sábado, 21 de junho de 2025

VISITAS ESTRAGA-PRAZERES

Moramos em Theodoro, um bairro de Nova Friburgo a 1084 metros de altitude em relação ao nível do mar. Frio, quase sempre frio.
Nossa casa é ampla, bem integrada à natureza, porém tem um ponto fraco: o acesso à área de serviço pela varanda aberta, consequentemente muito desconfortável para o clima. Nem precisava ser assim tão integrada à natureza!
Corrigimos isso agora, oito anos atrasados: realocamos churrasqueira e sauna, fechamos uma parte do espaço liberado, e, voilá, conseguimos uma área de serviço interna.
Como mexer em telhado é sempre problema, resolvemos não destruir a chaminé da churrasqueira transferida, para evitar riscos com infiltração.
Ficou legal.
E já inauguramos, estocando  bananas (nanica, prata e ouro), abacates e laranjas que colhemos no sitio; o novo espaço, protegido e quentinho, é perfeito para as frutas amadurecerem. É se é bom para as frutas, é ótimo  para os pássaros. Percebi que, descendo pela chaminé inativa, eles começaram a comer as bananas mal começavam a amarelar. Agiam, espertamente, aos primeiros sinais da manhã, antes que houvesse movimento na casa. Eu conseguia imaginar, vívidamente, o sabiá, sábio e grande, roubando a banana amarela da pequena saíra amarelinha, enquanto as saíras sete cores faziam algazarra sobre as bananas e abacates verdes, e eram expulsas pelos sanhaços azuis, os xerifes da área.
Decidi me levantar um dia, bem cedinho, pé-ante-pé, para admirar essa coreografia multicolorida, como já admiramos as nuvens de névoa, que num repente embranquecem tudo ao nosso redor; o ballet, que parece ensaiado, das árvores ao sabor dos ventos; as mil cores do céu ao entardecer, ou ainda a lua e suas estrelas que invadem a nossa sala quando falta energia. Se eu não morasse aqui, eu iria querer morar aqui. 
Enfim, de volta aos pássaros e frutas, comentava sobre isso hoje com uma amiga que nos visitava, e ela falou com segurança: - Não é passarinho não, Fernando, é morcego, e esse bicho é perigoso! Você tem que fechar todas as entradas.
Eu poderia explicar a ela que morcegos frugíferos não são tão perigosos, mas, de que adiantaria?!!! O encanto fora quebrado. Vamos fechar a chaminé, e nos contentar com os pássaros nas árvores.

quinta-feira, 19 de junho de 2025

UM MURO INTRANSPONÍVEL

O muro mostra sua força. 
Sua expectativa de segurança atrai, representa uma alternativa a uma eventual queda. 
De certa forma, respalda uma nova queda. 
A proposta de cura, porém, não se sustenta. 
E o círculo vicioso se mantém. E se agrava. 

segunda-feira, 16 de junho de 2025

VIDA EM DESTAQUE


— Boa tarde, querido. Desculpe-me o sumiço e a falta de contato. Desde dezembro de 2024, quando aconteceu a interdição do pai dos meus filhos, minha vida virou de pernas para o ar — literalmente.
Nesse período, foram quatro internações, cinco liminares, uma cirurgia, dois falecimentos e um funeral. Parece até nome de filme.
Filhos estressados, surtando e se virando para dar o melhor conforto ao pai, que ao contrário, nunca esteve presente ou quis saber como estavam. Eu, no meio de tudo isso, achando um absurdo ter que me envolver — mas sem ter como não fazer isso, a não ser que insensível à dor que tudo isso causou a eles e, consequentemente, a mim também.
Não foi fácil. E nem está sendo agora, vivendo o luto de tudo isso.
Como eles, também fechei um ciclo que me levou a revisitar escolhas e a reavaliá-las a partir das consequências que só agora consigo ver e refletir profundamente, dentro de todo o contexto que essas situações me trouxeram.
O estranho é que, mesmo tendo acabado, parece que não. A sensação é de que tudo o que aconteceu — e todo o passado que virou presente — nunca mais vai nos deixar no ponto em que estávamos antes, sabe? Não sei explicar, mas todos tivemos que olhar para o passado, para o que aconteceu e como nos comportamos, na medida em que, neste presente, tivemos que agir como se o passado não tivesse existido.
Mas a dor deste presente me fez ver que, não importa o que aconteceu no passado, neste momento ele precisava de todos — até de mim.
Toda a dificuldade nos uniu de uma forma que eu nunca imaginei que um dia aconteceria. E, mesmo tendo acabado, gerou um outro nível de consciência para todos, de tal modo que nunca mais seremos os mesmos.
Estar com eles e vê-los vivenciando um luto que eu já passei foi intenso e também doído. Cada um agora está no seu canto, com a dor do seu jeito, acomodando o que resta quando perdemos uma de nossas raízes.
Desculpe o texto-desabafo, mas eu já vinha incomodada por ficar tanto tempo sem dar notícias. Espero que entenda e me perdoe por isso.
Ainda viajo este mês para o aniversário dos gêmeos, outra data difícil. Neste ano — até pela proximidade da partida — a alegria não será a mesma.
Julho estarei de volta, e me coloco à disposição para conversarmos sobre como estão as coisas e de que maneira posso ser útil, ok? Gratidão por tudo. Saudade d’ocê! Beijo.
— Olá, amiga, bom dia. Recebi sua msg. Pedi auxilio ao Gonzaguinha para conversar contigo hoje. Diz o poeta que a vida é isso: a beleza de ser um eterno aprendiz. Enquanto uns acham que a gente é um nada no mundo, outros, como você (e eu), acham o contrário, que vale sempre rever, revisitar, e reagir, e assim, mudar o mundo. 
É, sim, a vida, uma gota, um tempo que nem dá um segundo, então, temos que agir, ou reagir, rapidamente, antes que a areia se escoe. 
O sopro do criador, repleto de amor, nos deu ferramentas pra fazer a vida como pudermos ou quisermos, mas sempre desejada ainda que a façamos errada, porque sempre poderemos rever, revisitar e corrigir. 
A vida é isso, luta e prazer, às vezes é viver, noutras sofrer e até morrer, vez em quando, morrer de prazer. Mas ela é bonita como a sua, e a sua história, e a sua família. Bjo. Continuamos por aí e por aqui, juntos. 
— Bom dia meu amigo! Que presente sua mensagem-poesia nesta manhã de domingo cinzento com sol sem graça. Gratidão por me lembrar de tudo isso. Como cantou um dia Chico Buarque, outro poeta musical, vai passar... Abençoados sejam os amigos como vc que "poetizam" a dor e nos trazem um suspiro de alegria. Estes quero sempre por perto, aliás, são para se guardar do lado esquerdo do peito, dentro do coração. Um domingo de harmonia e paz em família! 

