domingo, 28 de julho de 2024

CRIANÇAS, NÃO ENTENDEMOS NADA!

De longe, na rua, já dava para ver a minha escola. O sol fazia brilhar as cores do arco-íris, mas estava frio na minha cidade de flores e de frio. Fui recebida no portão pelaTia Raquel. Na sala de aula minha professora deu boa tarde para todo mundo, e todos respondemos quase cantando. Tenho um amiguinho novo, ele não sorri como todos, e não gosta de barulho, eu também não, mas ele cobre as orelhas com as mãos e fica muito nervoso. Dei um abraço nele, para ajudar, mas ele ficou mais nervoso ainda. A tia falou uma porção de coisas, bem baixinho, e ele se acalmou; ainda bem, a sala toda estava agitada. Achei que a aula foi muito boa, mas eu não sei se foi mesmo, só tenho sete anos!
Na hora do recreio saímos todos correndo, quer dizer, tentamos sair correndo, mas a tia não deixou, e fomos como soldados em fila. A cantina tinha muita coisa gostosa, mas eu trouxe meu lanche, meu pai falou que era melhor para a saúde, acho que era mais barato. Eu não sei, mas sei que dividi com meu novo amigo, e ele até sorriu pra mim, deve ter gostado muito. Algumas crianças não lanchavam, não deviam estar com vontade ou preferiam brincar. 
Depois do recreio a turma estava mais calma, a tia deve ter ensinado melhor, eu acho. Meu amigo voltou a ficar quieto, prestando atenção em tudo, mas sem falar nada, nem sorrir. A tia passou dever de casa e mandou trazer na próxima aula. 
Hora de ir embora, outra vez em fila, e cantando. Gosto da minha escola, e dos meus amigos, e da minha professora. Estava com saudade. 
Na volta não vejo minha casa de longe, nem as flores da cidade das flores, já está ficando escuro e está mais frio. Minha mãe chega quase junto comigo, ela estava trabalhando. Vou ver um pouco de TV enquanto ela vai fazer o jantar, e só depois vou tomar banho. Agora quem chega é o meu irmão, ele estuda pela manhã e trabalha à tarde, vai tomar banho e sair de novo, não sei quando faz o dever de casa. Será que os mais velhos não têm dever de casa? 
Estou ficando com sono, meu irmão não sai do banho, deve estar vendo celular no banheiro, e minha mãe, cansada, sentou-se ao meu lado esperando meu pai chegar do trabalho. Ele demora, meu irmão quer sair, eu estou com sono e minha mãe resolve servir o jantar. Ela briga com meu irmão que fica no celular enquanto come, eu quase não consigo comer, de tanto sono, meu pai chega e se aborrece por que já estamos jantando, e todos falam ao mesmo tempo, até que meu irmão sai, minha mãe vai arrumar a cozinha e fazer o almoço de amanhã, meu pai vai tomar banho, e eu, bom, acho que ninguém vai notar que não tomei banho, então troco de roupa e vou dormir. 
Pela manhã, minha mãe me acorda brigando por que dormi sem tomar banho e não fiz o dever de casa, meu irmão está saindo para a escola. Ele deve ser um aluno muito bom ou a tia da manhã é muito boa professora, por que ele não estuda em casa e nem faz o dever. Mas que sei eu, com meus sete anos?! Só sei que tenho que levantar, tomar banho e café, e estudar no sofá sem ligar a TV. Minha mãezinha querida faz meu dever e sai para o trabalho, meu cabelo é difícil, e ela não tem tempo pra ele. Meu pai já saiu mais cedo, ontem trabalhou até tarde no notebook, não sei bem o que ele faz, às vezes parece meio atarantado.
Onze horas da manhã e nem estudei, não deu tempo, e ainda tenho que aquecer o meu almoço, almoçar, deixar o prato e talheres na pia, escovar os dentes e os cabelos, vestir o uniforme, pegar a mochila  e ir para a escola, não esquecendo de fechar as janelas e a porta de casa. Acho que isso é exploração de trabalho infantil. 
Vou para a escola, chego um pouco cedo e ouço uma conversa da tia com a tia diretora, falavam de alunos que não aprendiam, de pais que não ajudavam e não ensinavam em casa, das tarefas que  não eram feitas, da higiene, de outras tias que não tinham paciência, uma porção de coisas que pela cara delas, pareciam tristes e sérias. Perceberam que eu ouvia e me mandaram sair, "você já tem sete anos, sabe que não deve ficar ouvindo conversas de adultos". Meu pai também diz isso, "Você tem sete anos, já era pra saber fazer as coisas sozinha!". Eu queria mesmo é que cuidassem mais de mim, eu só tenho sete anos! 
Melhor ir para o parquinho e, no balanço de  cordas, enquanto subo e desço, pensar na minha escola, na minha família, na minha vida que já tem sete anos. Como minha mãe diz, a vida da gente é assim, um sobe e desce que não para. 
Se eu não tivesse só sete anos, iria trabalhar e não estudar? Se eu fosse minha mãe, ficaria cuidando da minha filha e ensinaria a fazer as tarefas em vez de fazer eu mesma? Se eu fosse o meu pai, eu ficaria mais com minha família à noite, em vez de no computador? Se eu fosse meu irmão, eu iria estudar e ajudar a minha irmãzinha? Se eu fosse a minha tia, conversaria comigo em vez de me deixar triste no parquinho? Tudo muito difícil, coisa de adulto, eu sou apenas uma criança e não entendo nada. Vou aproveitar o balanço, está quase na hora da aula, não estudei a lição e, se a professora me pedir pra resolver o dever de casa no quadro, não vou saber e isso será um problema. Acho que minha mãe não pensou nisso. Vou pedir um abraço ao meu amigo. 


