domingo, 29 de março de 2026

CONTRADIÇÕES

Amigos, colegas de trabalho, conhecidos, e até parentes, me veem como um sujeito bem sucedido, com uma família bonita, um trabalho gratificante, um carro bacana, saúde boa, envolvido com ações de solidariedade... um cara de sorte e feliz! E tudo isso é verdade, de um certo ponto de vista... só não é sorte.
Os terapeutas de plantão  (sempre tem um, e no Instagram, muitos), eles, se eu digo que às vezes fico inseguro, que olho pra trás, preocupado com algo que nem sei o que é, que me angustio com a possibilidade de situações do passado se repetirem, se demonstro medo, me aconselham a não olhar pra trás, apenas à frente, com foco nos pontos positivos, e permitir que a felicidade entre. 
Meus amigos, meus colegas, meus parentes... e os terapeutas, não sabem de nada!
Já andei de bicicleta por toda a cidade, fazendo cobrança, até arrebentar os suados chinelos nos pedais, e os ovos, no quadro. Você fica em pé sobre os pedais, para conseguir subir a ladeira, e vê o pé escorregar, e depois disso, só vê estrelas. Quem viveu essa experiência dolorosa sabe do que estou falando. E, sobre uma bicicleta velha e dura, trabalhando de sol a sol por míseros trocados, como pode um cidadão pensar num futuro brilhante, família e carro bonitos, sentir-se feliz ou sortudo, sentado à beira do caminho com a corrente... e o resto, arrebentados? É de chorar na rampa, ou no meio-fio! Eu chorei.
Já trabalhei como servente de pedreiro, balconista, frentista, cobrador, vendedor de bananas cesto aos ombros pelas ruas da cidade, fui bancário em cidade de praia, em cidade de serra, na cidade louca e maravilhosa, na capital da corrupção,  já estive desempregado, e daí, um pouco por vocação, e mais pelas circunstâncias de momento, acabei empresário, mesmo sem conhecimento do ramo. 
Os amigos e parentes disseram:  Viu como ele cresceu, como foi corajoso? Deixou a Caixa e virou empresário! Consultores ensinariam: você deveria ter decidido pela mudança somente depois de avaliados riscos e oportunidades, e só então desistido do passado, explodido as pontes pelas quais passara, e ido em frente. 
Meus amigos, meus parentes, os terapeutas... e os consultores, não sabem de nada!
Muitos colegas meus fizeram isso, a maioria se arrependeu ou mesmo desistiu. Quanto a mim, eu não tinha tempo para planejar com objetividade e decidir com segurança, eu havia perdido para o Estado, na primeira empreitada assumida na nova vida, todo o dinheiro que conseguira amealhar em dezenas de anos de trabalho; então enfrentei a oportunidade que a vida me oferecia. Eu já havia mesmo explodido as pontes, e ninguém me disse ser impossível, então eu fui em frente!
Antes de tudo isso, criança na periferia do Rio de Janeiro, meu pai decidiu morar no interior, na roça. Lá, o padre dizia, "Evidente que Deus proverá, acreditem!". Evidente era uma palavra nova pra mim, e eu adorava ouvi-la. O padre já morreu. 
Eu trabalhava como ajudante do pedreiro e do padre de plantão,  sonhava com a Soninha, a Adalgisa, a FAB, o helicóptero que me levaria para além das montanhas que cercavam o meu mundo, e minha mãe e meus amigos diziam "Pare de sonhar! Sonho não enche o bucho!". Não foi voando, mas na carroceria de um caminhão velho, qual retirantes, nós fugimos em busca dos sonhos, os meus sonhos, que certamente estariam para além do horizonte adivinhado.
Amigos, parentes, terapeutas, consultores... o padre, eles não sabem de nada. Meus pais também não sabiam; eles, porém, acreditavam num Deus provedor, em si mesmos e nos filhos!
De volta ao hoje, dois casamentos depois, filhos e netos, todos seguindo seus próprios caminhos que não são os meus, eu olho pra trás e... como passou tanto tempo em tão pouco tempo?!!! E quão pouco tempo falta!!!.
Nesses momentos de reflexão, me vejo, vez em quando, surpreendido por uma sensação de falta, de ausência, de carência, de angústia, de medo mesmo; talvez saudade do que a minha vida teria sido numa outra realidade, talvez saudade de uma outra vida que eu mesmo esteja vivendo numa linha do tempo distinta. Uma saudade do não vivido, acho. Melancolia? Nesses momentos eu não sou feliz, não me sinto com sorte, não estou completo, e então, resta apelar para os amigos e parentes, os terapeutas e os consultores, o padre ou o pastor, buscar uma conexão com Deus. Talvez, afinal, eles saibam alguma coisa que eu só pensava saber. Olho pra trás, e tento compreender as contradições da minha vida vivida, mas ando pra frente, sem parar, pelo caminho que me resta viver, como aconselha o filósofo. Não tem garantias, é verdade, mas quem disse que haveria? Tá bom assim, sem GPS, sem previsibilidade, vivendo o presente, que é, sempre, um presente.

