domingo, 31 de agosto de 2025

UM MURO IRRESISTÍVEL

Foram apenas cinco meses extramuros. De dores, dúvidas, de solidão, ansiedade, de riscos.
Por entre as trevas, vislumbra o muro como uma tábua de salvação, um lenitivo, mas o muro engana, atrai mas não representa salvação.
A dor, porém, sempre volta, a ansiedade e o desespero não esperam, a compulsão vence, e o muro parece a única saída para romper o ciclo.
Procuremos outro destino, outras caras, outras ideias, um muro igual, porém maquiado.
Tente outra vez, dizia o Raul que partiu cedo.
Tentemos. 
O muro é irresistível, a esperança resiste. 

CAPÍTULO FINAL

Olá pessoal, vamos encerrar essa novela? Então, a Diretora e a Coordenadora enquadraram o Maycon, mas também cederam um pouco. Ele não vai mais se meter a autoridade na nossa turma e nem mesmo no nosso turno, e nós não vamos mais adesivar os nossos nomes nas carteiras, eles ficarão em cartões que serão guardados todos os dias. E também nos comprometemos a acabar com os memes e fake news no Insta. Acho que voltaremos aos tempos de paz, um novo rumo.
Ansiosa por contar a novidade aos meus pais, fui correndo pra casa. Vocês se lembram que eu estranhei a reação deles quando lhes falei da treta toda, né? Contei aqui, semana passada. Fiquei curiosa, pareciam conhecer a história, mas, como, se já saíram da escola há tanto tempo?
Mal consegui esperar o jantar, e, feliz, falei que não queria mais sair da Escola, ela era de novo o meu porto seguro, o lugar que eu mais gostava, depois da minha casa. Ganhei a atenção deles, e contei o motivo da minha mudança de decisão. Falei assim mesmo, decisão. Meu pai riu, acho que ele gostou, ou, sei lá, talvez tenha rido de eu pensar que podia mesmo decidir uma coisa tão importante. Bom, decisão comunicada e explicada, agora era a vez de cobrar deles uma explicação para aqueles risinhos do outro dia, quando, triste e nervosa, eu lhes contei da encrenca no colégio. Afinal, eles tiveram uma história parecida na escola deles? 
Meu pai ficou então um pouco mais sério, e falou que, mais do que isso, eles estavam vivendo uma história muito parecida no Brasil, não na escola,  mas no nosso próprio país e no nosso próprio mundo. Ele falou que, se eu podia escrever sobre problemas da escola, dar opinião sobre os conflitos, e até decidir sobre deixar a escola, então estava na hora de aprender um pouquinho da vida dos adultos, da vida real. Vejam, tô tentando repetir as coisas como ele me falou, às vezes minha mãe também. 
Eles disseram que, assim como eu tive vontade de mudar de escola, eles de vez em quando tinham vontade de mudar de país. E que este é um desses momentos, justamente por uma história muito parecida com a minha: os Estados Unidos, um país grande e poderoso, discorda do Brasil, que também é grande mas não tão poderoso, e os dois presidentes nem se falam, então nunca vão chegar a um acordo. Meu pai disse que os americanos têm razão, mas não toda a razão; minha mãe pensa diferente, ela acha que eles estão certos mesmo. Meu pai não aceita que outro país se meta em coisas que só o Brasil pode decidir, já minha mãe entende que, mesmo que meu pai esteja certo, às vezes os fins justificam os meios, foi assim que ela falou, e, claro, eu não entendi, e pedi pra ela explicar melhor, desenvolver, como diz a minha professora. Ela explicou que, se temos uns juízes que fazem o que querem e decidem, sozinhos, sobre assuntos que atingem todo o povo, outras autoridades daqui teriam que impedir isso, mas, se ninguém consegue, melhor que outro país faça, do que ninguém fazer e o povo ficar sofrendo. Vou deixar essa passar e noutro dia vou perguntar de novo a ela, pra ver se entendo. Meu pai pareceu concordar, mas disse que, de qualquer jeito, é ilegal essa atitude dos Estados Unidos, que o problema é nosso e nós é que temos que resolver. 
Ele disse que o Brasil e os Estados Unidos deveriam conversar entre eles mesmos e chegar a um acordo, ou então, ouvir os juízes que cuidam das tretas entre os países, porque, do contrário, ninguém vai ganhar, os brasileiros e os americanos vão sofrer muito, e eles, os dois presidentes, vão ser conhecidos como dois idiotas fracassados. 
Meu pai pegou pesado! 
Pensei no Bento e no Maycon, os dois presidentinhos da minha escola, parece mesmo a história que aconteceu aqui, ainda bem que terminou em paz e não demorou tanto. Meu pai diz que, no mundo dos adultos, essa briga já dura mais de um mês, já envolve outros países, e não terminará em paz, pelo menos não terminará sem muito prejuízo. Ele disse que no dia que eu contei a minha história, ele "riu de nervoso", e não pensou, na hora, que eu tivesse notado; ora, eu já tenho dez anos!
Bem, amiguinhos, só vou voltar aqui se pintar alguma novidade no Novo Rumo. Não quero ficar falando sobre essa história dos adultos, é muito difícil de entender, acho que é porque eles nunca vão pelo caminho mais fácil. Tchau. 