sexta-feira, 26 de julho de 2024

A COBRA E O GIGANTE

Uma das ocupações de meu pai era empreitar serviços, quer dizer, negociava um valor para realizar um trabalho, podendo obter lucro ou prejuízo, mas executando o combinado de igual modo. Ele contratava homens e os levava para as fazendas a "bater pasto" (roçar o mato com foices ou mesmo arrancá-lo com as mãos), plantar café, arrancar pés de café (por incrível que pareça o governo já pagou para os fazendeiros destruírem os cafezais) construir cercas, e outros serviços "leves".
Como point para esses homens, ele instalou um botequim, um barzinho de cachaça, banana e pão, onde se reuniam para uma pinga, às 4 ou 5 da manhã e às 6 ou 7 da noite. Eu, com 7 anos, anotava o ponto, e as cachaças que eu mesmo servia (50 cruzeiros na primeira marca, 100 na segunda e 200 passando a régua).
Num desses encontros, uma tarde chuvosa, a rua de terra batida, como só duas não eram na Varre Sai daquele tempo, mais parecendo um rio barrento e caudaloso, copinhos pra lá e pra cá, uma voz poderosa berrava palavrões. Isso meu pai não admitia, na casa dele só ele xingava!
- Amós, para de xingar!, pediu com o carinho que costuma tratar o seu grupo. O gigante nem o ouviu. 
- Amós, para de berrar ou vai se ver comigo!, agora já era o "carinho" com que também costumava tratar o seu grupo. E não ouvido... 
- Amós, eu te avisei! Meu pai sempre dizia que três vezes é forca. Ele pulou o balcão num salto ágil, enquanto eu me assustava, os homens se afastavam, e o Amós se via atingido como que por uma marreta de marroeiro, e ia chafurdar na lama de uma rua qualquer de Varre Sai. Morreria afogado, por que nenhum dos espectadores felizes se atreveria a socorrê-lo sem meu pai autorizar. Ele mesmo foi socorrê-lo. 
Um tempo depois, num dos safáris em pastagens distantes, uma jararaca encontra a barriga da perna do gigante, e é sabido que quanto maior o tamanho maior o tombo. Meu pai improvisou um torniquete, fez um corte acima da picada, chupou o  veneno, botou o ferido sobre o cavalo, buscou socorro, e mais tarde levou-o para a cidade, onde ficou entre a vida e a morte por muito tempo, até se recuperar totalmente sob a atenção do Zé Sobreira, como meu pai era conhecido. 
A cobra, o próprio Amós abateu. O amor e respeito entre homens assim, nunca morre. 

