segunda-feira, 24 de fevereiro de 2025

VIAJANDO NO ARCO-ÍRIS

Férias, para pequenos empresários, é quase uma utopia. Dez ou quinze dias em off é muito difícil, trinta é utópico mesmo. Passeamos por dez, não totalmente "desligados", mas, em ambientes diferentes, o trabalho flui mais leve, a gente acaba descansando um pouco. É o que se tem.
Só dirigir por uma estrada longa, já pacifica a mente, é como transitar por um arco-íris com várias pistas, e as cores da natureza numa miríade de tons. 
A primeira estação é Pedra Azul, no Espírito Santo. Clima de montanha, uma aventura para subir a Pedra do Lagarto, assim chamada por causa de uma formação rochosa caprichosamente esculpida pela natureza, um perfeito lagarto a escalar a pedra de mil e quinhentos metros de altura. Outra aventura, também nas alturas, num balão que sobrevoa os campos, os rios e rotas, os lagos, os lagos sobre as montanhas, as montanhas.
Em Vila Velha, a praia de Itaparica é um tom mais escuro em nosso arco-íris: vala negra e fétida, invasão de desocupados e pedintes, ausência de limpeza nas ruas.
Um pit-stop de uma noite na Praia D'Ulé, e o Renato que nos hospedou recomenda visitar "3 Praias". Tentamos. A melhor definição seria "uma praia cercada de Alphaviles por todos os lados", já que três ou quatro condomínios luxuosos e murados, impedem o acesso à praia ao comum dos mortais, que não seja a pé, por entre os muros, por um beco com cerca de um quilômetro de extensão. Desistimos. 
Os ventos nos levaram a Iriri, uma prainha graciosa e tranquila, que os locais chamam de Caribe Capixaba. Não é para tanto, mas a água é verdinha, a comida é boa, as ruas são limpas e o povo é acolhedor. Foram dois dias prazerosos por lá. Voltamos uns quilômetros para conhecer Castelhanos. Ficaríamos um dia se aceitassem pet. De volta à estrada, então, mas tivemos que voltar a Iriri, esquecêramos um parmesão, tipo francês, que trouxemos de Venda Nova do Imigrante, não poderíamos deixá-lo.
E, de novo, a Rodovia do Sol. Ela merece um parágrafo. Ela foi minha inspiração e referência para essa viagem que não tinha destino definido, apenas estaríamos sempre às margens da rodovia 060-ES, que eu imaginava do sol e para o sol, ampla, iluminada, sinalizada, humanizada, com vista das praias e para as praias, mas, qual o quê?!, não é nada disso!
Mas a estrada nos levou a Piúma, que não foi acolhedora e que não é pet friendly. Conseguimos um hotel depois de umas dez visitas. Cansados, fizemos o check in precipitadamente, e  subimos as escadas com malas e cachorro, para voltar minutos depois, arrependidos, ficaríamos deprimidos naquele lugar. Foi desgastante, e não foi gratuita, a desistência. Sacudimos a poeira dos pés e saímos da cidade, vamos para Marataízes. Só quando chegamos à entrada da cidade lembramos do nosso parmesan, mas não voltaríamos novamente, ele não fora mesmo produzido para nós.
Ainda em trânsito, Valeria alugou chalé na Hospedaria Rosa dos Ventos, instalada praticamente dentro da Praia da Boa Vista, toda decorada com motivos náuticos, com piscina, flores, gatos e cachorros, muito conforto... e o mar. Vários quilômetros de praia limpa, vazia numa quinta de baixa temporada. Gualbert, o dono, nos recebeu como se velhos conhecidos fôssemos, e nos sentimos mesmo em casa.
Três dias de vida saudável, exercícios na praia, banhos de mar, de lagoa e de piscina, comida boa, conversa idem. Numa aventura digna de filme, remamos um kayak duplo, por quatro quilômetros, ida e volta, até uma pequena ilha. Era o fim do arco-íris, no meio do mar, e o pote estava cheio do prazer da superação, da alegria pela vitória, da gratidão por merecermos tanto.
Domingo retornamos para casa, aqui também o arco-íris enche o pote de sonhos e de gratidão pela vida.