sábado, 16 de agosto de 2025

PAREM O MUNDO QUE EU QUERO DESCER

A minha história continua, mas, hoje eu tô triste. 
Fomos ao niver do Deco, ontem, e não brincamos e nem nos divertimos. Até rimos um pouco, mas só dos memes e piadas, algumas de mal gosto, que todos estão fazendo sobre a briga da nossa turma com a outra turma, o único assunto da escola desde que um aluno, maior, resolveu impor sua vontade sobre uma turma inteira de outros alunos.
Nossa escola é boa, eu adoro estudar lá. Me sinto como em casa. Meus pais sempre dizem que uma das coisas mais importantes da nossa escola é esse ambiente de família. Temos uma professora maravilhosa, que sempre quer ter certeza de que nós aprendemos, mesmo, as matérias que ela ensina; temos aulas fora da escola, na casa verde e na fazendinha, onde aprendemos a cuidar das plantas e dos animais; temos aulas de desenho e de informática, aprendemos a usar o dinheiro, a fazer comidinhas; descobrimos o prazer da leitura, lendo na biblioteca; podemos fazer teatro, futebol, percussão, capoeira, jiu-jitsu; temos festas e passeios, tem dia que tem surpresa, e alegria tem todos os dias.
Então, é justamente dessa alegria, que sumiu, que estou sentindo falta, porque o tempo de todos está ocupado em falar de brigas, de fofoca, de mentiras,... só de coisas chatas, como se a nossa escola fosse feita toda disso! Já não tem ninguém convidando para jogar vôlei, noite do pijama, fazer um bolo, ir ao cinema. E conversar também não pode, porque você tem que concordar com todos da sua turma; se pensar diferente, te expulsam da turma, te isolam, te cancelam. Agora estão armando um boicote ao Maycon: não falar com ele, não ir aonde ele for, e não o convidar para as festas. E isso não está acontecendo só na minha turma, não, também acontece com as outras, e que nem estavam envolvidas na confusão. Atinge a toda escola. Ninguém pode falar o que pensa em voz alta, porque sempre terá alguém que discorda, o que é normal, mas ele vai gritar e até brigar de verdade mesmo, o que não é normal, eu acho. Tem até irmãos que não se falam mais! Só tá faltando aparecer mais alguém de fora, de outra turma ou outra escola, querendo aproveitar a confusão, para a situação ficar ainda pior. Eu contei isso tudo para os meus pais. Eles riram, mas não era de mim, não entendi direito, riram de um jeito estranho, como se já conhecessem bem o que eu estava falando. Será que tinha isso na escola deles, quando eram crianças?!
Eu tomei uma decisão e vou comunicar para os meus pais, e por isso também estou muito triste: eu quero mudar de escola! Eu não quero ficar num escola onde se tem tanto medo, onde um aluno sozinho pode prejudicar a vida de todos os outros, e as professoras, coordenadoras, e a Diretora, dizem não poder mudar isso. Ou será que não querem?
Já houve até reunião da administração para examinar o assunto, mas não decidiram nada. E o Bento, que podia pensar alguma coisa, não faz nada, fica parado dando uma de vítima. Não sei pra que fomos chamá-lo de "presidente"! E do outro lado, na turma dos maiores, o Maycon está se aproveitando da nosssa lerdeza em tomar providências, e todo dia inventa uma maldade nova. Alguém tem que botar logo, esses "presidentinhos" pra conversarem, porque do jeito que a coisa está indo, muitos alunos irão embora, professores serão demitidos, a escola vai acabar fechando. Minha mãe vai se desesperar, com as duas mãos na cabeça: Até onde iremos, meu Deus?! 
E tudo, só por que crianças foram brincar de presidente!  Outro dia volto aqui, hoje, eu tô triste. 

