sábado, 28 de dezembro de 2024

ETERNOS RECOMEÇOS

Bom Jesus do Itabapoana: Quinhentos cruzados, em dez notas de cinquenta, estalando de novas. Tirei do bolso para não perdê-las durante a lida com as atividades do dia, no sítio. Deixei-as nalgum lugar, talvez sobre a mesa da cozinha. Sumiram! Meu pai e eu procuramos por muito tempo, refizemos todos os passos que demos desde o amanhecer, e nada, sumiram, escafederam-se! Perda confirmada, nós, conformados, descansávamos no alpendre, quando vimos nosso auxiliar chegando da cidade; ele estava estranho, se escondia nos olhos baixos, parecia até desequilibrado, com dificuldade para andar. Entreolhamo-nos, meu pai e eu, já sabíamos: O malfeito fazia-lhe mal. Ele nos devolveu o dinheiro, ainda trabalhou conosco por outros natais, não o despedimos, ele aprendeu, e recomeçou. 
Nova Friburgo: Aconteceu que deleguei a um faz tudo que trabalhava comigo já há uns dois anos, a tarefa de entregar um cheque a uma pessoa que me prestara serviços de terraplanagem. Uns meses depois o dono da máquina, que vinha tentando me encontrar já há muito, esteve em minha casa a me cobrar pelo serviço, ele não recebera o meu cheque! Acertei as contas com o meu empregado, despedi-o sim, mas sem lhe dar "justa causa", e mais tarde o reempreguei, numa segunda chance. Um tempo depois, meu irmão Fabiano o acusou de ter-lhe roubado um rádio antigo que estava guardado no sítio. Ele não tinha provas, e eu me aborreci e o proibi de dizer isso apenas baseado na história antiga. Visitando, porém, uma loja próxima à nossa casa, Fabiano quase grita, "Olha o meu rádio!". Eu teria brigado novamente com ele, não fosse o dono da loja tê-lo ouvido, e, adiantando-se, ter dito que o comprara justamente do dito cujo! Meu irmão recuperou o rádio, o meu amigo da loja ficou com o prejuízo (afinal também ele era culpado, não se compra objeto sem origem legítima), e o empregado ficou desempregado. Acredito que aprendeu a lição. Certamente o veria de novo, eu sabia, e provavelmente voltaria a ajudá-lo. Encontrei-o semana passada. Ele está mais centrado, mais consciente do seu papel na família e na sociedade, merece uma terceira oportunidade. Sempre é tempo de recomeço. 
Rio de Janeiro:  Um colega de trabalho que se tornou meu amigo, e amigo da família, veio mais tarde a ser meu sócio, a meu convite, numa empresa que constituímos. Trabalhar não era muito o seu forte, não o trabalho como eu entendo; ele era mais de elocubrar, e suas elocubrações nem sempre eram objetivas e factíveis. Para desfazer a sociedade, ajustamos um preço pela sua parte, parcelado em trinta e cinco parcelas. Ele se mudou para o Sul, e, trinta e quatro meses depois sua mulher me ligou pedindo para eu recebê-lo de volta, ela não o suportava mais dentro de casa sem ter o que fazer. Não sei como se suportaram nos quase três anos anteriores nos quais também não tiveram o que fazer, mas, claro, recebiam os valores mensais que eu pagava, mas esse não é o foco da nossa história. Ele voltou, fiz-lhe um salário, e trabalhamos juntos por uns dois anos de dificuldades de toda sorte, falta