quarta-feira, 19 de fevereiro de 2025

AVENTURA SUPER-FANTÁSTICA

- Vamos voar de balão?
Por que não? eu pensei.
- Vambora! Veja como funciona.
Ela viu.
- Facinho! Compra pelo site. Saída às quatro e trinta. Setecentos reais... por pessoa. 
Eu repensei. Madrugada, setecentos... 
-Acho que não tô a fim. Vamos fazer outra coisa.
Chegáramos a Pedra Azul, no Espírito Santo, no dia anterior, circulamos pela vila, jantamos muito bem, dormimos em meio ao silêncio de uma pousada cercada por plantações de legumes, acordamos com o canto dos pássaros e o brilho do sol, que nos convidavam  a andar pelo Parque Estadual da Pedra Azul, fazer as trilhas e tomar banho nas piscinas naturais (há 1500 metros de altura), de uma água geladinha que sabe Deus como, nasce lá em cima. Foram quase cinco mil metros de caminhada, incluindo uma subida íngreme, uns trezentos metros a uns quarenta e cinco graus de dar vertigem, apoiados em cordas e degraus fixados na rocha. Aventura o bastante, pra não precisar voar de balão, né não?!
- Não, já comprei o vôo, sairemos amanhã às cinco! 
Ela decidiu, e eu... 
- Bora lá!, mas... às cinco?!!! 
Às cinco o balão estava no chão, deitado. Ventiladores o mantinham semiaberto o suficiente para permitir que uns quatro técnicos entrassem e fizessem a checagem e ajustes em cordas e equipamentos. Fazia frio. Os balonistas iam chegando. Chegou uma garota aniversariante, dez ou onze, não perguntei, mas que parecia acostumada a só ouvir "sim", a fazer só o que queria, como e quando queria. Começou entrando no balão em manutenção. Ali já vi que teríamos problemas! E A Turma do Balão Mágico cantava. 
Nem precisávamos acordar tão cedo, só lá pelas seis e meia fomos convidados ao embarque!
Um cesto com cinco divisões, o piloto e os equipamentos na central, e três pessoas em cada uma das quatro outras. A aniversariante acabou indo junto com o piloto. Ela dormiu em meio aos botijões de gás, entediada com o nascer do sol, as miríades de cores, o serpentear de rios, estradas e rotas, os pequenos detalhes das imensas rochas, a graça dos animais correndo nos pastos, os muitos lagos nos cumes das montanhas... as montanhas. 
O vento descansa, o balão fica parado, e, a mil metros, a menina dorme, e os adultos mais uma vez acordam para a nossa insignificância no universo.
Choque de realidade, o piloto inicia a descida. 
Você sabia que o balão só é controlável quanto à subida e descida, ou seja, na verticalidade? Que no sentido horizontal, ele vai para onde o vento soprar? Eu não, como também os colegas de vôo. Então, pousamos num pasto, no alto de um morro, sem estrada à vista. E com o cesto já em solo veio a outra surpresa do dia: nos informam que, enquanto o balão está em pé, uma corrente mais forte de vento pode fazê-lo arrastar e derrubar o cesto, então, o piloto tem que antecipar o episódio de maneira controlada, o que implica todos os passageiros se prepararem para deitar de costas simultâneamente com o cesto, uns sobre os outros! 
Com as costas no capim molhado do sereno da manhã, minha mulher deitada sobre mim, e três outros passageiros acima de nós, me lembrei da música, adivinhem! "Super-fantástico, o balão mágico!" 
É assim mesmo, nos disseram, a equipe de terra persegue o balão enquanto ele viaja pelo ar, e a meta é chegarem junto com ele ao local do pouso, o que nem sempre acontece... como desta vez.
Ah, quase me esqueço da aniversariante: ela dormiu no céu, sonhou que voava, acordou na terra no meio de um pasto, e de cabeça para baixo. Ela achou graça do presente.
O bem-te-vi cantava, e Cecília cantaria de novo, "Bem-te-vi que estás cantando nos ramos da madrugada, por muito que tenhas visto, juro que não vistes nada."

