Há mais de trinta anos fui convidado pelo Seu Odir, então meu vizinho no Cascatinha, a visitar um terreno de um amigo dele que estava à venda.
Fomos lá num sábado pela manhã, era longe, no bairro Theodoro de Oliveira, outro extremo da cidade de Nova Friburgo, à qual mal conhecia, recém chegado que era.
Seu Antônio Mira nos recebeu com simpatia. Ele morava numa casinha simples, a única da propriedade, com sua mulher, dona Maria, e o filho Osmar.
A casinha era limpa, embora claramente não recebesse nenhuma manutenção, falta óbvia de recursos, tanto financeiros (eram muito pobres), quanto de ânimo (já eram idosos e cansados), e também não podiam contar com o filho, que não parecia muito afeito a trabalho.
Seu Antônio, seu Odir, meu pai e eu, fomos percorrer a propriedade, uma área grande e íngreme, de vegetação rasteira, e outra muito maior, de floresta fechada, com água corrente límpida e gelada, e trilhas usadas pelos vizinhos e caçadores.
Andamos muito, subimos muito, fomos inclusive a uma clareira ao final, que seu Antônio já vendera a dois caçadores, um lugar plano, sem árvores, ensolarado (soalhero, meu pai dizia), lindo mesmo, um oásis de fazer os olhos brilharem mesmo na ausência do sol.
Eu não me via em condições de comprar um terreno como aquele, imaginava ser totalmente fora do meu orçamento, porém me entusiasmava imaginar tudo que era possível plantar, implantar, criar e produzir naquele espaço, com tanta água, com tanto sol.
Seu Antônio me falou num valor que me era viável, parcelou o pagamento, e eu comprei. Ele não tinha para onde se mudar, precisava de um prazo; eu não tinha o que fazer ali naquele momento, nem tinha previsão de quando poderia fazer algo, havia comprado por impulso, então, também por impulso (como sempre!), o autorizei a ficar enquanto vivesse ou eu não precisasse do espaço. Foi alegria total, "sopa no mel", diria meu pai.
Empolgado, contratei o Osmar para preparar um trecho e plantar cem pés de cítricos, laranjas e limões de diversas espécies. Foi quando entendi que as terras daquela região não eram tão ricas como supúnhamos, meu pai e eu, acostumados às terras quentes, onde "em se plantando tudo dá". Aqui não é assim, em se plantando tem que cuidar muito mais que em outras regiões, tem que vencer o clima hostil e as pragas oportunistas, e ainda assim nem tudo dá, daí por que quase ninguém planta e os terrenos não têm tanto valor. Não tem essa de almoço grátis! Não comprei barato, era o preço justo.
O tempo passava, as laranjeiras não produziam, o Osmar também não, seu Antônio ficou doente e não conseguia mais andar, e decidi não me ocupar daquilo, só passava por lá para pagar a conta de luz, e empreitar com o Osmar a limpeza das áreas que não eram de floresta.
Antes disso, ainda na empolgação, fora apresentado aos dois caçadores donos da clareira magnífica lá no píncaro, e comprara-lhes a área. Numa das visitas ao sítio, nem mais localizar a clareira eu consegui, os arbustos cresceram, se transformaram em árvores; a floresta retomara o controle, o que eu, por um tempo, considerei injusto.
Seu Antônio ficou acamado e inerte, por anos; depois que morreu, Dna Maria, foi acometida de uma doença de iguais sintomas, que também a manteve na cama por um longo tempo; a casa, que eu reformara, ia piorando de estado enquanto isso, como também o Osmar, cada dia mais dependente de álcool, e as laranjeiras carentes de cuidados. Aparecida, vizinha e filha do casal, cuidou deles incansavelmente até o fim. E eu cumpri o prometido.
Osmar buscou "direitos trabalhistas" na Justiça. Na audiência eu disse ao Juiz que ele não fazia nada, não limpava ao menos o quintal, não saía de casa; e o Meritíssimo argumentou, rindo, que isso estava certo, que caseiro queria dizer isso mesmo que o nome diz, ficar dentro de casa vigiando. Como contra-argumentar com um Senhor Juiz, ainda imberbe, que ri enquanto toma decisões assim, e com uma caneta na mão que me custou um mil reais em dez parcelas de cem?!!! Não era tão pouco dinheiro como é hoje, mas era barato para me livrar do Osmar e do Juiz, e ambos sabíamos disso, o juiz e eu.
Depois que Dna Maria faleceu, outro filho, o Jacy, foi morar na casa, onde ficou por uns anos, tendo infelizmente, "viajado antes do combinado", diria Rolando Boldrin, este que também "viajou" a pouco. Aparecida, então, indicou-me um casal, que ficou comigo por muito tempo; e foram tempos bons enquanto não voltaram a beber, alcoólicos que eram; porém, quando o fizeram, Deus meu!, queimaram até os tacos do piso da casa para se aquecerem. Um dia, a mulher partiu pra casa de parentes, e o marido, depois de pouco tempo, pra casa de Deus.
Eu construíra uma casinha de caseiro, ao lado da casa velha com aparência de mal-assombrada, e acabei cedendo-a à minha irmã Rosilene, com uma pequena ampliação; ela, o Jorge e meu sobrinho Arthur ficariam muito bem instalados nela, como estão até hoje, lá se vão uns dez anos!
Iniciamos então, aproveitando a estrutura da casa velha, e vinte anos depois de adquirido o terreno, a construção de uma casa que eu pretendia fosse pra reunião da família, nas épocas em que famílias costumam se reunir, porém meu pai não chegou a vê-la construída, e minha mãe, embora tenha morado nela uns cinco anos, não a curtiu, seu coração viajara com meu pai para um lugar inacessível a nós outros. Quebrou-se um pouco o encanto.
Havia uma construção que servira como capril, e a transformamos numa linda casa para Renata e Rafaela, e mais recentemente, construímos mais uma residência, uma "casinha pequenina" para minha irmã Roneida, aumentando o calor de família numa terra de clima tão frio.
Nas noites de luar, todo o sítio fica iluminado, origem do seu nome; todas as noites, porém, brilham as lembranças de Seu Antônio, Dna Maria, Jacy, Klébio, Seu José e Dna Philomena.
Pensava plantar no La Luna tudo que meu pai gostava e conhecia, mas o clima não permitiu. Pensava aproveitar a água farta que nascia e corria dentro do sítio, mas a intolerância dos vizinhos que também a aproveitam, não permitiu. Pensava estabelecer uma criação de cabras, mas o mercado não permitiu.
Quando a pandemia assolava o mundo, nós construíamos o "La Luna" para espaço de festas, restaurante ou hospedaria, tudo isso ou algo disso, mas, por enquanto, é "fazenda-escola", moradia e ocupação para diversas famílias. Pensamos muita coisa, fizemos o que deu, ainda vamos descobrir qual a vocação do sitio. Ponto de reunião da família, não foi, mas que pode reunir famílias, isso pode.