Por que eu não segui os exemplos ruins que também tive, mesmo quando eram mais atraentes?! 
Um exemplo vale por mil palavras, diz a sabedoria popular, e a ciência já comprovou que as nossas ações muitas vezes são influenciadas por outros e influenciam a terceiros. É imperativo tomar muito cuidado com o que sentimos, como agimos e reagimos. Mas a questão que me assaltou, e permanece, eu a deixo para algum incauto que venha a, eventualmente, ler esse texto:  O que leva um indivíduo, exposto a bons e maus exemplos, a seguir a uns em detrimento de outros? É uma escolha consciente? Educação, religião, amigos, posição social, interferem nessas escolhas? 
Reflexão sob medida para a sonoridade de pianos e flautas, mas também vale pensar ouvindo um samba-canção. O que vai ser hoje? 

sexta-feira, 23 de agosto de 2024

MENINO DO RIO

Eu ficava todo orgulhoso, quando em viagem era reconhecido como carioca (nem é difícil, né?),  ainda fico, na verdade, só que agora com um quê de tristeza e de saudade, e quase sinto a necessidade de pedir desculpas ao mundo pela decadência da cidade antes maravilhosa. 
Meus pais se casaram em Varre Sai, norte do Rio de Janeiro, e foram morar na capital, onde nasci. De lá, eles retornaram, seis anos depois, em busca de qualidade de vida, segurança e educação para os filhos, depois de muitas peripécias, dificuldades e conflitos. Com vinte e cinco anos eu fiz o caminho de volta, e em mais uns dez eu trouxe meus pais e irmãos; eu não percebera que o Rio estava num processo rápido e diuturno de deterioração física e decadência moral mesmo, e a decepção com a realidade me levaram a copiar o meu pai, e, como ele, fugir, voltar ao interior, o que fiz, junto com eles, e sem arrependimentos, subindo a serra há uns dez anos! Muitos anos antes, já colocara no papel um pouco da minha frustração : 
                         MENINO DO RIO
A Voluntários brilha sob o sol das 14 horas. O garoto, quinze anos, talvez mais talvez menos, passeia quase invisível pela paisagem tão cinza quanto ele. 
Cabelos secos, calção negro, sem camisa, pés descalços, movimentos lentos, desconcentrados. Dir-se-ia caminhava sem destino e sem objetivo, não fossem os olhos ágeis, vivazes, intensos. 
Uma bicicleta ou um tênis de uma criança privilegiada, a bolsa de uma velhinha desavisada ou o colar de uma motorista mais atenta às leis do trânsito que às da sobrevivência, seria suficiente para deflagrar uma sequência de passos rápidos, precisos, treinados, violentos. 
Uma vila com carros estacionados. A porta dos prédios desguarnecida. Um reconhecimento rápido constata: toca-fitas se oferece à rapinagem, preto destacando-se em carro branco. Esconde-se enquanto duas senhoras passam e  comentam o assassinato do dono do bar próximo, num roubo que deu errado. 
Uma pedra é o bastante. Um toque sutil e o acesso está livre. Pequenos arranhões nos braços, alguns cortes na poltrona, o aparelho nas mãos, o risco de disparar o alarme. 
O dono do carro só pode chorar o prejuízo, enquanto o menino desliza velozmente pelos becos, deixando saudades de um outro menino, cantado por Caetano, de um Rio que já não existe, e que, embora amado, ficará só. Eu canto pra Deus proteger-te. 

