quarta-feira, 25 de fevereiro de 2026

ESPERANÇA NA NATUREZA

João Nogueira, Paulo César Pinheiro... Clara Nunes, esta, então, já conhecida como uma força da natureza. A composição é de 1977, quase cinquenta anos se passaram. Não vou comentar. Dispensável. Só vou transcrever a letra da música deles.
 As Forças da Natureza
Quando o Sol
Se derramar em toda sua essência,
Desafiando o poder da ciência
Pra combater o mal.

E o mar, 
Com suas águas bravias,
Levar consigo o pó dos nossos dias,
Vai ser um bom sinal.

Os palácios vão desabar
Sob a força de um temporal.
E os ventos vão sufocar,
Com um barulho infernal.

Os homens vão se rebelar,
Dessa farsa descomunal.
Vai voltar tudo ao seu lugar,
Afinal.

Vai resplandecer.
Uma chuva de prata do céu vai descer.
O esplendor da mata vai renascer.
E o ar de novo vai ser natural.

Vai florir.
Cada grande cidade o mato vai cobrir.
Das ruínas um novo povo vai surgir.
E vai cantar afinal.

As pragas, as ervas daninhas, 
As armas e os homens de mal,
Vão desaparecer 
Nas cinzas de um carnaval.

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2026

QUARTA FEIRA DE CINZAS

O filho de um amigo querido me procurou em busca de conselhos, ou do alívio que costumamos obter quando compartilhamos nossos problemas.
Ele se queixa de não ser reconhecido por seu pai e sua irmã, de ser sempre muito cobrado e nada receber em troca, ainda que se desdobre para fazer o seu melhor. Ele está deprimido. 
Procurei ajudá-lo com as costumeiras frases de apoio, coloquei-me à sua disposição para conversar sempre que quisesse, e me comprometi a observar com um pouco mais de atenção, e quando tivesse oportunidade, o comportamento dos três, a ver se, de alguma forma, eu poderia ajudá-lo. 
Os problemas dos outros, por vezes, nos levam a esquecer os nossos próprios.
O garoto, já não tão garoto assim, tem os seus problemas emocionais, uma história de vida meio conturbada, um TDAH tardiamente diagnosticado, embora desde sempre observado sem ser chamado pelo nome, e, por consequência, uma autoestima baixíssima. Assim, na maior parte do tempo se sente menor, e por isso, introvertido e recluso, e no tempo que sobra, estimulado por uma leitura, um exemplo de um amigo ou um conselho de um analista, ele fica eufórico, pode se sentir forte, e se comportar como tal, perder a inibição e o bom senso, e se expor demasiadamente. 
Meu amigo ama o filho, certamente que sim, mas ele se perde, e até exagera, nas inúmeras tentativas de levá-lo a se estabilizar emocionalmente, e, cansado e sem êxito, se sente impotente para fazer alguma coisa. 
Sua filha, por outro lado, sentindo-se segura da sua própria vida, certa de que fez as melhores escolhas, acreditando ser independente, não tem uma opinião muito honrosa de seu irmão, parece vê-lo fraco, sem força de vontade, muitas vezes irresponsável, e seus sentimentos transparecem nos momentos em que estão juntos, nos poucos momentos, já que ambos não fazem qualquer esforço para se aproximarem, e, em consequência, o irmão se fecha mais, se ausenta mais, e ela e seu pai acabam naturalmente se aproximando mais um do outro. Essa dinâmica viciada, aumenta os sentimentos negativos do filho, confirma a impressão do pai, de que ele não tem jeito, e a certeza da filha, de que ele é um estranho e desleixado, que não quer participar da família. 