terça-feira, 10 de março de 2026

INVISÍVEIS - UM TOQUE

Passava pelo calçadão da cidade. Passava, não caminhava. Tinha um destino. E o celular à mão. Pedintes atrapalhavam o fluxo. Também amigos que "se trombaram", e que efusivamente se abraçavam, enquanto eu me desviava. Alguém pede licença, talvez por uma orientação. Não sei se era isso, ninguém respondeu. Um sobressalto, sinto um toque no ombro. Minha mulher. Ué, está indo pra onde? - Não estou indo, estou voltando! - Como assim? - Eu vim de lá, te encontrei, mas você só me veria se eu tropeçasse em você. Não enxerga a mulher amada! 
Não tenho defesa. Ela veio em sentido contrário, no mesmo passeio, e eu não a vi! Acontece o mesmo quando estou de carro; ela acena e eu não vejo. Digo que isso acontece com todo mundo, e ouço a resposta óbvia: "Não sou todo mundo". 
De fato, é assim, ensimesmados com nossos próprios problemas, caminhamos, comemos, trabalhamos, vivemos... isolados. Sozinhos, na solidão de todo mundo junto, não vemos, de verdade, ninguém; muitas vezes não vemos de jeito nenhum, tropeçamos nas pessoas, como se numa pedra, numa árvore ou num poste. 
Nas cidades do interior, num hábito que hoje provavelmente não existe mais, os jovens circulavam pela praça principal, conversando entre si; rapazes num sentido, moças noutro. E se olhavam, sorriam, "paqueravam". Era o namoro de olhos, o footing, diriam os ingleses. E enquanto os jovens circulavam pelo passeio, os menos jovens sentavam-se nos bancos, a conversar, brincar, e, por que não, namorar. 
Pois é, acredite, houve uma época em que as pessoas se viam, se reconheciam no olhar do outro. Hoje, as praças estão vazias, ou vazias estão as pessoas que as frequentam; embora cheias de si e de informações, vazias de empatia.
A televisão, a internet, o videogame, a violência, a desconfiança gerada pelo abismo entre as classes sociais, as divergências políticas, a intolerância religiosa, tudo, junto e misturado, forma o amálgama que dá a desculpa  perfeita para o culto ao isolamento. 
Hoje, ninguém visita mais ninguém; é impensável, e constitui  grave falta de educação, bater à porta de um amigo sem aviso prévio. Mas, como marcar com antecedência, um encontro ou uma visita a uma família amiga, quando é justamente a espontaneidade que a torna tão deliciosa?!! 
Ora, o amigo pode não estar preparado, pode não estar animado. 
Então, essa visita pode ser o ponto de inflexão, exatamente o que ele precisava para desabafar, talvez esquecer, talvez repensar. E se não for, se de fato não for um bom momento, é simples, basta dizer, e a amizade continuará, talvez, agora, reforçada por aquela alteração na teia da vida. A oportunidade e a vontade de vermos e revermos os amigos, é que nunca deveriam ser postergadas.
Em nome da privacidade, tão ao gosto do momento, buscamos ficar invisíveis, mas sempre de acordo com nossa conveniência; basta precisarmos de um amigo ou de um familiar, e batemo-lhe à porta. Desesperados, mesmo se nos dizemos descrentes, batemos à porta de Deus. Culpados, então enxergamos o pedinte, e lhe deitamos uma moeda ao prato. Passada a tempestade, nos cobrimos com o guarda-sol da privacidade, e deixamos de fora o resto da humanidade... invisível. 
Invisíveis, não vemos os pobres e miseráveis tão sofridos e expostos; não vemos os trabalhadores que se ocupam de tarefas menos "nobres"; não vemos nossos filhos entretidos nas telas, menos ainda os conteúdos nelas espelhados; não vemos o companheiro que está ao nosso lado, e o quanto ferem as nossas palavras ou o nosso silêncio, as nossas ações e as nossas omissões; não vemos o amigo que precisa de ajuda; as minorias destratadas; não vemos o povo que está abandonado, e as injustiças que são perpetradas, estas desde que não nos atinjam. 
Queremos uma "família margarina" como as das redes sociais, e isolamos a nossa para isso, e como não conseguimos tanta felicidade, nos deprimimos. Privacidade ou egoísmo? Invisibilidade ou cegueira?
Já é passada a hora de baixar a tela e levantar os olhos;  de olhar  para as pessoas, e assim fazê-las, e a nós mesmos, visíveis. Um "toque no ombro" pode nos lembrar que estamos passando por cima das pessoas, que o virtual deveria ficar no passado pandêmico, e que nada substitui o presencial das emoções, dos abraços, da vida plena e pujante.