domingo, 18 de agosto de 2024

MADRUGADAS VADIAS

Eu tenho sessenta e seis anos, e comecei a perceber, na real, que os anos passavam, a partir de 2020. Dizem que não se passa pelos quarenta em vão. Eu passei. Eu passei num desvão, nem vi, ocupado por demais com coisas sem importância que tanto me importavam, sendo levado numa roda-viva com a certeza ridícula de que eu tinha o controle da roda. Aos sessenta, porém, "deu ruim", me incomodei. Olhei pra trás e não enxerguei o início, tão longe estava. Não desgostei do que vi pelo caminho, mas se me fosse dado refazê-lo, talvez fizesse diferente algumas coisas. Não me crucifico por elas, as que vi, fiz o meu melhor no momento, o que doeu foi o que não vi, as lacunas, os vazios imperdoáveis. Não se pode deixar a vida passar em branco, vivências e ocorrências inconcluídas, esquecidas como se irrelevantes. Quando a recordação de alguém ou de algum evento se insinua na minha mente, incompleta, sem nitidez, percebo que fui omisso, que não valorizei o momento, que agora não passa de um trecho de vida perdido. Um instante apenas pode dar significado a toda uma vida, pode alterar histórias!
Noite dessas resolvi escrever os nomes das pessoas com as quais tive algum tipo de relação, desde família, professores, colegas, amigos, inimigos, namoradas, patrões, etc. Cheguei a ver o início, tão conhecido, de crises de pânico, ao forçar a mente para relembrar, sem êxito, alguns nomes. Percebi, culpado e triste, que tanta gente passou pela minha vida, até deixaram marcas, e hoje não tenho ideia de por onde andam, sequer se estão vivas. Centenas de nomes digitados, de alguns só me lembrei no dia seguinte, a maioria perdida numa vaga lembrança, insossa, inodora e incolor. 
Com essa percepção, decidi, conscientemente, não tratar com superficialidade pessoas e situações, para não produzir mais lacunas, e considerando que o que esqueci, esquecido está, resolvi escrever pra mim mesmo o que me lembro, um registro físico da memória, histórias que povoam a minha mente, e que ao pular para a mente do computador ficam mais seguras na nuvem. É um exercício físico com benefícios adicionais: nessa dinâmica de relembrar e escrever, também resolvo conflitos internos, pacifico a minha mente, aprendo com erros cometidos, explico incidentes antigos, perdoo e me perdoo. Tem sido uma terapia. Cortella já definiu melhor: "Escrever ajuda a elaborar o raciocínio, a sublimar emoções, a organizar o mundo. A escrita tem funções que muita gente não imagina; é útil nas situações mais diversas e inusuais. A humanidade faz isso há séculos: para espantar seus fantasmas, ela escreve". 
Ganhei o título que dei a esse texto, de um Superintendente da Caixa Econômica onde trabalhei, a primeira pessoa a me chamar de Fernando Jorge, assim mesmo, com os dois nomes, o que eu adotei. Memória perene dele me dizendo que ligaria outras vezes "nas madrugadas vadias", pra eu ajudá-lo a registrar suas ideias. Nunca mais ligou, mas me estimulou a escrever. Obrigado, Xerez.
Então, quando os fantasmas das madrugadas surgem, ainda que no meio do dia, pego o telefone, rabisco um esboço da memória revivida, recupero a minha paz e protejo o meu passado. 

domingo, 11 de agosto de 2024

MORREU, VIROU SANTO!

Noutro dia um amigo que leu alguma coisa do "Fragmentos do meu Mundo", me perguntou se meu pai tinha sido mesmo esse sujeito especial que eu pintava, se tinha de fato esse carisma, essa vontade inabalável, essa personalidade forte, essa generosidade irrestrita, se era mesmo capaz de, sendo analfabeto, ensinar alguém a ler. 
Percebi que poderia estar transmitindo uma ideia errada de meu pai, e resolvi tentar corrigir isso, sabendo já que teria dificuldades para colocar em palavras questões tão subjetivas, que mesmo eu, que convivi com ele, não consigo entender direito. 
Dizemos, em tom de critica, que as pessoas quando morrem "viram santas", querendo dizer exatamente o contrário. Eu, porém, começo a pensar que, por um certo ângulo, essa afirmativa tem um quê de correta. Quando uma pessoa faz a passagem, eu suponho que seja como num teatro, descida a cortina o que resta é a realidade. Como se um espírito de luz descesse, uma clarividência se instalasse, e toda a verdade se impusesse. O indivíduo não se transforma em santo para os que continuam vivos, porém, ele agora sabe, e sem margem de dúvidas, o que fez de certo e de errado, e por que o fez. Não sei se "vira santo", evidente que não sei nada, mas acho (e torço por isso) que talvez lhe reste uma oportunidade de se arrepender dos erros, negociar, talvez, o perdão em face dos acertos, especialmente se existir um certo equilíbrio entre esses atos. Fantasioso, né? Eu sei, mas esperançoso também. 
E o que meu pai tem a ver com isso, uma vez que estamos falando de histórias dele enquanto vivo entre nós? Pois é, eu penso que quando alguém morre, nós que ficamos por aqui, também vemos e revemos em retrospectiva, como num filme, num único episódio, tudo o que o sujeito fez ou deixou de fazer pela vida, e, como todos somos um pouco juízes, nós decidimos se foi ou não uma boa e digna vida, se ela foi ou não positiva, se os erros foram compensados pelos acertos, e então, pra nós, o indivíduo que morre pode ou não "virar santo". 
E agora sim, por essa perspectiva, eu, juiz, julgo meu pai, "santo". Para o mal e para o bem, ele foi um indivíduo normal, desses que saem de madrugada para o trabalho e retornam só à noite (quando não trabalham dias longe de casa), que se irritam com as coisas injustas (por vezes também com as justas), que bebem socialmente (algumas muitas vezes além do conveniente), que têm paciência com os outros (muitas vezes mais que com os seus), que são generosos com os necessitados (algumas vezes por conveniência), que não desejam mal a ninguém (pelo menos não "de coração"), que protegem os mais frágeis e se compadecem dos que sofrem, que vivem e morrem pela família, enfim, um ser humano como eu, e como vocês, minha meia dúzia de três ou quatro eventuais leitores. Nós vivemos as nossas vidas aprendendo a viver, tentando sobreviver enquanto aprendemos, e cuidando dos nossos; e se temos boa índole, bons exemplos, bons pais e professores, e boa sorte (por que não?), fazemos o bem, buscamos corrigir o mal que também fazemos, e tentamos superar os obstáculos que a vida nos apresenta a cada instante e até o instante final; e depois dele, o legado é o conjunto da obra, a conta corrente cujo saldo espelha o resumo de uma vida.
Tomara, quando a nossa cortina descer, tenhamos algum saldo positivo nesse conta corrente, de forma a que, quem sobreviver a nós não precise ouvir, numa risadinha irônica, "Só por que morreu, não virou santo!". 