de sorte ser empresário no país das dificuldades. Ele recebia todo mês, mesmo que eu próprio não recebesse, porém, ainda assim, constituiu em segredo uma empresa como a minha, atraiu os meus vendedores, e, exímio conhecedor de informática que era (só não era exímio em ética), copiou o meu cadastro de clientes. Em dois anos ele faliu e sumiu, talvez reapareça algum dia. Eu o receberei, acho. Não sei se ele aprendeu, mas eu aprendi que sempre é hora de recomeçar, ainda que não seja Natal. 
São Paulo: Eu trabalhava numa importadora. Nacionalização de mercadorias, cotação do câmbio, invoices, etiquetagem, cadeia de impostos, formação de preços, lotes e validades, eram o assunto e a preocupação de cada dia. A responsável por parte dessas atividades, vez por outra, com mais frequência do que a expressão faz notar, cometia erros que prejudicavam a operação. Seria só demitir? Não, claro que não! Sempre odiei demitir, prefiro conversar, treinar, voltar a conversar e a treinar. Certa vez, sem desembaraço após quase sessenta dias do desembarque dos produtos, por conta de greves sequenciais na alfândega, novos erros da moça agravaram em muito o quadro, já negro. A tensão acumulada, me fez gritar com ela, num desabafo impensado, ao qual ela respondeu  também nervosa, dizendo que ia embora, que isso já era assédio. Eu já sabia, mesmo enquanto me exaltava, ter errado na medida, e que nada justificava o destempero que tomou conta de mim. Ato contínuo, então, no mesmo tom e volume, e ainda no meio de todos os colegas, falei com ela, reconheci o meu erro e me desculpei; sem conseguir evitar, porém que ela deixasse o trabalho. Enviei-lhe mensagem depois, lamentando o que aconteceu, mas ela nem mesmo leu, me bloqueara, provavelmente. A história me incomodou por meses, até que, neste fim de ano, ela nos visitou, me abraçou, e pediu, vejam só!, ela me pediu desculpas por não ter me ouvido.
Relembrar essas vivências me faz refletir que sempre é tempo para um recomeço, além de ser mais fácil recordar os erros - erramos muito menos do  que acertamos, o que é uma boa notícia ; e mais produtivo - aprendemos mais com erros e derrotas do que com acertos e vitórias, o que também é bom. Mas, "Cautela com isso" alerta Mário Sérgio Cortella, "Não é o erro, é a correção do erro que ensina". Se não corrigimos, não aprendemos. 
Aproprie-se de um bem alheio, e mais cedo do que tarde perceberá que não lhe serviu de nada, e a mancha no seu currículo e na sua consciência lhe assombrará por toda a vida. Perdoe quem te ofendeu e terá satisfação completa, palpável mesmo no corpo, sentida na alma; e a alegria dessa ação o levará a repeti-la, lhe dará segurança e autoconfiança nos relacionamentos, e poderá contagiar as pessoas ao seu redor, alimentando uma corrente do bem.
Roubar esperança, confiança, autoestima, alegria, motivação, pode ser um erro irreparável. Agradecer pelo que temos, ajudar como pudermos, perdoar pelo que nos fazem, perdoar-nos pelo que fazemos, compreender os que não veem, e perceber o que não vemos, são lições que a vida ensina, quem tem olhos que... viva. 