sábado, 7 de março de 2026

CARNAVAL, CONVERSA E CAFÉ.

Domingo de carnaval, hóspedes em casa, mesa do café farta e bem apresentada. 
Como sempre acontece entre amigos, e num café, muita conversa sobre muitos e quaisquer assuntos. 
Num mundo sem fronteiras, onde as informações voam por entre e sobre todos, temas não faltam, desde política e politicagem externa, às politiquices internas; desde o programa nuclear iraniano, às bombas produzidas em Brasília; desde as vaidades de Trump, às da primeira-dama brasileira nas avenidas; desde os nossos cães, aos gatos de minhas irmãs; desde os ministros do Supremo aos juízes, promotores e políticos, já que falando de cães e gatos.
Meu amigo é professor, então tema recorrente é escola. Ele sofre como todos os professores, quer mudar de vida como muitos (alguns estão apáticos); digo que o governo vai melhorar o salário da categoria, e ele é cético: -Disseram de onde virão os recursos?!
Ele pensa em constituir uma empresa pra não depender mais de empregador, quer saber se é melhor que o serviço público. 
Pergunta fácil, resposta difícil. 
Eu já estive nos dois lados. Quando era barnabé, trabalhava mais que todos, não me importavam os outros que não se dedicavam, fazia o meu e um pouco mais, e por isso fui promovido várias vezes, mas nunca estava satisfeito. É que eu não via o resultado do meu trabalho, e o resultado que via era mal utilizado, ou mal avaliado, entende? 
Para a maioria, ser funcionário público, tem a ver com estabilidade, nunca com competência; com direitos, quase nunca com deveres; com quem apadrinhou, nunca com resultados; com cumprir ordens, nunca com fazer o que é certo. Cansei. Fui embora. 
E como foi a iniciativa privada? Bem, primeiro, iniciativa significa não ficar esperando ordens, você mesmo planeja, organiza e executa; e segundo, privada é o lugar pra onde dá vontade de fugir, quando o fiscal bate à sua porta, ou quando você olha para os saldos da conta bancária e do contas a pagar. Vê a diferença básica?  O dinheiro que você gasta é o seu, você mesmo tem que produzi-lo, e, embora seu, terá que prestar contas ao fisco.
Numa empresa própria, você terá que dispor do capital inicial para o desenvolvimento do negócio, até que este produza recursos suficientes a se autossustentar, e cada despesa que fizer - papel, café, água, energia, comunicações, limpeza etc, sairá desse capital integralizado, ou seja, do seu próprio bolso. 
O capital é imprescindível, não lançar mão dele para despesas pessoais, é inegociável.
- Nenhuma vantagem então?   
- Naturalmente que sim, meu amigo, porém sob certas condições: 
O objetivo da empresa deve ser adequado ao momento e circunstâncias;  
Você deverá saber, ou contratar quem saiba, administrar a operação;
Os colaboradores devem ser qualificados e com salários que você possa pagar. 
E, obviamente, você deverá contar com a sorte, que nenhuma ocorrência externa (uma pandemia, uma guerra...) interrompa a operação. 
Um problema: As empresas estão subordinadas a leis e regulamentos que provêm do mesmo governo que regula o serviço público, ou seja, quem administra mal as empresas e instituições a seu cargo, é também quem estabelece regulamentos para a administração privada, fazendo-os tão confusos e intrincados, quanto suficiente para provar que somos tão incompetentes quanto ele.