terça-feira, 6 de agosto de 2024

THEODORO DE OLIVEIRA

Ele trabalha conosco e é sempre interessante observá-lo, às vezes é até engraçado. Não pode beber; um pouco de álcool já altera o seu natural, e se normalmente já é difícil entender o seu dialeto com forte e lindo sotaque nordestino, eufórico e desinibido é quase impossível. Acho que ele estudou um pouco, e usa a ênclise nas situações mais inusitadas, cabendo-a ou não. Se uma cobra aparece, ele pega-a viva, se tem que quebrar uma enorme pedra, ele arranca-a; se tem que segurar um animal agitado é com ele mesmo, enfrenta-o. Bem... às vezes; tem um pouco de medo de bois e cavalos. Certa vez veio ao meu encontro, os braços para o alto, acima da cabeça, sustentando uma jararacuçú viva e esticada, um metro de veneno, talvez um pouco mais (tenho foto testemunho), e disse: - "Seu Fernando, peguei-a, foi ela que mordeu o pretinho! Vou prendê-la no latão."  Medo de cavalo, e pega cobra viva e venenosa com as mãos, vai entender! 
Levamos o pretinho ao veterinário. A Dra Lucila amputou-lhe a perna, o bombeiro disse que não tinham interesse em recolher a cobra, que era pra devolvê-la ao ambiente, o "ambiente" a que ele se referia era o quintal da minha casa, "Melhor matá-la", decidiu o Theodoro.
Ele não para num mesmo lugar por muito tempo, nuns dias está aqui, noutros ali, um tempo em Maceió; às vezes está num mundo particular, e quando esse mundo é invadido, até reage mal, já tendo sido preso pelo excesso da reação.
Toda essa força mal controlada não impede que ele trate, com uma delicadeza e cuidado surpreendentes, os pássaros que possui, como canários-belgas, periquitos e calopsitas. Criação de  pássaros, ainda que ornamentais e que não sobreviveriam na natureza é uma atividade polêmica, mas que é usada por muitos como meio auxiliar de subsistência. 
Dotado de grande sensibilidade, se encontra plantas e flores exóticas, ele sempre traz mudas pra gente, já sugerindo onde plantá-las; também traz legumes e frutas que colhe trabalhando ou passeando por outros sítios. Quando está trabalhando, não se esconde, até escolhe as tarefas mais pesadas, e sempre ajuda os colegas. Não lhe falta trabalho, na verdade acho que ele preferiria houvesse menos. Generoso, está sempre disponível para nós, para o irmão com quem parece ser muito ligado, e para os vizinhos. 
No nordeste, sul, sudeste ou em qualquer região, o homem só precisa ter vontade e saúde, boa índole e generosidade, do resto cuida Deus. 
Olhai os pássaros do céu e os lírios do campo! 

