Quinze de novembro. Um amigo me perguntou "Feriado de quê? É nacional?“ Fugiu da escola ou está decepcionado com a Pátria, seja Colônia, Império ou República.
Fui a Niterói, buscar meu filho, meu neto, e a Paloma, a mãe dele. Antes, fui ao Rio, aproveitando pra trazer a Sylvia, supondo ser um percurso estratégico.
O Bento e a mãe moram em Saquarema, vão para Niterói, onde o Vinícius mora, e, de lá, virão para Nova Friburgo comigo
Tudo planejado: sairei de Friburgo às sete, chegarei ao Rio Comprido às oito e meia, passarei em Icaraí às nove, e vou fazer o almoço em Friburgo umas onze. Mas, o homem planeja... e o trânsito decide. Cheguei ao Rio Comprido com curto atraso, porém dali até a Rodoviária, no início da Ponte, um quilômetro se tanto, foi uma hora a passo de cágado, nem as motos conseguiam passar! Dez e meia chegamos em Icaraí, a essa altura já com fome. Um lanche rápido na padaria, minutos até a saída de Niterói, e... quatro horas até Friburgo! Tinha esquecido o principal motivo que me levara a fugir do Rio! E, embora ciente do feriado da República, me esquecera também do feriado da quarta-20 (consciência negra), e mais o "Encontro de cúpula do G20" na segunda e terça. Estivesse atento, jamais teria ido.
Minha filha resolveu comemorar o aniversário da Elisa aqui em Friburgo. Ela também mora em Niterói, também não deve ter pensado no feriadão. E assim, sem combinar, toda a família se vê "em trânsito", como se todos levados por uma incompreensível vontade de sofrer nas previsivelmente tumultuadas estradas de um feriadão.
O trânsito é uma escola na qual você pode aprender a difícil arte da negociação, reconhecer os seus limites de paciência e resiliência, e a sua capacidade de avaliação de consequências. Automóveis são armas nas mãos de pessoas que se transformam quando ao volante (ou se revelam?), e dando vazão ao estresse de todos os dias, dirigem sem olhar para os lados exatamente para não ajudar o outro, se recusam a ceder a vez numa fusão de pistas ou numa rotatória, se mostram dispostas até a bater o carro numa disputa por centímetros de um asfalto engarrafado por quilômetros.
Quando eu ia para o Rio, vi uma moto caída no asfalto, em frente à Favela da Maré, sobre as pernas de dois motoqueiros, e praticamente sob um automóvel. O acidente ocorrera naquele minuto, mas eu nem vira, ocupado no engarrafamento; a moto deve ter escorregado. Duas curiosidades me chamaram a atenção: primeiro o motorista, que saiu do veículo e disse: "- Bora gente, levanta, levanta!"; deve ser tão comum essa situação, que parecia estarem os dois infelizes descansando; e depois, o olhar do piloto: com as pernas sob a moto, ele olhava de baixo pra cima para o motorista que falava, e, perplexo, parecia não entender nada, não saber o que estava fazendo ali, no asfalto molhado, cercado de carros por todos os lados, inclusive por cima. Ah, o trânsito! Bora, bora!
Voltando para casa, já com Sylvia, Paloma, Vinícius e Bento, na altura de São Gonçalo batem na traseira do nosso carro. O tráfego estava praticamente parado, então saio para ver a extensão do prejuízo. Nada grave, aparentemente, e a senhora, que atraída pelos cães no seu carro se distraíra do trânsito (que por isso mesmo é proibido!), pedia desesperadamente desculpas pelo ocorrido. - Está tudo bem, senhora, vamos em frente, bom feriado! Bora, bora! Volto e, um veículo sai pelo acostamento, o motorista ansioso por ganhar uma posição em relação a mim, e... eu não deixo. "Absurdo! Aproveitando-se de um acidente. Não vai passar não!" Eu, aqui, cheio de consciência, de fairplay, mas, lá, teria arrumado uma briga gratuita, se o outro cara estivesse irritado também. Quando um não quer, dois não brigam. No caso, o outro não queria.
Enfim, chegamos a casa, e tudo é superado pela alegria dos encontros, sobretudo se envolvem uma criança linda e sorridente, com apenas oito meses de vida.
Vivendo o clima da serra, não pegando engarrafamentos, só indo à cidade fora de feriados e de horários de rush, estou próximo do paraíso. Para passar um fim de semana com filhos e netos, até compensa padecer um pouco no trânsito carioca, desde que com a certeza de que a normalidade voltará em seguida. De fato não precisamos de mais nada para sermos felizes, e uma incursão ao inferno serve para nos lembrar disso. Bora, bora!