segunda-feira, 10 de fevereiro de 2025

CONVERSA FIADA E AFIADA

"Ali o sol se põe, atrás daquelas árvores, ali ele se esconde."
Estávamos no terreirão de secar café, na fazenda do Célio e da prima Inês, em Varre-Sai. 
Uma tarde de verão, um calor de Rio de Janeiro, uma cervejinha gelada, e uma conversa afiada sobre a labuta e os desafios do cafeicultor. 
O terreirão, vazio, parece ainda maior. Ele e os equipamentos aguardam, entediados, que os grãos de café ainda presos aos galhos das quinhentas mil árvores, sejam derriçados, para então trabalharem frenéticos, homens e máquinas, sol e suor, até que o sagrado cafezinho chegue à nossa mesa, às mesas do mundo, especialmente às chinesas; a China que, para variar, copiou o nosso hábito de beber café, e já é um dos principais destinos desse nosso delicioso commodities Assim os preços sobem para consumidores e para produtores; e enquanto uns riem, outros choram... como sempre. 
Isabel, minha outra prima, fizera uma programação para nossa visita, um roteiro: de manhã com ela, à tarde com a Inês, manhã de domingo com a Fátima, e à tarde, a volta para casa. Tentamos cumprir, a baixinha é brava. Já estivéramos com ela, o marido Afonso e os garotos, por toda a manhã. Falávamos de quê? - Claro, café, a região é quase que integralmente dedicada a ele, inclusive o próprio Afonso. Daí que fomos visitar o "Café Rodolphi" e o "Café Pelegrini", produtores de cafés especiais, gente que não se limita a produzir e comercializar os grãos in natura, mas que os industrializam com técnicas adequadas a alcançar a bebida de excelência, reconhecida e premiada. 
O Afonso é espirituoso, os meninos são inteligentes e prestativos, a Isabel se desdobra, e a mesa é sempre farta.
Farta também a mesa do jantar da Inês, e das filhas Jacinta e Luciana. Gente alegre e feliz,  filhas queridas e presentes, neto que é um presente. Nossa tarde/noite com eles deixava saudade antes mesmo de terminar, mas era assim, uma visita, e um roteiro "a la Isabel" a ser cumprido. 
Finalmente, a Fatinha, a sucessora da Tia Luzia, seu carinho sem limites, a simpatia e alegria de suas três filhas, a algazarra dos seus netos, o apoio dos genros, e uma casa que parece ter sido construída, há sei lá quantos anos, para reunir amigos, produzir alegrias, receber e distribuir bênçãos. Almoço, sobremesa, licores, chocolates, artesanatos, muita conversa, muita história, muitas risadas.
Viemos embora, tínhamos que vir, viemos mais leves, até por um pedacinho de nós que ficou por lá, três pedacinhos que foram morar, sem pedir licença, nessas três casas nas quais nos sentimos como se em nossos próprios lares.
Na véspera, tínhamos visitado a Arataca, e eu que retornava sessenta anos depois, senti que o progresso, ao passar por lá, levou luz elétrica e... mais nada. Não sei se é bom ou ruim para os de lá, sei que foi assim que senti ao ver as ruas de terra, intransitáveis com chuva, e as mesmas casas simples e rústicas da minha infância.
Na casa do sítio das jaqueiras, doutro lado da cidade, não vi as jaqueiras, tampouco a casa, lá o progresso mudou toda a paisagem e geografia, e, de novo, não sei se é bom ou ruim. 
O boom nos preços do café, e a capacidade de trabalho daquele povo, levaram a uma explosão demográfica que tanto pode salvar quanto destruir a região. E o que se vê, na desorganização urbana da cidade, e na precariedade de serviços básicos, não é um bom prenúncio. Que o Deus desse povo tão religioso lance luz sobre os seus governantes, ou o dinheiro do café não só não será suficiente para transformar positivamente a cidade e a região, como não o será nem mesmo para resgatar os valores e a paz que existiram antes, e que tanta falta fazem aos que conheceram os dois momentos.