domingo, 4 de agosto de 2024

TODA CRIANÇA É ESPECIAL

Um filme indiano, que não está na Netflix, nem na Amazon, nem na Globo, sei lá quem são os atores e diretores. Um filme de 2007, com longuíssima duração, e no qual, anos depois de lançado, não por acaso, poucos ouviram falar. O Rui, sei lá o porquê, o assistiu no YouTube, me recomendou, e eu, reticente, muito reticente, assisti. Um filme de ação é mais rápido e atrai mais. Um filme tão longo e com tema tão árido, não atrai, como não atrai o enfrentamento dos preconceitos em geral. 
Convenhamos, duas horas e meia de filme!, quem tem tanto tempo assim a perder, com o dia a dia de uma criança avoada, pais apressados, professores antiquados, e nenhuma expectativa de se chegar a um fim digno ou pelo menos diferente de outros que tentaram tratar o mesmo tema?! - Só mesmo quem se importa! 
Crianças vão identificar adultos da vida real nas ações dos adultos do filme, e acharão graça nas ações e reações da criança do filme. Adultos se irritarão com a ignorância dos adultos do filme, e vão se identificar nas ações deles, e vão sentir na alma a dor da criança, e também se rirão  de suas reações. Infelizmente, também vão doer os erros de gramática das legendas, as dezenas de erros. De somenos. 
O filme conta a história de uma família composta por um pai trabalhador, uma mãe ocupada com o lar e os dois filhos; um no Fundamental 2, um exemplo de garoto, bem na escola, em casa e bem no tênis; e outro, no Fundamental 1, que faz tudo ao contrário, mal na escola e mal em casa com suas próprias coisas, embora amado por seu irmão, sua mãe e, do jeito dele, por seu pai. Essa criança sofre na escola, é mudada de escola, quase vai para uma escola especial para especiais, e afinal, quando a família já está por desistir, encontra esperança num professor que vê a criança, acima dos transtornos.
O filme, reflexivo, nos faz pensar em nós, em como nos relacionamos com os demais seres humanos, humanos que deveríamos ser, com nossas limitações mas também nossas qualidades; provocante, nos leva a querer agir, mas agir com um propósito claro e objetivo, agir concretamente; leve, dá leveza a um assunto seriissimo, para alcançar mais pessoas, atrair público e criar massa crítica, sim, mas sem resvalar muito para o superficial, para o comercial.
Assim que, quem vê o filme, não consegue sair da sala ou desgrudar da tela, do mesmo jeito que chegou. A gente sai internamente revolvido, a gente sai resolvido a rever os nossos conceitos e relacionamentos, a gente sai decidido a compartilhar a experiência com todo mundo, a gente sai pensando em fazer alguma coisa, e imediatamente.
Se somos professores, decidimos observar melhor os nossos alunos, até os alunos dos colegas, buscando pontos frágeis nos quais possamos trabalhar mais e melhor para evitar que esses pontos se transformem em problemas; substituimos o medo de não ter respostas pela certeza de que podemos transformar. 
Se somos gestores de instituições, decidimos determinar que a diversidade deve ser respeitada, que a inclusão seja praticada, que professores sejam qualificados e capacitados, que os pais sejam conscientizados. "Inclusão é ação, e ação com intencionalidade, com vontade dentro, de transformar mesmo" ouvi de Viviane de Araújo. 
Se somos pais, entendemos que uma criança especial é só isso, uma criança, que dará mais trabalho para ser educada por suas características muito pessoais, mas que nem por isso merece ser alijada do convívio social e ter cerceadas suas oportunidades de crescimento.
Se somos pais de criança especial, aprendemos a compreendê-la, ou aprendemos que sabemos pouco e que o pouco que sabemos pode estar errado, e então nos decidimos a aprender a desaprender, para reaprender em seguida, e aí podermos amar o nosso filho como ele merece, como ele precisa.
Se somos humanos, e aprendemos quando criança que o homem é um ser social, nem pensaremos em colocar o nosso filho numa escola para especiais, onde ele conviverá apenas com iguais, nem tampouco exigiremos que os filhos dos outros sejam segregados as essas escolas. Se fizermos isso, nosso filho jamais conhecerá o diverso, jamais aprenderá a conviver com as diferenças, jamais terá uma humanidade completa. Conviver transforma, e se a gente se transforma, o mundo se transforma. 
Todos os nossos filhos, os filhos de todos nós, devem ser tratados, reconhecidos e se reconhecerem como, na mais abrangente acepção da palavra, especiais. 
Sempre somos referência na vida de alguém, precisamos cuidar para que nossos filhos tenham, de nós, somente boas referências, e o nosso comportamento definirá isso, nossos netos irão julgar mais tarde, e nós estaremos no banco. 

quinta-feira, 1 de agosto de 2024

PETULANTE!