segunda-feira, 11 de agosto de 2025

BOA CONVERSA

Olá, meus leitores queridos! Volto aqui pra continuar a minha reportagem sobre a treta que está rolando na escola, entre o meu presidente Bento e o presidente da outra turma.
Claro que o Maycon não trancou a porta da nossa sala como ameaçou, mas ele disse que, se não tirarmos os nomes das carteiras, ele vai mesmo fazer isso, e vai transformar a nossa vida num inferno, vai "dobrar a aposta", palavras dele, não sei o que quer dizer, deve ser matéria do oitavo ano.
Imaginem vocês que o Bento, com uma vaidade deste tamanhão, não quer conversar com o Maycon!
Num dia em que eu briguei com uma colega de Jiu-jitsu, minha mãe quase me bateu! Não adiantou eu dizer que ela que começou, que foi ela que me bateu primeiro, minha mãe e o professor dizem que tudo se resolve com uma boa conversa. Eu não sei direito como ter uma boa conversa quando a gente tá com raiva. O Mestre Filipe falou que quando nós brigamos, nós prejudicamos a toda a turma, que fica sem aula por nossa culpa. E que, enquanto não conversamos e fazemos as pazes, continuamos prejudicando, porque ninguém presta atenção nos exercícios, só na gente. Que temos que pensar nos outros, na turma toda, não somente em nós. Eu acho que entendi. E falei para o Bento. Mas ele, parece, não entendeu nada: não vai ligar para o outro presidente. "Eu não vou me humilhar", ele falou, orgulhoso. Não sei o que aconteceu, ele não era assim! Acho que é por causa da amiguinha nova dele.
Agora, enquanto o Bento diz que ligar para o outro é se humilhar, o outro fica  com raiva e implica ainda mais com a gente, no futebol e em todas as atividades em que as turmas se encontram.
Nós não estamos nem brincando direito, com medo de brigas, a turma do Maycon só fala em armar para a nossa, toda a escola já está sabendo da treta e falando sobre isso, os professores e os outros alunos estão envolvidos, e tem gente até fazendo apostas. Daqui a pouco, nossos pais vão saber também, vão se meter na encrenca e aí, sai de baixo.
E tudo porque um aluno pensa ser maior, e mais forte, e mais justo que os demais, e o outro, mesmo sabendo que ele é mesmo maior e mais forte, não quer conversar e mostrar que ele, maior e mais forte pode ser, mas justo não está sendo. Acho que isso é que seria uma "boa conversa".
A diretora já conversou com a nossa turma, acho que também deve ter conversado com a outra, do outro horário. Nós todos já tentamos falar com o Bento. Deve ter alguma coisa acontecendo que ninguém está notando. Talvez a gente esteja fazendo alguma coisa errada mesmo, talvez as carteiras que serão usadas por outra turma não devessem ter nomes; talvez, também, a outra turma, que não tem mesmo o direito de mandar na gente, devesse conversar com a Direção, antes de brigar com a gente, abusando de serem maiores. Mas também mesmo, acho que a tal boa conversa  é que tem que acontecer.
Vamos continuar observando e contando pra vocês.