Amo os três, e me vejo, agora, no centro desse círculo, porque assumi o compromisso de observar o trio. Soubesse antes, a complexidade da situação, e as variáveis envolvidas, e não teria... ora, eu teria me comprometido da mesma forma. Ninguém merece o que o Alex está vivendo, ou o pai dele, que também sofre com essa situação, para a qual não vê saída. A garota, por outro lado, com o seu dia a dia ocupado, e as certezas da pouca e rasa experiência, acho que não sofre; não percebe o mal que faz ao irmão ao decidir não se aproximar embora os riscos, nem o tanto que ele precisa dela, e como seria bom, para os três, que estivessem mais unidos. Tivesse ela consciência disso, talvez pudesse fazer algo para ajudar; por enquanto, vive a sua vida, e cresce no seu trabalho, como quem "nem tá aí". Como dizem, a ignorância traz paz ao espírito. 
Bem, gaiato nesse navio, eu navego em meio a dúvidas: 
Devo mostrar objetivamente ao Alex, que a ele compete sair, viver a sua vida, ocupar-se de si mesmo, antes e mais do que dos outros, encontrar equilíbrio nas suas emoções, sem se esconder nem tampouco se expor em demasiado? Afinal a vida é dele, só ele pode mudar, só ele deveria saber o que lhe convém.
Devo pedir ao meu amigo, para, talvez até junto com a filha, fazer um movimento no sentido de atrair o filho para o espaço gravitacional deles, de forma a que ele encontre segurança no seu núcleo familiar, se perceba aceito? Já até tentei provocar o assunto, mas meu amigo não acha que ainda haja alguma possibilidade de encontrar uma normalidade no comportamento do filho. Ele desistiu. Acha até que esse distanciamento pode ser terapêutico.
E quanto à filha?  Ela diz que seu irmão escolhe estar longe, e que, nos poucos momentos em que se encontram, ele os desperdiça provocando-a, criticando qualquer coisa que ela diga ou faça, que é insuportável ficarem juntos. Ela não vai mais tentar fazer nada. Acho que ela não percebe que a forma como ela vê o seu irmão, reforça esse comportamento negativo nele, e as coisas tendem a piorar para a família. Aqui, outra dúvida: Dizer isso para ela, não poderia prejudicá-la, colocá-la frente a frente com uma realidade conflituosa que ignora? Ela teria que rever um comportamento de anos, atitudes que sempre achou corretas, e com as quais viveu, cresceu, se tornou adulta e boa profissional; estará preparada para ser jogada de encontro às suas certezas?
Não vou ajudar, se deixar por isso mesmo, as coisas não vão mudar por si só. Por outro lado, como conversar com pessoas que têm, cada uma, somente certezas a respeito de si e do outro, e não percebem que precisam se abstrair de si mesmas, olharem de fora, para conseguir entender a situação em que estão envolvidas, e ter alguma chance de enxergar alternativas? Ora, bem que eu poderia ter  estudado Psicologia! Não sei, e não posso, me aventurar nos labirintos da mente, vou me contentar em ouvir de verdade o Alex, deixá-lo chorar, desabafar quando e quanto quiser, e, talvez, nalgum momento, vou poder dizer-lhe as coisas que pensei aqui.
Enquanto isso, vou pensar em mim. Os problemas dos outros, por vezes, nos estimulam a resolver os nossos próprios problemas.

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2026

FELIZ ANIVERSÁRIO

Cinco da manhã do dia 10
Ela saiu a passear.
Outras paisagens conhecer,
Ver os pássaros cantar.

Andou por todo o sítio
Se apaixonou pelo que viu.
Foi ver o sol nascer,
Seguiu a trilha até o rio.

Cansada dormiu sob a árvore,
Alimentou-se da natureza.
O tempo passou rapidamente,
Encantou-se com tanta beleza.

Mas tinha que voltar pra casa
Fugir da ventania
Melhor que qualquer novidade
Algo mais importante havia.

Mamãe, eu estou de volta
Hoje é dia 11 de fevereiro.
Nenhum outro lugar é melhor
Lugar nenhum tem seu cheiro.

Não fique triste, porém, 
Se outras vezes eu sair. 
Amor rima com liberdade,
Voltarei pra você sorrir.

Mia...u.

domingo, 8 de fevereiro de 2026

FELIZ ANIVERSÁRIO, ONTEM!

