sexta-feira, 31 de maio de 2024

RAÍZES DE BANANEIRAS


Meu pai nos viu nascer, a mim e ao meu irmão Flávio, no Rio de Janeiro. Na periferia. Na periferia da periferia. Num lugar chamado Viegas, periferia de Campo Grande na Zona Oeste, já na época abandonado por Deus, e, como tantas outras regiões, pelos governantes. Meus tios e primos cariocas eram de lá, sobreviviam lá, entre o pó da pedreira, que corrompia os pulmões de todos os trabalhadores, e outro pó, que corrompia os demais órgãos, inclusive os da sociedade.

Meu pai não queria aquilo pra nós, e resolveu buscar ares mais puros, em todos os sentidos.
Meus tios e primos cariocas se sentiam superiores aos do interior, e disseram que se mudássemos para lá, iríamos comer raízes de bananeiras. Na verdade não sei é como eles sobreviviam, tais as dificuldades que tinham, a fragilidade das moradias, a ausência de recursos de toda sorte, e de sorte. 
Meus tios e primos de Varre Sai, que se sentiam inferiores aos cariocas por que achavam fossem estes mais inteligentes e mais informados, não fizeram muito esforço pela nossa mudança.
A marreta, com a qual meu pai trabalhava, e o pó de pedra que ele inspirava porém, não foram suficientes pra embotar-lhe o cérebro, e no final, fomos muito bem recebidos no interior por nossos tios e primos.
Fomos morar no sítio de meu tio, para nós um fim de mundo, chamado Arataca (hoje um local lindo e aprazível), onde meu irmão e eu vivemos grandes aventuras sobre cavalos de pau,  tendo escapado de morte certa e rápida, da qual não escaparam meus tios e primos cariocas.
Em menos de dois anos meu pai já nos tirava da Arataca, agora com um fruto do vale, minha primeira irmã Rosângela. Ele  nos trazia para a cidade, mas foi grato ao "Cumpadre Neca" por toda a vida, e juntos certamente estão hoje em dia. A gratidão sempre foi uma das virtudes de meu pai, ele não esquecia um favor recebido, e por mais que retribuísse, sempre se sentia devedor. Sigo o manual dele. 


quarta-feira, 29 de maio de 2024

TEXTO INICIAL

Minha mulher me disse uma vez, há dez mil anos atrás, que se ficássemos juntos, seria o pacote: ela, a família, o passado, as histórias. Sem saber, ela filosofava. Eu também não sabia.

Há pouco tempo um amigo, que diferente dela e de mim, pensa mesmo ser filósofo, me disse que ele não era apenas ele, mas ele e a sua circunstância. Citava Ortega Y Gasset, autor da célebre frase. Fui pesquisar e entendi (penso ter entendido), que os eventos que acontecem em torno de nós, muitas vezes dos quais nem participamos ativamente, as pessoas com as quais nos relacionamos mesmo indiretamente, as coisas que fazemos, transformamos ou destruímos, o legado que deixamos ou queremos deixar, tudo isso e muito mais que permeia a nossa aventura na terra, mesmo sem termos consciência disso fazem a nossa história, são as nossas circunstâncias para o bem e para o mal, e o pensador nos ensina que os dois, o homem e a sua história, são indissociáveis. 

Minha história envolve meu pai, não existe sem ele, os escritos que junto aqui, são fragmentos da história dele mais que da minha, o que é justo, muito justo. Mesmo quando falo do mundo em que ele já não está, é o mundo no qual vivo como ele me ensinou a viver. E os sonhos que busco realizar, nos quais envolvo minha família, meus amigos e outros passageiros, são sonhos meus, agora nossos, mas antes, eram dele, eu os abracei, e o legado será nosso, dele, meu, e de todos que, juntos, fazemos acontecer. 
Nesses escritos vou dar cores às coisas que eu vivi, na medida em que for me lembrando, e ao cotidiano que vivo, por pequeno que seja o conteúdo, apenas mesmo para registrar um pouquinho das sementes plantadas, dos frutos colhidos, dos amores e dores vividos, e aproveitar para deixar numa saia justa os amigos mais próximos, obrigados a lerem os apontamentos dessas vagas memórias, muitas delas envolvendo o meu pai, minha mãe, meus irmãos, meus amigos; todas elas vivências que, somadas, formaram a minha essência, e me trouxeram até hoje. 
Meus pais viveram pra mim, eu, vivo também pra reencontrá-los.