domingo, 26 de abril de 2026

COM QUE ROUPA EU VOU PROS 70?

Em torno dos sessenta e cinco anos, você não pode ter saudade do passado, menos ainda exprimir essa saudade; não pode reclamar do progresso, ainda que manifestamente ruim determinada mudança. Jovem pode, mas você... Você estará em descontrole emocional, em negação, revoltado com a idade. Imagine então reclamar de estar ficando velho, porque se cansou numa escada, numa pequena corrida, porque se enrolou com vários compromissos simultâneos, ou ficou gripado por uma simples garoa!!! Só jovem pode. Ele estará brincando, você, deprimindo.
Mas quando deixamos de ser jovens? Quando perdemos o direito de decidir o que comer, beber, vestir ou falar? De fazer o que temos vontade, e se temos vontade. Qual é o limiar, a fronteira entre o jovem e o velho, que estabelece limites à capacidade do indivíduo? E desde quando uma regra que serviu pra um, servirá certamente para outro, que não necessariamente terá o mesmo biotipo, as mesmas histórias, as mesmas experiências, os mesmos gostos, a mesma resiliência?
Perguntas assim, e outras tais, precisamos fazer, quando estamos ou estivermos indo para o número 70 da Rua Futuro. "Com que roupa eu vou?" já perguntava Noel. Precisamos saber pra não fazer feio, ou estaremos nus.
Eu, quase sete décadas bem vividas, conscientemente busco ouvir os mais jovens, e falar a eles; ouvir os mais velhos, e conversar com eles; revisitar o passado e me confraternizar com ele; trabalhar o presente, e no presente, buscando viver outras décadas sadias, produtivas e alegres como as que passaram.
Tenho objetivos, acordo cedo, saio da cama cedo, mas agora já não tenho pressa, penso primeiro no que vou fazer do meu dia. Preparo o café pra nós dois, ou, se já está pronto, tomamos o café da manhã com calma, e conversamos sobre qualquer coisa, além de sobre os primeiros passos do dia.
A partir de então, pode acontecer tudo muito rápido ou tudo devagar, muitas ou poucas coisas, mas não faltarão contatos com pessoas, leitura, exercícios físicos, cálculos, tomadas de decisão, planejamento e execução do almoço, orçamento de uma venda ou de uma compra, cuidados com o jardim e/ou a horta, subir o morro a pé ou de carro, falar com um professor do colégio ou com uma mãe de aluno. Mantenho-me ocupado.
Ah, preciso fechar o meu dia: ainda teve o café da tarde, o banho pra aquecer do frio da serra, o jantar, a pausa pra assistir um filme na TV! Vou dormir tarde, na cama, digo, pra acordar cedo, e de novo arrumar a cama e repetir a rotina, que, na exata acepção da palavra "rotina", de rotina mesmo não tem nada, porque os dias nunca são os mesmos, até o sol pode vir diferente, ou não vir, a natureza pode estar mais ou menos verde, ou colorida, e eu, posso estar mais ou menos animado, e tudo bem.
Às vezes acontece tudo. Às vezes nada. Às vezes só o que importa. E tá tudo bem. Às vezes viajamos a passeio, às vezes a trabalho, na maior parte das vezes a trabalho e passeio. E no tempo livre - se não pintar eu libero um - vou escrevendo sobre o meu passado, o que lembro de mim ou de outros, o meu presente - o meu e o do mundo em que vivo, os meus amigos - você e o seu mundo, os meus pensamentos e sentimentos - nem sempre fiel ao que pensei ou senti, por limitação de vocabulário, os meus parentes e amigos de sempre - a maioria nem sabe que escrevi. São fragmentos do meu mundo, que vou registrando pra não esquecer. O passado não pode ser deletado, só ele dá sentido à vida, me compraz relembrar tantos caminhos trilhados, inclusive as encruzilhadas nas quais, tantas vezes, escolhi o lado errado. Não aceito o patrulhamento de pensamentos e sentimentos.
Faço parte de uma geração privilegiada, que viu nascer, e viveu, tantas coisas novas, tantas descobertas, um admirável mundo novo, que errar era natural e esperado, tentar de novo era necessário, e, entre um e outro, a vida mudava, e não se discute se pra melhor ou pior, essa avaliação dependerá de cada um. As histórias construídas no decorrer das décadas, as vivências, os erros e os acertos, sinalizam, quase antecipam, como serão as décadas finais, e será essencial buscar equilíbrio entre o passado vivido e o futuro a viver, entre o que dá prazer e o que causa estresse, entre muitos amigos e amigos de verdade, entre passear muito ou passear quando quiser, entre fazer pra si e por si, e fazer pelos outros.
Muita gente - psicólogos, geriatras, os indefectíveis onipresentes educadores físicos e seus seguidores jovens ou velhos, profetas do apocalipse da minha geração - preveem uma velhice triste, depressiva, dependente, solitária, e tantos adjetivos negativos mais que se conheça, da qual, aparentemente, não conseguiremos escapar, a menos que dediquemos horas do nosso dia a exercícios físicos, outras horas a exercícios mentais, outras ao sono, outras a atividades compartilhadas com outros idosos. Imagino que também pensem em horas de trabalho. Haja tempo no dia! E haja paciência para compartilhar com velhos que se acham velhos!
Não bastará isso, porém; necessária uma alimentação regrada: nada de carne de porco. Seis ovos por dia. Pouco arroz ou macarrão, uma fatia de pão, se for integral! Presunto, linguicinha, cervejinha... hein?! Haja... paciência!
Em nome de um futuro que se adivinha sadio, restringem-se pequenos prazeres do dia a dia, censuram-se pequenos confortos que não eram possíveis nos anos anteriores, com família a sustentar, metas a bater, compromissos a honrar; e o infeliz que pensou finalmente poder descansar e curtir a vida que sonhou, sente que era utopia, aquela vida deveria ter sido vivida antes, agora é tarde demais, agora não há liberdade, e o tal futuro sadio parece miragem, a cada dia mais distante.
Por isso, semana passada visitei a cidade da minha infância, revi parentes, amigos, lugares. Hoje eu comi um galopé. E amanhã, se eu quiser, como de novo. 
E continuo trabalhando.