quarta-feira, 18 de dezembro de 2024

DE CASTRO ALVES A CHICO BUARQUE.


Esse texto foi encomendado. Minha irmã me pediu que escrevesse alguma coisa sobre uma viagem especialmente marcante que eu tivesse feito. Tarefa difícil, que talvez não o fosse tanto se espontânea, mas, por encomenda, tornou-se ingrata. Me lembro de Fernando Sabino, escrevendo sobre a sua dificuldade, dele e de outros pares ilustres, com assuntos para a crônica de todo dia. O próprio relato já era uma crônica, já era uma delícia de leitura, mas... Fernando Sabino!
Eu viajei muito pouco, e dizia aos meus amigos, e a mim mesmo ao ponto de me convencer, que eu não gostava de viajar, preferia economizar para adquirir casa própria, automóvel, pagar escola para os filhos, ajudar no sustento de meus pais e irmãos etc. Hoje, olhando em retrospectiva, nem acho que fiz errado, na verdade não existe um "Manual de Procedimentos" para o dia a dia da vida, precisamos apenas ter firme convicção de que fazemos o nosso melhor, e então não haverá razão para culpas posteriores; ainda que tenhamos errado, teremos feito o que achávamos certo no momento. Mas fechemos esse parênteses que abri sem pedir, e retornemos à história encomendada. 
Não me lembro de uma viagem assim tão especialmente marcante, mas todas as viagens foram marcantes, especialmente para alguém não habituado ao frequente viajar. Rodando o backup da memória, identifico o arquivo da viagem que fizemos à Europa há dez anos. Foi tudo tão surpreendente e belo para este neoviajante, que ele teria que ser um artista para retratar e traduzir em palavras, os sentimentos que os ambientes, as paisagens, os costumes, as cores e cheiros nele despertaram. Entramos no velho continente por Amsterdã, na Holanda, e de lá fomos a Bruges na Bélgica, Munique e Frankfurt na Alemanha, Praga na República Tcheca, Veneza e Florença na Itália, Paris na França, e, pièce de résistance, fizemos em veículo alugado, a charmosa e inesquecível Rota Romântica, um tour por dez cidades alemãs, históricas e pitorescas. O circuito é facilmente encontrado no Google, então vou me poupar de transcrever aqui os nomes das cidades que nos encantaram com o seu povo hospitaleiro, que se desdobra para atender bem, inclusive, e talvez principalmente, a quem não lhes entende o idioma; o interior com casas com flores sempre bem cuidadas nas janelas - todas as casas e todas as janelas; cidades com arquitetura medieval, enormes praças calçadas com pedras lisas pelo uso, castelos imponentes - alguns lindíssimos, grandes muralhas, grandes sinos e vigias que nos levam a viajar pela história. Os espaços são tão amplos e as cidades tão apraziveis, que nem percebemos quem é turista e quem é morador, e embora muita gente circulando, os cheiros são de limpeza. Os campos são tão bem cuidados, os rolos de feno parecem tão leves e as maçãs nas macieiras, tão doces, que dá vontade de fixar residência e trabalhar na região. Ainda hoje, porém, me pergunto aonde estavam os trabalhadores rurais. As casas lindas, com flores nas janelas e lenha empilhada cuidadosamente, os campos limpos, os grandes rolos de forragem espalhados aleatoriamente pelos campos, as frutíferas bem podadas, os cercados impecáveis, contrastavam com a incômoda ausência de... gente. Seria um cenário montado para turista ver? Um imenso cenário, preparado para receber visitantes do mundo inteiro? Eu não sei. Enquanto escrevo tive esse insight, mas isso não faz mudar nada nas minhas impressões, mostra apenas que eles são mais inteligentes que nós, nós que preferimos expor as nossas misérias, emoldurando com elas os quadros que a natureza pintou e nos presenteou. Aquela região continua a ser a mais bonita que já vi, e o nome dado ao circuito não poderia ser mais apropriado, respira-se romance naquelas paragens, além de história, e não dá vontade de voltar à realidade.
Fora de lá, porém, não se fica menos impactado:
Praga, com centenas de igrejas góticas tão imponentes quanto vazias, noites cheias e movimentadas, e pontes que contam histórias, é inesquecível. 
Veneza, é mais bonita nas fotos, assim como o Rio de Janeiro é mais bonito do avião, mas, tanto uma como outra, são cidades às quais não se pode deixar de conhecer. 
Em Amsterdã, naquela viagem, ficamos apenas dois dias, e eu perdi um vomitando num dos principais canais, ao lado do icônico painel  "I LOVE AMSTERDÃ", para meu desespero, e para escândalo dos turistas que passavam (deviam ser brasileiros curiosos). 
Bruges, ah, Bruges! Já fomos outra vez e talvez ainda voltemos. Uma cidadezinha que parece, toda ela, um cenário de filme do século X, sei lá, do início dos séculos. Originalmente cercada de muros por todos os lados, cresceu para além muros com o tempo, sendo do lado de lá uma cidade como outra qualquer, porém, nos limites originais, parece saída de um conto de fadas, como li num site de viagens. Andamos por toda a cidade de bike, tanto de dia quanto à noite, por ruas estreitas e limpas, com iluminação suave, indireta e suficiente. Prédios antigos e multicoloridos, eles, por si, já obras de arte a serem admiradas, como se fossem casas de brinquedo. Esplêndidas igrejas e prédios públicos construídos há séculos, com manutenção primorosa, se oferecem à visitação. Motoristas convivem com ciclistas e pedestres, como só em sonhos nos seria possível imaginar. Em Bruges você se sente como em um outro mundo, fora da realidade. 
Paris, bem, Paris dispensa comentários, tanto já se falou dela, tanto já se escreveu sobre ela, tão cantada ela já foi. Paris que brasileiros de todas as idades e classes sociais, e que nunca foram lá, conhecem por Santos Dumont e Chico Buarque. Eu não queria ir a Paris, preconceito de pobre orgulhoso e despeitado, mas fui ao Arco do Triunfo, à Torre, a Versailles, ao Sena das Olimpíadas de dez anos depois, às margens do Sena, às pontes que contam mais histórias que em Praga, aos museus (também não gostava de museus), às igrejas, aos restaurantes... Quero retornar a Paris. 
Eu vi um pouquinho da Europa, um minimum minimorum, mas o suficiente para me apaixonar. A Europa é assim, o velho novo continente que continua encantando. Sobre ela Castro Alves já cantava há dois séculos:  "A Europa é sempre Europa, a gloriosa, a mulher deslumbrante e caprichosa, rainha e cortesã..."
Essa viagem foi especial, e será especial quando repetida.