segunda-feira, 4 de agosto de 2025

DAVID E GOLIAS

Olha eu aqui de novo! Hoje vou falar dos meus amigos da escola. O Bento que é o mandão, tudo tem que ser do jeito dele, a gente o chama de presidente, e é o meu melhor amigo. A Larissa é a juíza, ela corrige todo mundo, é a dona da verdade. O Márcio que tá sempre tentando ajudar a todos, não quer ficar mal com ninguém, não é de falar muito, fica sempre no canto dele. E o Deco, que domina a cena, grita, briga, pula, reclama, não fica satisfeito nunca, ele anima o grupo. A professora sofre para dar aula, mas ela é bárbara, tem paciência e jeitinho, e têm dias que nem vemos a aula passar...  tem dia, né? Dia desses aconteceu uma coisa inédita, vocês sabem o que é inédito, né? A professora ensinou, é uma coisa nova, uma novidade. Mas o que aconteceu? Então, na nossa sala, eu pensava que em todas era assim, cada um senta na mesma cadeira,  desde o início do ano, tem até o nosso nome nelas. Então, durante o recreio, um aluno de outra turma, bem maior do que a nossa, inclusive, ele também é grandão, cismou de que isso é coisa de criança, de escola pequena, e resolveu mandar a gente mudar de posição. Mas o que você tem com isso, Maycon ? E quem falou que você pode mandar na gente? - perguntou o presidente, irritado com ele. 
Eu estava só curiosa. "Por que ele estava se metendo na nossa turma, se ele era até de outro horário?" 
O Maycon se saiu com a seguinte conversa: - Olha aqui, seu pirralho, acontece que eu também uso a mesma sala, e não gosto de ver as carteiras com nomes. Então, eu e meus colegas da turma, decidimos falar com vocês e, lá, eu sou o presidente.
" Ah! Agora entendemos tudo" - eu pensei. Um presidente grande querendo mandar num presidente menor, achando que só porque é grande, ele pode! Até achei graça, mas a Lalá não achou graça nenhuma. Ela falou cheia de razão: - Olha aqui, ô presidente de outra turma!, na nossa turma vale o que foi decidido pela nossa professora e pelo nosso grupo, e ninguém de fora pode mudar nada só porque quer. 
O Márcio ouvia e sorria. O Deco estava vermelho de raiva. E eu... bem, eu observava a cena e pensava:  "Quem será que foi buzinar no ouvido do Maycon, lá no outro horário?! Alguém da nossa turma, ou de outra turma do mesmo horário que quer trair a gente? Mas vou deixar isso pra depois, agora vou acompanhar a treta. " 
O Maycon estava tentando se explicar com a juíza: - Olha aqui “meretríssima", se nós também usamos a mesma sala, e se nós estamos mais adiantados e somos mais velhos, nós decidimos e vocês obedecem. É assim que funciona o mundo, ou vocês ainda não aprenderam isso? 
O Bento estava estranhamente quieto, não sei se surpreso com a situação ou com medo de reagir. Mas a Larissa gritou: "Nem mais velho, nem maior vai mandar em nós! Vamos apelar para a administração, e a diretora vai decidir isso!" 
Agora, todos nós estávamos quase que abraçados, formando uma barreira de defesa. 
Mas o Maycon não ficou com medo, ao contrário, ele reagiu com mais força: " - Então, vamos ser obrigados a agir contra vocês e quem apoiar vocês. Vamos fechar a porta quando sairmos da sala, levar a chave, e vocês não poderão entrar." 
"-E você acha que a Diretora vai permitir isso? - perguntou o presidente Bento, ao outro presidente.
 "-I don't know, - respondeu o Maycon quase cuspindo -, mas sei que vocês não vão entrar, e no dia seguinte, vamos levar o assunto para a Secretaria de Educação, e, enquanto isso, mudamos as carteiras e os nominhos de vocês todos, pirralhos!" 
O Deco quase o atacou, furioso, mas o Maycon avisou: - Melhor vocês fazerem o que mandamos, ou vamos avisar nas outras escolas e vocês não serão aceitos em nenhuma delas quando saírem daqui. Vocês vão ficar sozinhos.
O Márcio tentou acalmar o Deco.  -Esse cara é doido! - ele disse - melhor não provocar pra não ficar pior.
A Lalá olhou para o Bento, e pra mim e Deco: - Ah, é? E não vamos fazer nada? Vamos deixar esse gigante bobo fazer o que quiser?!
-Lalá - eu falei - ele não é bobo, e é grande, por isso o Márcio pede pra gente pensar, não bater de frente, né, Bento? 
O nosso presidente estava confuso, mas respondeu:, - Sim, vamos esperar até amanhã, se ele fechar mesmo a porta, a gente reage. Vamos fazer uma corrente humana na frente da porta no horário deles, aí também eles não poderão entrar.
De novo, a Lalá falou: - Ué, e perdemos todos? Ficamos todos sem aula? Não tem ninguém que pode botar juízo na cabeça desses moleques? 
Tia Mirian tocou a sineta, voltamos para a aula. 
Não sei o que vai acontecer amanhã, nem conosco, nem com os moleques. Depois eu conto. 
Como será que acontece no mundo dos adultos? Será que eles sabem resolver essas tretas sem brigas?