Ainda assim, seu negócio, sob condições normais de temperatura e pressão, tende a prosperar, te trazer muitas vantagens, e dependendo tão somente de você mesmo, sem que precise prestar contas a uma infinidade de superiores hierárquicos. É só trabalhar, honrar os compromissos com empregados, fornecedores e o fisco, e aproveitar o resultado. 
A vantagem é não depender da viúva para as decisões, a desvantagem, é não ter a viúva para assumir as consequências de eventuais decisões equivocadas, como o governo (a viúva) fez com a Caixa, com os Correios, BRB e tantos outros.
A conversa atravessa a manhã: todos à mesa buscam alternativas de sobrevivência digna no país em que vivem, enquanto o presidente antecipa a campanha eleitoral no carnaval das avenidas do país do qual vive,  e gastando  dinheiro público.
Tenho um amigo advogado, lembrei, bom advogado, que ganha dez mil reais mensais para patrocinar cerca de trinta processos! Enquanto isso, a imprensa noticia que parentes das maiores autoridades do país, são contratados por muitos milhões, e por empresas suspeitas de irregularidades ou que têm interesses no governo, o que, por si só, já configura grave irregularidade.
Veja, amigo, como pode ser difícil a iniciativa privada, e como pode ser lucrativo o serviço público, tudo a depender dos valores e princípios, do caráter do indivíduo, ou da falta de.
Estou me estendendo, eu sei, já antecipara que a resposta seria difícil. 
Para quem é mais conservador, não tem simpatia pelo risco, não tem vocação para self-made man,  o serviço público pode ser mais adequado, especialmente se, como diria um ex-presidente, para "se manter dentro das quatro linhas da Constituição". Fora, seria caso de polícia, e ouvimos muitas sirenes a tocar por aí.
Se você, porém, tem o sonho de empreender, acredita em si mesmo e está preparado para a possibilidade do insucesso, vá em frente, você tem muita chance de o sucesso lhe sorrir. Mark Mason escreve: "...ninguém se torna bem sucedido, se não avaliar o risco, a incerteza, os muito fracassos, a quantidade insana de horas dedicadas a algo que possa render absolutamente nada".
Por outro lado, parafraseando a cantora Iza, é preciso ser forte, é preciso ter foco, é preciso ser foda e não fugir à luta, e ter fé pra enfrentar esses filhos da puta. 
Eu quis ser empresário desde o então primário do colégio, quando me disseram sermos o país do futuro. Sessenta anos depois continuamos assim, acreditando, enfrentando e sobrevivendo, apesar deles, tão adequadamente lembrados na música.
O futuro do Brasil depende de que esqueçamos nossas dúvidas, busquemos nossos sonhos, e deixemos de esperar que o governo faça a nossa parte, eles não fazem nem a deles.

quarta-feira, 4 de março de 2026

MIGUEL DO CÉU!! COMO PODE?!

Guerreiro, sem dúvida. 
E também é anjo.
Vaidoso sempre,
Vai corrigir: - Arcanjo!

Do aquário ele fugiu.
É Peixe. 26 de fevereiro.
Nasceu forte pra nadar.
Já nasceu aventureiro. 

Energia é o que o define. 
Sempre em agitação febril.
Se parar nalgum momento,
Algum problema sentiu.

Carinhoso como anjo deve ser,
Está sempre sorrindo feliz.
Capeta, que também foi anjo,
Sempre faz arte e se contradiz.
 
Alegria dos pais e da irmã,
Gira, cai, senta e pula.
Enquanto ri de tudo e todos,
Faíscam os olhinhos do caçula. 

Todos o amam, e todos brigam,
Ele não veio para conciliar. 
Ele é sempre provocante, 
Ele veio pra realizar. 

Miguel Arcanjo.
Miguel protetor. 
Rogai por nós.
Oramos por você. 

E ... Parabéns!