quinta-feira, 25 de julho de 2024

INCONTINÊNCIA

São, agora, quatro horas de uma madrugada muito fria, estamos vivendo madrugadas até mais frias que esta nessa época do ano aqui na serra. Dormi profunda e levemente, depois de várias horas de música na TV; Netflix e Amazon estavam com problemas de sinal, e jornal de notícias já não vejo mais.
Acordei de um sonho bom às três e meia, não me lembro o que, mas sei que era bom por que sei a sensação de um sonho bom; eu, leve como um acorde de viola, preferiria não me levantar, mas minha bexiga discordava, e andei como um sonâmbulo. 
No banheiro, tragédia!, não levantei a tábua do vaso, estava ainda no mundo dos sonhos. O cérebro foi rápido, a PNL explica: "torneirinha aberta - ruído estranho, não é de água - tampa baixada - então, torneirinha fechada incontinenti (incontinenti?!) - tragédia minimizada, pouco xixi pra secar e higienizar". Ai, droga!, eu gemia enquanto o cérebro reagia.
Certa vez, adolescente, fui visitar, noutra cidade, um professor amigo que conhecera na infância e que não via há uns anos. Ele me levou ao banheiro, me apresentou ao vaso sanitário, e me orientou como usá-lo. Eu era humilde e respeitoso demais para perguntar-lhe se pensava que eu era como ele, quando saíra da roça para a cidade. Mas, sim, eu fora igual a ele, na época em que moramos na Arataca, e depois, na Casa das Jaqueiras, em Varre Sai. Lá, os banheiros eram casinhas normalmente de madeira ou estuque, construídas a uns cem, duzentos metros da casa, sobre um curso d'água ou sobre um simples fosso aberto na terra, e o vaso sanitário era substituído por um buraco feito no assoalho de tábuas. Prefiro não me lembrar, ou pelo menos descrever, como se fazia nas eventuais necessidades noturnas, com frio, às vezes chuva, caminho iluminado apenas pela lua, quando a lua não estava com frio. Lembrar como era antes fará até não doer, daqui a pouco ter que higienizar o meu banheiro quentinho, seguro e revestido de azulejos. Progresso! Vantagens e desvantagens. 
Volto para cama, acordado e humilhado, e não consigo dormir, fico "redigindo" mentalmente a história, faz frio pra levantar e ir para a sala. Meu cérebro, generoso e matreiro, me lembra que é durante o sono que as memórias se fixam, são apreendidas, razão pela qual as crianças precisam dormir bem e regularmente, portanto, se eu dormir, o texto que montei estará intacto na manhã. Convencido, me acomodo no calor da minha cama, mas não adianta, num ato falho do cérebro ele deixa escapar que não sou criança há mais de cinquenta anos.
Cinco da matina, melhor voltar ao quarto, vou ao Rio daqui a pouco visitar o meu filho Vinicius, e compromisso é compromisso, seja com frio seja com sol, não importam as tábuas pelo caminho. 