sábado, 2 de agosto de 2025

PORTÃO FECHADO, SACRIFÍCIO PELO NOVO

Pai e filho saem cedo. Missões importantes os esperam, serra molhada e esbranquiçada abaixo. Vão devagar, o caminho é longo, não têm pressa e querem conversar, desabafar, se conhecerem. 
Falam de si, dos seus sonhos, das angústias, das frustrações, das vitórias, das perdas, dos seus medos. 
Um diz do que fez, de porque fez, de como faria, e de como sente não ter feito diferente. Lamenta. 
Outro, se apresenta, diz quem é, quem quer ser, se expõe, fala de suas fraquezas, do desafio diário que enfrenta... e das derrotas. E também lamenta. 
Ambos têm dores crônicas, ambos têm muito amor pra dar e receber, e muitas carências. 
O clima, melancólico entre os homens no carro, muda lá fora, acaba a serra e o nível do mar atrai o sol. E com ele vem o filho, o Bento, o filho do filho ora confirmado, e que vão conhecer, reconhecer e abençoar. 
A praia, o carinho da mãe, o sorriso da criança e a alegria da avó, afastam a melancolia, e a inocência faz brilhar o sol e a esperança. Outros problemas virão, mas também a certeza de outro dia, de outro sol, e de outras oportunidades. Lamentemos menos. 
De novo a caminho, a segunda missão. Os homens agora falam de trabalho, as novas responsabilidades o exigem e se impõem sobre os problemas do presente. 
Errar o percurso, corriqueiro para o pai, é mais tempo para o filho fazer a transição entre a emoção sentida com a vida nova que ajudou a criar, e a realidade da sua vida já quarentona, que ainda precisa de um norte mais definido. E começando por um muro que precisa ser enfrentado, escalado pra lá e pra cá, ele vai enfrentar os monstros que o assombram, e depois voltar à vida, que não o assombra menos; os monstros insistem em não morrer. 
Muro escalado, portão fechado, vazio na alma. Lágrimas pela primeira vez nos olhos de um pai,  que somente agora, aos 66, sozinho do lado de fora do muro, se sente o pai que sonhara ser aos 22. Até a dor é bem-vinda, e ele reza pra que essa dor de agora, não se repita no futuro pelo mesmo motivo, no coração desse filho que também foi pai hoje.
A chuva recomeça, ele reencontra a névoa ao reiniciar a subida pra casa. Ao futuro! Amanhã fará sol.

