Esse texto foi encomendado. Minha irmã me pediu que escrevesse alguma coisa sobre uma viagem especialmente marcante que eu tivesse feito. Tarefa difícil, que talvez não o fosse tanto se espontânea, mas, por encomenda, tornou-se ingrata. Me lembro de Fernando Sabino, escrevendo sobre a sua dificuldade, dele e de outros pares ilustres, com assuntos para a crônica de todo dia. O próprio relato já era uma crônica, já era uma delícia de leitura, mas... Fernando Sabino!
Eu viajei muito pouco, e dizia aos meus amigos, e a mim mesmo ao ponto de me convencer, que eu não gostava de viajar, preferia economizar para adquirir casa própria, automóvel, pagar escola para os filhos, ajudar no sustento de meus pais e irmãos etc. Hoje, olhando em retrospectiva, nem acho que fiz errado, na verdade não existe um "Manual de Procedimentos" para o dia a dia da vida, precisamos apenas ter firme convicção de que fazemos o nosso melhor, e então não haverá razão para culpas posteriores; ainda que tenhamos errado, teremos feito o que achávamos certo no momento. Mas fechemos esse parênteses que abri sem pedir, e retornemos à história encomendada.
Não me lembro de uma viagem assim tão especialmente marcante, mas todas as viagens foram marcantes, especialmente para alguém não habituado ao frequente viajar. Rodando o backup da memória, identifico o arquivo da viagem que fizemos à Europa há dez anos. Foi tudo tão surpreendente e belo para este neoviajante, que ele teria que ser um artista para retratar e traduzir em palavras, os sentimentos que os ambientes, as paisagens, os costumes, as cores e cheiros nele despertaram. Entramos no velho continente por Amsterdã, na Holanda, e de lá fomos a Bruges na Bélgica, Munique e Frankfurt na Alemanha, Praga na República Tcheca, Veneza e Florença na Itália, Paris na França, e, pièce de résistance, fizemos em veículo alugado, a charmosa e inesquecível Rota Romântica, um tour por dez cidades alemãs, históricas e pitorescas. O circuito é facilmente encontrado no Google, então vou me poupar de transcrever aqui os nomes das cidades que nos encantaram com o seu povo hospitaleiro, que se desdobra para atender bem, inclusive, e talvez principalmente, a quem não lhes entende o idioma; o interior com casas com flores sempre bem cuidadas nas janelas - todas as casas e todas as janelas; cidades com arquitetura medieval, enormes praças calçadas com pedras lisas pelo uso, castelos imponentes - alguns lindíssimos, grandes muralhas, grandes sinos e vigias que nos levam a viajar pela história. Os espaços são tão amplos e as cidades tão apraziveis, que nem percebemos quem é turista e quem é morador, e embora muita gente circulando, os cheiros são de limpeza. Os campos são tão bem cuidados, os rolos de feno parecem tão leves e as maçãs nas macieiras, tão doces, que dá vontade de fixar residência e trabalhar na região. Ainda hoje, porém, me pergunto aonde estavam os trabalhadores rurais. As casas lindas, com flores nas janelas e lenha empilhada cuidadosamente, os campos limpos, os grandes rolos de forragem espalhados aleatoriamente pelos campos, as frutíferas bem podadas, os cercados impecáveis, contrastavam com a incômoda ausência de... gente. Seria um cenário montado para turista ver? Um imenso cenário, preparado para receber visitantes do mundo inteiro? Eu não sei. Enquanto escrevo tive esse insight, mas isso não faz mudar nada nas minhas impressões, mostra apenas que eles são mais inteligentes que nós, nós que preferimos expor as nossas misérias, emoldurando com elas os quadros que a natureza pintou e nos presenteou. Aquela região continua a ser a mais bonita que já vi, e o nome dado ao circuito não poderia ser mais apropriado, respira-se romance naquelas paragens, além de história, e não dá vontade de voltar à realidade.
Fora de lá, porém, não se fica menos impactado:
Praga, com centenas de igrejas góticas tão imponentes quanto vazias, noites cheias e movimentadas, e pontes que contam histórias, é inesquecível.
Veneza, é mais bonita nas fotos, assim como o Rio de Janeiro é mais bonito do avião, mas, tanto uma como outra, são cidades às quais não se pode deixar de conhecer.
Em Amsterdã, naquela viagem, ficamos apenas dois dias, e eu perdi um vomitando num dos principais canais, ao lado do icônico painel "I LOVE AMSTERDÃ", para meu desespero, e para escândalo dos turistas que passavam (deviam ser brasileiros curiosos).
Bruges, ah, Bruges! Já fomos outra vez e talvez ainda voltemos. Uma cidadezinha que parece, toda ela, um cenário de filme do século X, sei lá, do início dos séculos. Originalmente cercada de muros por todos os lados, cresceu para além muros com o tempo, sendo do lado de lá uma cidade como outra qualquer, porém, nos limites originais, parece saída de um conto de fadas, como li num site de viagens. Andamos por toda a cidade de bike, tanto de dia quanto à noite, por ruas estreitas e limpas, com iluminação suave, indireta e suficiente. Prédios antigos e multicoloridos, eles, por si, já obras de arte a serem admiradas, como se fossem casas de brinquedo. Esplêndidas igrejas e prédios públicos construídos há séculos, com manutenção primorosa, se oferecem à visitação. Motoristas convivem com ciclistas e pedestres, como só em sonhos nos seria possível imaginar. Em Bruges você se sente como em um outro mundo, fora da realidade.
Paris, bem, Paris dispensa comentários, tanto já se falou dela, tanto já se escreveu sobre ela, tão cantada ela já foi. Paris que brasileiros de todas as idades e classes sociais, e que nunca foram lá, conhecem por Santos Dumont e Chico Buarque. Eu não queria ir a Paris, preconceito de pobre orgulhoso e despeitado, mas fui ao Arco do Triunfo, à Torre, a Versailles, ao Sena das Olimpíadas de dez anos depois, às margens do Sena, às pontes que contam mais histórias que em Praga, aos museus (também não gostava de museus), às igrejas, aos restaurantes... Quero retornar a Paris.
Eu vi um pouquinho da Europa, um minimum minimorum, mas o suficiente para me apaixonar. A Europa é assim, o velho novo continente que continua encantando. Sobre ela Castro Alves já cantava há dois séculos: "A Europa é sempre Europa, a gloriosa, a mulher deslumbrante e caprichosa, rainha e cortesã..."
Essa viagem foi especial, e será especial quando repetida.
Que delícia de viagem!!
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