E assim segue a vida. Problemas aqui e ali, doenças, desencontros, chegadas e partidas, mas também, resiliência, força, fé, recomeço e alegria. Minha amiga, na mesma mensagem em que fala dos momentos difíceis e tristes que viveu e que ainda vive, já faz planos e se compromete para o futuro.
É só mais um domingo frio, não tão frio como o que passou é verdade, mas o coração está aquecido pela existência dos amigos, pelo carinho da mulher amada, pela natureza exuberante que nos cerca, mimos divinos que nos levam até a, por um tempo, esquecer as guerras provocadas pela estupidez de uma meia dúzia, elas, e eles, que vão passar,  perdurando o sentimento de amizade e amor que cercam os bem-aventurados que sabem que a vida é bonita e deve ser valorizada exatamente como ela é. 

domingo, 1 de junho de 2025

LOUCURA DE UM DOMINGO FRIO


Eu estou pensando em adotar um bebê. Acordei hoje com essa ideia maluca na cabeça.
“- Mas não é maluca!", você talvez discorde, argumentando que, afinal, a cada dia mais crianças nascem de mães crianças e morrem abandonadas e desnutridas, ou sobrevivem maleducadas, subnutridas e frágeis; que a população mundial envelhece, e as gerações futuras não se mostram capazes de gerir os recursos do planeta. Me recordará que a China já estimula que famílias tenham três filhos - a pouco tempo só era permitido um, e que o Brasil paga às famílias por filho vacinado e escolarizado. 
E você concluirá, entusiasmado ao me imaginar esse ser humano puro, engajado e despojado, que adotar uma criança, para educá-la adequadamente,  buscando equilibrar um pouco o nível do pensamento mundial, é uma ideia exemplar e generosa.
Sua viagem por um sonho que não era o meu, me provocou a viajar pela nossa realidade: vi a juventude despreparada para os desafios que herdarão, crianças que recebem uma educação superficial, definida por gente que não é do meio e que obedece apenas a critérios políticos; adultos sobreviventes, que, pais, não têm tempo para seus filhos; professores, não têm energia para suportar os diversos colégios aos quais são obrigados a servir; governantes, não patrocinam de verdade o trabalho e a educação, num círculo vicioso que não estimula sonhos alegres, pelo contrário, esses governantes são capazes de enfraquecer um povo inteiro para que não possam reagir; são capazes de fazer guerra e matarem milhões, só pra se manterem no poder enquanto ela durar; são capazes de expulsar milhares de pessoas para depurar a raça; nunca pensam de verdade nos mais frágeis que não seja para o voto.
O Brasil paga às famílias, como você diz, por filhos vacinados, mesmo que a vacina perca de lavada para as valas negras não lavadas; e por filhos matriculados, mesmo que a escola não ensine como poderia, mesmo que professores não ganhem como deveriam, mesmo que os alunos não aprendam como aprendiam, e sejam promovidos sem aprender.
Você argumentará ainda, que adotar é uma forma de repovoar o planeta antes que seja tarde demais, salvando vidas e criando  jovens saudáveis e educados, buscando compensar as perdas para as drogas, as guerras, a fome, a estupidez... para o tempo que, inexoravelmente, passa. 
Enquanto você, otimista,  chegava ao fim da sua viagem, eu, que fiz a minha por outras sendas, só confirmei o que sentia: decepção com o nosso mundo, com as pessoas, com o Brasil país do futuro. 
Eu disse que a ideia é maluca, e você discordou sem ouvir tudo. Ela não iria, iria no passado porque acabo de desistir, ela não iria resolver os problemas, e ainda iria contribuir para um futuro próximo distópico, escuro, obscuro e solitário, no qual as pessoas fogem da realidade por ser ela muito difícil de engolir. Um mundo dominado por máquinas, controladas por homens-máquina, de pessoas que não se falam e não se sentem. 
Eu opto por continuar a ser humano. 
Eu pensava adotar um bebê reborn.