LA LUNA - A ORIGEM

Há mais de trinta anos fui convidado pelo Seu Odir, então meu vizinho no Cascatinha, a visitar um terreno de um amigo dele que estava à venda.
Fomos lá num sábado pela manhã, era longe, no bairro Theodoro de Oliveira, outro extremo da cidade de Nova Friburgo, à qual mal conhecia, recém chegado que era. 
Seu Antônio Mira nos recebeu com simpatia. Ele morava numa casinha simples, a única da propriedade, com sua mulher, dona Maria, e o filho Osmar. 
A casinha era limpa, embora claramente não recebesse nenhuma manutenção, falta óbvia de recursos, tanto financeiros (eram muito pobres), quanto de ânimo (já eram idosos e cansados), e também não podiam contar com o filho, que não parecia muito afeito a trabalho.
Seu Antônio, seu Odir, meu pai e eu, fomos percorrer a propriedade, uma área grande e íngreme, de vegetação rasteira, e outra muito maior, de floresta fechada, com água corrente límpida e gelada, e trilhas usadas pelos vizinhos e caçadores. 
Andamos muito, subimos muito, fomos inclusive a uma clareira ao final, que seu Antônio já vendera a dois caçadores, um lugar plano, sem árvores, ensolarado (soalhero, meu pai dizia), lindo mesmo, um oásis de fazer os olhos brilharem mesmo na ausência do sol. 
Eu não me via em condições de comprar um terreno como aquele, imaginava ser totalmente fora do meu orçamento, porém me entusiasmava imaginar tudo que era possível plantar, implantar, criar e produzir naquele espaço, com tanta água, com tanto sol. 
Seu Antônio me falou num valor que me era viável, parcelou o pagamento, e eu comprei. Ele não tinha para onde se mudar, precisava de um prazo; eu não tinha o que fazer ali naquele momento, nem tinha previsão de quando poderia fazer algo, havia comprado por impulso, então, também por impulso (como sempre!), o autorizei a ficar enquanto vivesse ou eu não precisasse do espaço. Foi alegria total, "sopa no mel", diria meu pai. 
Empolgado, contratei o Osmar para preparar um trecho e plantar cem pés de cítricos, laranjas e limões de diversas espécies. Foi quando entendi que as terras daquela região não eram tão ricas como supúnhamos, meu pai e eu, acostumados às terras quentes, onde "em se plantando tudo dá". Aqui não é assim, em se plantando tem que cuidar muito mais que em outras regiões, tem que vencer o clima hostil e as pragas oportunistas,  e ainda assim nem tudo dá, daí por que quase ninguém planta e os terrenos não têm tanto valor. Não tem essa de almoço grátis! Não comprei barato, era o preço justo. 
O tempo passava, as laranjeiras não produziam, o Osmar também não, seu Antônio ficou doente e não conseguia mais andar, e decidi não me ocupar daquilo, só passava por lá para pagar a conta de luz, e empreitar com o Osmar a limpeza das áreas que não eram de floresta. 
Antes disso, ainda na empolgação, fora apresentado aos dois caçadores donos da clareira magnífica lá no píncaro, e comprara-lhes a área. Numa das visitas ao sítio, nem mais localizar a clareira eu consegui, os arbustos cresceram, se transformaram em árvores;  a floresta retomara o controle, o que eu, por um tempo, considerei injusto. 
Seu Antônio ficou acamado e inerte, por anos; depois que morreu, Dna Maria, foi acometida de uma doença de iguais sintomas, que também a manteve na cama por um longo tempo; a casa, que eu reformara, ia piorando de estado enquanto isso, como também o Osmar, cada dia mais dependente de álcool, e as laranjeiras carentes de cuidados. Aparecida, vizinha e filha do casal, cuidou deles incansavelmente até o fim. E eu cumpri o prometido. 
Osmar buscou "direitos trabalhistas" na Justiça. Na audiência eu disse ao Juiz que ele não fazia nada, não limpava ao menos o quintal, não saía de casa; e o Meritíssimo argumentou, rindo, que isso estava certo, que caseiro queria dizer isso mesmo que o nome diz, ficar dentro de casa vigiando. Como contra-argumentar com um Senhor Juiz, ainda imberbe, que ri enquanto toma decisões assim, e com uma caneta na mão que me custou um mil reais em dez parcelas de cem?!!! Não era tão pouco dinheiro como é hoje, mas era barato para me livrar do Osmar e do Juiz, e ambos sabíamos disso, o juiz e eu. 
Depois que Dna Maria faleceu,  outro filho, o Jacy, foi morar na casa, onde ficou por uns anos, tendo infelizmente, "viajado antes do combinado",  diria Rolando Boldrin, este que também "viajou" a pouco. Aparecida, então, indicou-me um casal, que ficou comigo por muito tempo; e foram tempos bons enquanto não voltaram a beber, alcoólicos que eram; porém, quando o fizeram, Deus meu!, queimaram até os tacos do piso da casa para se aquecerem. Um dia, a mulher partiu pra casa de parentes, e o marido, depois de pouco tempo, pra casa de Deus. 
Eu construíra uma casinha de caseiro, ao lado da casa velha com aparência de mal-assombrada, e acabei cedendo-a à minha irmã Rosilene, com uma pequena ampliação; ela, o Jorge e meu sobrinho Arthur ficariam muito bem instalados nela, como estão até hoje, lá se vão uns dez anos! 
Iniciamos então, aproveitando a estrutura da casa velha, e vinte anos depois de adquirido o terreno, a construção de uma casa que eu pretendia fosse pra reunião da família, nas épocas em que famílias costumam se reunir, porém meu pai não chegou a vê-la construída, e minha mãe, embora tenha morado nela uns cinco anos, não a curtiu, seu coração viajara com meu pai para um lugar inacessível a nós outros. Quebrou-se um pouco o encanto. 
Havia uma construção que servira como capril, e a transformamos numa linda casa para Renata e Rafaela, e mais recentemente, construímos mais uma residência, uma "casinha pequenina" para minha irmã Roneida, aumentando o calor de família numa terra de clima tão frio.
Nas noites de luar, todo o sítio fica iluminado, origem do seu nome; todas as noites, porém, brilham as lembranças de Seu Antônio, Dna Maria, Jacy, Klébio, Seu José e Dna Philomena. 
Pensava plantar no La Luna tudo que meu pai gostava e conhecia, mas o clima não permitiu. Pensava aproveitar a água farta que nascia e corria dentro do sítio, mas a intolerância dos vizinhos que também a aproveitam, não permitiu. Pensava estabelecer uma criação de cabras, mas o mercado não permitiu. 
Quando a pandemia assolava o mundo, nós construíamos o "La Luna" para espaço de festas, restaurante ou hospedaria, tudo isso ou algo disso, mas, por enquanto, é "fazenda-escola", moradia e ocupação para diversas famílias.  Pensamos muita coisa, fizemos o que deu, ainda vamos descobrir qual a vocação do sitio. Ponto de reunião da família, não foi, mas que pode reunir famílias, isso pode.