Eu tive poucos grandes amigos, e sempre vindos da escola ou do trabalho, talvez consequência de uma barreira que eu impunha à aproximação, e talvez imponha ainda. Meu amigo Zeca me disse uma vez ser muito difícil ser meu amigo. Trabalhávamos na Caixa Econômica, morávamos numa república, em Copacabana, com outros colegas, e todos éramos... amigos. Ambos casados, as famílias em Bom Jesus do Itabapoana, só tínhamos a nós mesmos de conhecidos, o que facilitou a aproximação, já que em nossa pequena cidade mal nos falávamos. Nalgum momento eu opinei sobre algum assunto ou cobrei alguma coisa dele, e ele me saiu com essa: -  Muito difícil ser seu amigo! Argumentei que exigia dos meus amigos apenas o que eu estava disposto a lhes dar, e eu ajo sem limites, me entrego cem por cento. Thiago de Mello canta, "... permanecem os amigos. Poucos. Mas capazes de atravessar o mar só pra me levar uma flor". Eu já atravessei muitos mares e me orgulho disso; hoje, porém, já não exijo tanto dos meus amigos, aprendi que nem todos são, podem ou conseguem ser, cem por cento disponíveis, o que não necessariamente diminui a amizade; eles podem até ser classificados, quanto ao grau de generosidade, lealdade e disponibilidade, como mais ou menos amigos, mas sempre, amigos. E nós precisamos de amigos, por miseráveis, mesquinhos, irascíveis, pobres de espírito que sejamos, não conseguimos viver sós, ou definhamos, fenecemos.
Não vou correr o risco, embora tentado a fazê-lo, de nominar alguns amigos, grande chance de perder os demais, mas vou citar dois que já não estão entre nós (não faz sentido ter ciúmes dos mortos): Seu Oliveira e o Oliveira Jr, pai e filho, o primeiro meu ex-sogro e muito, muito amigo. O Junior foi amigo, foi parceiro, irmão, foi filho.
Seu Oliveira era um homem de trabalho, honesto a toda prova, que me confiaria a própria vida. Ele adorava que eu dirigisse pra ele, acho que por causa da adrenalina; eu sempre corri muito e ele, ao tempo em que ficava com medo, queria sentir a sensação, e eu, naturalmente, e com a irresponsabilidade dos meus vinte um anos, fazia-lhe a vontade. Certa vez, ele dirigindo, fomos obrigados a ir para o acostamento por que um veículo ultrapassava outro, numa estrada de mão dupla, e no acostamento havia um enorme buraco, o que o obrigou a parar o carro. "Viu, Fernando, se você estivesse dirigindo nunca conseguiria parar", ele disse, e riu demais quando eu respondi que se eu estivesse dirigindo, nunca teria me encontrado com aqueles veículos naquele trecho, já estaríamos em casa! Ele sempre contava essa história. Ele me ajudou muito, eu não fiz nada por ele, só o ouvia. 
O Júnior, que também se chamava Oliveira Ferreira Magalhães, era tão inteligente quanto controverso, mas amigo a toda prova, teria sido meu braço direito não tivesse viajado antes do combinado. Desses seres que vêm ao mundo e brilham tanto, que se queimam rapidamente na própria luz. 
O Zeca, quando me chamou a atenção, me culpando por ser um sujeito difícil, talvez pudesse mudar de opinião se eu tivesse respondido menos laconicamente, se eu lhe tivesse dito com mais assertividade, que quando amigo de alguém, trabalho por esse alguém, me preocupo e me ocupo; já fui fiador, avalista, emprestei dinheiro, transferi propriedade de imóveis e veículos, garanti verdades e também mentiras, ouvi e aconselhei, e sofri muito por não ser reconhecido ou compreendido. Exijo o mesmo de meus amigos e reclamo quando não comparecem, o que pode ser demais pra eles; em minha defesa, porém, não os afasto, não diminuo a minha amizade, talvez só um pouquinho. 
Recentemente uma música do O. Montenegro me chamou a atenção, pareceu comigo. 
"Você me disse que eu sou petulante, né? 
Acho que sou sim, viu!
Como a água que desce a cachoeira
E não pergunta se pode passar. 
Você me disse que o meu olho é duro como faca. 
Acho que é sim, viu! 
Como é duro o tronco da mangueira
Onde você precisa encostar. 
Você me disse que destruo sempre
A sua mais romântica ilusão. 
E que destruo sempre com minha palavra
O que me incomodou. Acho que é sim. 
Como fere e faz barulho
O bicho que se machucou, viu!"
É assim, não pergunto se posso passar, às vezes nem a mim mesmo, tendo a fazer o que é preciso; sou duro com meus amigos muitas vezes, mas nas vezes em que acho importante; e se me sinto ferido e magoado, muitas vezes reajo mal.
Pensando melhor, temo que o Zeca não seria nem mesmo o amigo distante que ainda é hoje, se eu tivesse sido menos lacônico, afinal, "eu destruo sempre com minhas palavras o que me incomodou". Acho que foi sempre assim.