sábado, 1 de fevereiro de 2025

ARAcaTACA

Dizem que coincidências não existem. Bruxas também não existem, porém, como diriam os colombianos, "Yo no creo en las brujas, pero que las hay, las hay."  
Acabava de assistir à série de TV que traz para as telas parte da história da família Buendía, até então somente conhecida do best-seller do colombiano Gabriel Garcia Marques, sua obra prima, CEM ANOS DE SOLIDÃO, uma história ambientada na terra dele, com generosa dose de magia e fantasia: homem comido por formigas, gente comendo terra, chuva de flores amarelas em sepultamento, bebê com rabo de porco, pragas, crendices, alquimia etc. Enquanto mergulhava no fantástico mundo de Macondo, o  povoado construído por José Arcádio e Úrsula, recebi um convite de minha prima Isabel, para escrever sobre uma cidadezinha do norte fluminense chamada Varre-Sai, onde passei minha infância e adolescência, na época pouco mais que um povoado. 
Relembrei, então, o sítio onde vivi, quando criança, numa região chamada Arataca, encravada num vale escondido entre as montanhas, sem energia elétrica ou qualquer outro serviço público, habitada por meia dúzia de famílias que estranhamente eram felizes lá, junto com lobisomens, mulas sem cabeça, sacis-pererês e outros seres também estranhos, dos quais éramos todos íntimos, tão presentes eram nas conversas ao redor de lamparinas e fogões de lenha. Coincidentemente, na mesma época em que vivíamos na Arataca cheia de histórias e de fantasias, Gabriel Garcia Marques escrevia um dos livros mais lidos no mundo, inspirado nas histórias que ouviu de sua "abuella" na cidade de, vejam só, Aracataca! Consultei o Google! Ela é famosa por ser o berço desse escritor e jornalista, internacionalmente conhecido e reverenciado.
Arataca, a nossa casa, em bom português quer dizer armadilha, arapuca, e fazia sentido para aquele lugar, ao qual somente se chega depois de subir uma montanha e descê-la pelo outro lado, e donde não se saía se chovesse, as estradas vicinais eram pouco mais que trilhas para animais e pedestres. Desceu, ficou preso, embora uma prisão que, paradoxalmente, represente também liberdade, já que o indivíduo, imerso no vale, se sente intimamente ligado à natureza, de volta às origens, livre e distante dos males do progresso, que embora lento, inexoravelmente chega a todos os rincões.
Fiquei pensando que, se o colombiano tivesse vivido aqui, na nossa Arataca, poderia ter escrito o mesmo livro que escreveu na Aracataca dele. O povo daqui acreditava também que casamento entre primos era impossível, também aqui a vida era difícil, a sobrevivência dependia da imprevisibilidade da terra, pessoas eram perseguidas por mortos de mal humor (ou de bom humor?), notícias sobre fantasmas percorriam tardes e noites de todos os lares, cães miavam com os rabos entre as pernas, e o país, ainda sob o jugo militar, bem poderia ser palco de uma guerra civil. Perfeitamente possível que membros de uma família qualquer, de Menezes, Sobreira ou Possodelli, ou duas dessas, se unissem embora primos, criassem coragem, e alçassem voo do vale, em busca dos seus sonhos, de  suas crenças, de viver aventuras e, quem sabe, encontrar um destino melhor do que o que o vale prometia (meus pais, mesmo, eram primos em primeiro grau). 
Talvez o Garcia Marques, da Arataca, até encontrasse um final diferente para sua obra, e o representante da dinastia dos Possodelli, em vez de morrer, se casasse num cafezal, com uma chuva de flores brancas caindo sobre a cidade, quem sabe se transformasse num grande suinocultor, ou ainda enriquecesse transformando ferro em ouro; tudo menos nascer com rabo de porco ou morrer devorado por formigas, para fazer valer uma sina ou praga prevista há um século. Vivendo ou morrendo ao final, a admirável saga da estirpe da Arataca não teria solidão, mas cem anos de alegria, produtividade e progresso. Talvez o livro não fosse o mais lido do mundo, mas a vida teria valido a pena