sábado, 20 de julho de 2024

GOIABICE

Emprestei esse termo de um cronista que gostava de ler na Revista Crusoé, o Ruy Goiaba, ele escreve livre, fluido, crítico e com humor. Ele criou o termo e a própria expressão "goiabice do dia", pelo menos só dele que li. Lembrei dele hoje, quando roubei duas goiabas de uma goiabeira que nasceu na frente da minha casa. Eu cuidei dela por uns sete anos, e ela já produz há uns três. Em Friburgo, porém, as fruteiras não produzem muito por causa do clima frio, então tenho que competir com os pássaros. Essas que colhi, duas frutas grandes e lindas, ainda estavam com as cascas verdes, porém, por uma janela aberta pelos pássaros mais ansiosos que eu, via-se a polpa vermelhinha. Me senti um pouco mal por afanar-lhes as goiabas (foram eles que plantaram), então troquei por duas bananas amarelas e apetitosas, acho que eles ficaram satisfeitos, e eu não terei dor de barriga.
Na roça dos meus seis a doze anos havia goiabas por toda parte, brancas ou vermelhas por dentro, verdes ou amarelas por fora, com bichos e sem bichos, o que nem fazia diferença, e as sementes sumiam nas cáries, essas suficientes em tamanho e número para aquelas se esconderem. Creme, escova e fio para higiene bucal, eram artigos desconhecidos, como também a própria expressão "higiene bucal"; o dentista só era procurado quando o dente doía, e ele não se fazia de rogado, extração era a regra.
Hoje, enquanto como as goiabas das aves, sem nenhuma preocupação com as cáries, que não se criam em dentes implantados, recordo minha infância, a fartura de frutas e sonhos, de pássaros e alegria, de animais e brincadeiras, de irmãos e jogos, de família e amor. Eu subia quase todo dia numa das duas enormes e generosas jaqueiras do nosso quintal, para me esconder de meu irmão ou mesmo para pensar coisas importantes e sérias que um garoto de oito anos pensa. Eu ficava lá por muito, muito tempo, até dormia sentado no alto do tronco, no qual acompanhei por meses o crescimento de uma jaca, desde que uma delicada florzinha, até se transformar numas das maiores frutas que já vi, talvez mesmo a maior. Minha ansiedade, sempre presente, não me permitiu aguardar o tempo certo, e eu colhi a fruta ainda verde. "Colhi" é força de expressão - seria necessário mais de um adulto para isso - de fato eu a derrubei, e depois de vários meses zelando pela sua segurança, eu a perdi.
Lembrar da infância, dos cavalos de pau, das bolas de gude, dos sonhos que, de tão distantes, pareciam impossíveis, é tão bom quanto comer goiabas fresquinhas, colhidas do pé, sob o canto alegre dos pássaros, mais generosos que nós, e faz pensar que o hoje que vivo, foi um sonho há meio século, que estava de fato distante, mas que não era impossível, só distante. 