Semana passada foi meu aniversário! - Puxa, por que você não avisou?
Até eu às vezes esqueço, acredite; agora, imagine se iria avisar aos outros! 
É engraçado essa coisa de comemorar aniversários: Há quem faça absoluta questão de comemorar; há quem faça absoluta questão de comemorar o aniversário dos outros, e há quem não se lembre do aniversário de quase ninguém. Eu, por exemplo. 
Muitos dizem que eu não gosto de receber cumprimentos no meu aniversário, até mesmo pessoas muito próximas de mim dizem isso. Ledo engano! Gosto sim, gosto muito, apenas gosto que seja espontâneo, de coração, e por isso, escondo, o quanto posso, a data, para não receber cumprimentos apenas sociais, de pessoas que me conhecem só "de vista"; de colegas de trabalho, apenas colegas; de funcionários que talvez nem gostem de mim. Pela mesma razão também não gosto do programa "aniversariante do mês" e do "amigo oculto", que de tão oculto, continua não sendo amigo mesmo depois da brincadeira. - Fale algumas características do seu amigo, pra ver se adivinhamos. - O meu amigo oculto é..., hum..., bem, ele é o único que está vestindo camisa preta. Nossa, quanta amizade!
Um dia, na escola, uma professora dizia fazer questão de receber os parabéns: Eu sempre esqueço!!! Se é tão importante, me avise então na véspera, eu a alertei. E ela avisou. Passei na Casa Verde, colhi e montei, eu mesmo, um lindo buquê de rosas, lirios, palmas, antúrios e folhagens, e levei, feliz, para a escola, na hora da entrada, pra impactar. E impactei a todos mesmo: - Fernando, foi ontem o aniversário dela!, eles riram. Eu bem que te avisei, Carol!
Certa vez, umas oito da noite, eu, no trânsito voltando do trabalho, meu irmão me convida pra ir à sua casa.  Sua mulher fizera um prato que eu gostava muito. Dispensei. Ele insistiu. Eu também. Tava cansado e aborrecido, e não fui.  E era aniversário dele! Ainda aborrecido. 
Já lembrei do aniversário da minha mulher quando ia abrir a porta da nossa casa. Como lembrei, continuo tendo a chave.  
Eu sou um caso perdido, e acho graça de alguns que competem comigo nesse quesito:
Recebi msg de minha irmã, no dia seguinte ao meu niver sem nenhuma menção ao atraso. 
Um casal de cunhados queridos que nunca esquecem, também enviaram msg uns dias depois. "- Sempre acho ser dia cinco."
Minha prima, com quem falo sempre, pediu meu número à minha irmã, disse tê-lo perdido, e então me enviou uma msg.
Um amigo sempre comenta que meu aniversário acontece durante um congresso do qual participamos todo ano. Neste ano, na véspera do dia, ele falou que iríamos cortar o bolo no dia seguinte. Eu viajei no dia, e ele esqueceu!
Outros, que também participam do mesmo congresso, sempre esquecem. Eu não me incomodo que não se lembrem, sei quem me quer bem... acho.
Já aprendi, porém, com quem se lembra e valoriza, que comemorar o dom da vida, agradecer por ela, homenagear os que gostam de nós e de quem gostamos, é importante, então, que cada um o faça de seu jeito e que todos participemos... se lembrarmos.
Meu pai, um advogado sem nem  mesmo o colegial, adorava fazer aniversário, sempre queria fazer festa e discurso de gratidão. Ele tinha muitos argumentos e sabia usar. Poderia até ser ministro, afinal...
Fernando Sabino conta ter sido testemunha ocular do aniversário de uma menininha pobre, comemorado pelos pais na lanchonete, com uma pequena fatia de bolo comprada a duras penas. Uma oração, uma vela usada, uma singela festa de três, e era suficiente. Felicidade na simplicidade.
Meus pais fizeram uma festa de aniversário pra mim, com direito a bolo e cajuzinhos, quando eu fiz dez anos, acho que vou fazer a segunda, sessenta anos depois!
Veríssimo, porém, outro xará, diz que o "parabéns", após uma certa idade, soa irônico e meio temerário.  Fazemos aniversário, e os aniversários vão nos desfazendo. Acho que concordo, não pensei que chegaria a tantas dezenas de anos que nem vi passar, porém, como não me cantaram muitos parabéns, também acho que estou com crédito. Então, até o próximo fevereiro, sem "parabéns pra você".