Oi, você não me conhece, mas tente adivinhar quem eu sou.
Eu morava num lugar delicioso, seguro, quente e limpo, era tratada com muito carinho e atenção, acompanhava o movimento do bairro, e minha casa era muito movimentada, com muita gente entrando e saindo. Eu me relacionava bem com todos, todo dia cumprimentava os amigos habituais que passeavam por ali, conversava, trocava ideias... eu era feliz.
Chegou um tempo, porém, não me lembro quando (minha memória temporária é curta), que as coisas mudaram. A segurança virou uma prisão solitária, o calor ficou quente demais, a limpeza deixava a desejar, as pessoas se foram, e os carinhos e atenção se foram com elas. Meus amigos do bairro até continuavam por ali, mas eu já não tinha interesse neles, minha casa já não era tão deliciosa, talvez eu estivesse um pouco doente, deprimida, parei até de me exercitar nas escadas; ao contrário, minha saúde descia numa escada sem fim. Talvez o fim nem estivesse longe, ai,ai.
Nessas horas, porém, como diz o poeta, é como se então, de repente, você chegasse ao fundo do fim, e de volta ao começo. Não sei como e nem porque, (já falei da minha memória?), mudei para outra casa, noutra cidade, reencontrei os amigos de verdade, e revivi a atenção, o carinho, a segurança e a saúde, acho que até a mental, já que estou conseguindo te contar essa história.
Encontrei, na minha nova casa e nos velhos amigos, a vontade de viver, e conheci a certeza do valor de amigos presentes.
Eu até perdi um desses amigos, um novo amigo, ainda estou sofrendo por ele, mas a vida é assim, uma estação de chegar e partir, a dor faz parte; outros amigos vêm, e junto com os que ficaram, nos ajudam a viver a saudade sem excesso de dor.
Enfim, a essa altura você já deve saber quem eu sou, mas, se não sabe, pense que pode ser qualquer um amigo seu, ou parente, ou companheiro, pode até ser... você.
Não desista, não deixe chegar ao fundo do fim, a força está o tempo todo em nós, então reaja com a certeza de que, mesmo se chegar ao fundo, sempre existirá um anjo para te elevar, e você começará tudo outra vez.
Embora seja a pergunta que todos os filósofos se fazem pelos séculos, até cachorros sabem que o sentido da vida é recomeçar.