sábado, 2 de agosto de 2025

PORTÃO FECHADO, SACRIFÍCIO PELO NOVO

Pai e filho saem cedo. Missões importantes os esperam, serra molhada e esbranquiçada abaixo. Vão devagar, o caminho é longo, não têm pressa e querem conversar, desabafar, se conhecerem. 
Falam de si, dos seus sonhos, das angústias, das frustrações, das vitórias, das perdas, dos seus medos. 
Um diz do que fez, de porque fez, de como faria, e de como sente não ter feito diferente. Lamenta. 
Outro, se apresenta, diz quem é, quem quer ser, se expõe, fala de suas fraquezas, do desafio diário que enfrenta... e das derrotas. E também lamenta. 
Ambos têm dores crônicas, ambos têm muito amor pra dar e receber, e muitas carências. 
O clima, melancólico entre os homens no carro, muda lá fora, acaba a serra e o nível do mar atrai o sol. E com ele vem o filho, o Bento, o filho do filho ora confirmado, e que vão conhecer, reconhecer e abençoar. 
A praia, o carinho da mãe, o sorriso da criança e a alegria da avó, afastam a melancolia, e a inocência faz brilhar o sol e a esperança. Outros problemas virão, mas também a certeza de outro dia, de outro sol, e de outras oportunidades. Lamentemos menos. 
De novo a caminho, a segunda missão. Os homens agora falam de trabalho, as novas responsabilidades o exigem e se impõem sobre os problemas do presente. 
Errar o percurso, corriqueiro para o pai, é mais tempo para o filho fazer a transição entre a emoção sentida com a vida nova que ajudou a criar, e a realidade da sua vida já quarentona, que ainda precisa de um norte mais definido. E começando por um muro que precisa ser enfrentado, escalado pra lá e pra cá, ele vai enfrentar os monstros que o assombram, e depois voltar à vida, que não o assombra menos; os monstros insistem em não morrer. 
Muro escalado, portão fechado, vazio na alma. Lágrimas pela primeira vez nos olhos de um pai,  que somente agora, aos 66, sozinho do lado de fora do muro, se sente o pai que sonhara ser aos 22. Até a dor é bem-vinda, e ele reza pra que essa dor de agora, não se repita no futuro pelo mesmo motivo, no coração desse filho que também foi pai hoje.
A chuva recomeça, ele reencontra a névoa ao reiniciar a subida pra casa. Ao futuro! Amanhã fará sol.

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