sábado, 13 de julho de 2024

CONSTRUINDO PONTES

Críticos ácidos dos rumos a que o nosso país é levado, e embora muitas vezes demonstrando total descrença com o nosso futuro, insistimos em lutar e tentar fazer diferente. Resistir é preciso, a omissão não nos redime e as gerações futuras não nos perdoarão. Fazemos a nossa parte, objetivamente, construindo pontes para permitir o acesso a trabalho e educação ao maior número de pessoas que alcancemos. O Colégio que ajudamos a administrar é uma ponte para transformar crianças e jovens em adultos responsáveis e capazes de gerir o próprio futuro, mesmo quando a condição atual de algumas famílias não lhes permita sonhar. O Colégio também é, junto com a empresa que gerimos e a fazenda-escola, uma ponte de acesso a trabalho digno, e nessa dinâmica, de administrar escola, alunos, professores, empresa, clientes, vendedores e outros profissionais, construímos pontes que podem unir a realidade sofrida de um povo, a um futuro distante mas possível, se de alguma forma a sociedade descobrir o que é importante de fato, e, mais pessoas começarem a pensar nos outros, não antes de si mesmas, mas além de si mesmas, não pra tirar de si e dos seus, mas para dividir com os outros um pouquinho do que sobra, por que sempre sobra um pouco, e não há por que guardar, por que "não é seu nada do que guardar, tudo vai passar e tudo bem", diz o poeta. 
Nossa sociedade sofre com governos ruins, problemas estruturais que parecem insolúveis, racismo, incompreensão, desigualdades, fome, guerras. Alguns de nós sofrem mais, com a consciência e o peso da responsabilidade de saber que a solução passa pela Família, pela Escola e pela Educação; e Família somos, Escola é o que fazemos, e Educação é o que Família e Escola devem perseguir juntas, especialmente num mundo em que o convívio pais e filhos está tão distante, prejudicado pela falta de tempo e cansaço de uns, e pelos mil apelos midiáticos a bombardear a mente de outros. Enquanto crianças e jovens, expostos a esse bombardeio de informações, a maioria inúteis, muitas maliciosas, praticamente nada aproveitável, têm suas mentes saturadas e até mesmo programadas, os pais, se não estão se debatendo na mesma teia que prende também os seus filhos, estão cansados demais da lida diária ou resolvendo conflitos pessoais, daí a atenção à educação dos filhos ser cem por cento delegada à Escola. Mais que delegada, ela é abandonada, por que não é obrigação só da Escola formar cidadãos, trata-se de uma obrigação primeira da Família. 
Somente formando cidadãos conscientes, curiosos e livres, teremos  alguma chance de reformar o pensamento e a sociedade. Infelizmente, sabendo ser uma meta difícil e que uma andorinha não faz verão, nos deixamos paralisar, o medo da derrota nos faz desistir, a sensação da impossibilidade nos torna impotentes, e vivemos por viver, trabalhamos por trabalhar. Sem prazer pelo que fazemos nos contentamos com o trivial, não fazemos diferente, não fazemos a diferença. 
Precisamos abrir as janelas da alma, olhar para o futuro que  queremos, com o qual sonhamos, e acreditar que podemos, que o impossível é o que acreditamos ser. É importante compartilhar esses sonhos, contar pra outros sem egoísmo, especialmente às famílias, para que a trilha seja mais leve quando os sonhos forem de todos. Uma trilha pressupõe obstáculos, medos, dificuldades, mas ao final, o prêmio: "a alegria te espera". 
O nosso Colégio esteve em mar revolto, e o sonho de uns poucos manteve a terra no horizonte,  parte da tripulação sobreviveu para testemunhar que o sol brilha se a janela estiver aberta. É preciso vencer o medo, despertar as manhãs, questionar as mentiras, abençoar as verdades, cantar uma mesma canção, refazer o passo e dançar pela vitória, e ela virá, como o sol vem.
"Toda melodia é um farol-guia em alto mar, quando uma canção consola alguém, valeu cantar". Ouçamos a canção que emana de nossas ações, temos nossa própria melodia, vamos dar nome a ela, surfar nas notas e dançar com elas, por que "vendo a gente, toda gente busca o seu par", e mais cedo ou mais tarde, poderemos ser muitos pares a corrigir rumos e mudar o futuro. 
Juntos, numa melodia única, composta por todos, poderemos preparar um novo tempo, mais solidário, mais inclusivo, mais justo. Abra a sua janela. Busque outros pares pra dançar. 

(As aspas são para Osvaldo Montenegro) 

domingo, 7 de julho de 2024

VOO DE GALINHA

Há cinquenta, sessenta anos, o desafio maior de todos era complementar a renda familiar, e meu pai criava ou aproveitava todas as oportunidades possíveis. Não sei como, se transformou em intermediário no comércio de aves domésticas para abate, comprando das famílias e vendendo ao Abraão, um comerciante que vinha de Itaperuna.
Entre as quartas e sextas feiras recebíamos os homens, mulheres, e até criancas, que chegavam com as galinhas. Elas tinham os pés amarrados com fibras de bananeira, conhecidas como embiras, penduradas de cabeça para baixo num cabo de vassoura, ou mesmo numa foice com cabo, que era colocado sobre o ombro do individuo, com o peso distribuído, em equilíbrio, para frente e para trás. Meu pai fazia o preço, pesava, calculava o valor e pagava. Me ensinou. Minha mãe também sabia. Na época da Semana Santa, vinham também outros animais, como cabritos, carneiros e porcos. No sábado pela manhã, o Abraão passava com seu caminhão, e pesávamos tudo numa balança grande. A diferença entre o valor da compra e o da venda, mais o resultado quase sempre positivo das empreitadas que meu pai contratava com os fazendeiros da região, complementavam a renda e supriam os projetos de educação e sustento para uma família de, nessa época, sete pessoas.
Eu trabalhava auxiliando no atendimento no botequim, na compra e venda de animais e aves, nos apontamentos dos serviços por empreitada, e na administração de equipes de trabalhadores. Tinha que  alimentar muito os animais às vésperas da pesagem, chamar a atenção do Abraão para erro ao pesar os animais, na soma desses pesos ou no fechamento das contas; fiscalizava o ponto dos homens, calculava o salário e deduzia as despesas e vales. Rotineiramente também ajudava minha mãe com as tarefas domésticas, cuidava dos irmãos menores e ia à Escola. Essas atividades desenvolveram no garoto tímido, habilidades como matemática, vocabulário, relacionamento, argumentação, raciocínio lógico e organizado, disciplina, resiliência, respeito, malícia também, e até livre arbítrio para decidir na ausência do pai. Ser, nesse contexto, quase sempre um dos melhores alunos da classe era obrigação, não era muita vantagem, afinal, a competição era desigual mesmo, eu tinha uma faculdade em casa, embora meu pai analfabeto, minha mãe mal alfabetizada, e nos relacionássemos sempre com pessoas de nível educacional semelhante ao deles, mas era um ambiente rico em oportunidades de aprendizado, que, embora na época não soubéssemos, aproveitávamos todas. 
Os obstáculos iam sendo removidos ou contornados, os objetivos eram claros: sustento, educação e conforto para a família, nessa ordem. E a vida seguia o curso que meu pai queria, embora em voo de galinha. 


quarta-feira, 3 de julho de 2024

VOANDO SOBRE RODAS

Meu pai tinha crédito por onde passava, e eu me aproveitei disso quando tinha algo como 15 anos. Rubens, o fotógrafo da cidade, músico da Lira Santa Cecilia, também era o gerente (seria o dono?!) da única loja de móveis e eletro da cidade, e ele me vendeu, às vésperas de um natal dos anos 70, uma bicicleta Caloi, verde e linda, por seiscentos cruzeiros, em trinta parcelas de vinte cruzeiros cada.
Nunca ganhara um presente de Natal que não fosse alguma roupa ou calçado, e decidi me dar um presente, que pagaria com os "ganhos" do botequim. Só não combinei com os russos, no caso o meu pai, que levou um susto ao chegar do trabalho e me ver desfilando a verdinha na rua, para os vizinhos curiosos.
Até hoje não entendo como ele não brigou e me fez devolver a "máquina", afinal o botequim era dele; acho que, na verdade, ficou orgulhoso da minha iniciativa e do crédito, que sabia não ser meu.
Ganhei a bicicleta, a responsabilidade pelos pagamentos que a inflação "derreteu", a liberdade de poder trabalhar, comprar e pagar, e, autêntico filho de Zé Sobreira, com o hábito de fazer tudo muito rápido, ganhei também o agravamento do risco por estar sobre as duas rodas da verdinha.
E foi assim que atropelei um mecânico que saía por debaixo de um caminhão, foram duas costelas fraturadas, três pontos na cabeça e quinze dias sem trabalhar, que meu pai foi obrigado a indenizar por ordem do Juiz de Menores.
E foi assim que deixei meu irmão menor, hoje, o maior, Fabiano, debaixo de uma camada de poeira, uns cem metros atrás. Era um anjo de cabelos dourados e cacheados, que estava na garupa, e os vizinhos me alertaram da queda. Deveria ter uns 2 anos, se não menos, era só poeira e arranhões, o anjinho. 
Anos antes, numa bicicleta velha, sem garupa, freios e paralamas, meu irmão Flávio teve mais sorte, nas diversas vezes em que, sentado no quadro, ele pilotava na descida do morro do hospital, enquanto eu pedalava apoiado nos ombros dele. Nunca caímos. Deus protege as crianças e os doidos... e as crianças doidas.
Anos depois, recém chegado a  Bom Jesus do Itabapoana que tinha escola de segundo grau (atual Ensino Médio), indo para o Colégio Padre Melo, no meu primeiro dia de aula no Curso Técnico de Laboratório Médico, uniforme novo que o alfaiate havia entregue no dia anterior e que meu pai pagaria em prestações, cadernos debaixo de um braço, caí da bicicleta na rua calçada por paralelepípedos (não consigo pronunciar isso direito!), rasguei a camisa, a calça, o quadril, amarrotei os cadernos espiralados cuidadosamente encapados, voltei pra casa derrotado, e frequentei todo aquele ano letivo com a camisa remendada acima do bolso, e a calça na altura do quadril. Meu irmão Flávio escapou dessa também. O aviso divino era só pra mim: Te cuida!