domingo, 29 de março de 2026

CONTRADIÇÕES

Amigos, colegas de trabalho, conhecidos, e até parentes, me veem como um sujeito bem sucedido, com uma família bonita, um trabalho gratificante, um carro bacana, saúde boa, envolvido com ações de solidariedade... um cara de sorte e feliz! E tudo isso é verdade, de um certo ponto de vista... só não é sorte.
Os terapeutas de plantão  (sempre tem um, e no Instagram, muitos), eles, se eu digo que às vezes fico inseguro, que olho pra trás, preocupado com algo que nem sei o que é, que me angustio com a possibilidade de situações do passado se repetirem, se demonstro medo, me aconselham a não olhar pra trás, apenas à frente, com foco nos pontos positivos, e permitir que a felicidade entre. 
Meus amigos, meus colegas, meus parentes... e os terapeutas, não sabem de nada!
Já andei de bicicleta por toda a cidade, fazendo cobrança, até arrebentar os suados chinelos nos pedais, e os ovos, no quadro. Você fica em pé sobre os pedais, para conseguir subir a ladeira, e vê o pé escorregar, e depois disso, só vê estrelas. Quem viveu essa experiência dolorosa sabe do que estou falando. E, sobre uma bicicleta velha e dura, trabalhando de sol a sol por míseros trocados, como pode um cidadão pensar num futuro brilhante, família e carro bonitos, sentir-se feliz ou sortudo, sentado à beira do caminho com a corrente... e o resto, arrebentados? É de chorar na rampa, ou no meio-fio! Eu chorei.
Já trabalhei como servente de pedreiro, balconista, frentista, cobrador, vendedor de bananas cesto aos ombros pelas ruas da cidade, fui bancário em cidade de praia, em cidade de serra, na cidade louca e maravilhosa, na capital da corrupção,  já estive desempregado, e daí, um pouco por vocação, e mais pelas circunstâncias de momento, acabei empresário, mesmo sem conhecimento do ramo. 
Os amigos e parentes disseram:  Viu como ele cresceu, como foi corajoso? Deixou a Caixa e virou empresário! Consultores ensinariam: você deveria ter decidido pela mudança somente depois de avaliados riscos e oportunidades, e só então desistido do passado, explodido as pontes pelas quais passara, e ido em frente. 
Meus amigos, meus parentes, os terapeutas... e os consultores, não sabem de nada!
Muitos colegas meus fizeram isso, a maioria se arrependeu ou mesmo desistiu. Quanto a mim, eu não tinha tempo para planejar com objetividade e decidir com segurança, eu havia perdido para o Estado, na primeira empreitada assumida na nova vida, todo o dinheiro que conseguira amealhar em dezenas de anos de trabalho; então enfrentei a oportunidade que a vida me oferecia. Eu já havia mesmo explodido as pontes, e ninguém me disse ser impossível, então eu fui em frente!
Antes de tudo isso, criança na periferia do Rio de Janeiro, meu pai decidiu morar no interior, na roça. Lá, o padre dizia, "Evidente que Deus proverá, acreditem!". Evidente era uma palavra nova pra mim, e eu adorava ouvi-la. O padre já morreu. 
Eu trabalhava como ajudante do pedreiro e do padre de plantão,  sonhava com a Soninha, a Adalgisa, a FAB, o helicóptero que me levaria para além das montanhas que cercavam o meu mundo, e minha mãe e meus amigos diziam "Pare de sonhar! Sonho não enche o bucho!". Não foi voando, mas na carroceria de um caminhão velho, qual retirantes, nós fugimos em busca dos sonhos, os meus sonhos, que certamente estariam para além do horizonte adivinhado.
Amigos, parentes, terapeutas, consultores... o padre, eles não sabem de nada. Meus pais também não sabiam; eles, porém, acreditavam num Deus provedor, em si mesmos e nos filhos!
De volta ao hoje, dois casamentos depois, filhos e netos, todos seguindo seus próprios caminhos que não são os meus, eu olho pra trás e... como passou tanto tempo em tão pouco tempo?!!! E quão pouco tempo falta!!!.
Nesses momentos de reflexão, me vejo, vez em quando, surpreendido por uma sensação de falta, de ausência, de carência, de angústia, de medo mesmo; talvez saudade do que a minha vida teria sido numa outra realidade, talvez saudade de uma outra vida que eu mesmo esteja vivendo numa linha do tempo distinta. Uma saudade do não vivido, acho. Melancolia? Nesses momentos eu não sou feliz, não me sinto com sorte, não estou completo, e então, resta apelar para os amigos e parentes, os terapeutas e os consultores, o padre ou o pastor, buscar uma conexão com Deus. Talvez, afinal, eles saibam alguma coisa que eu só pensava saber. Olho pra trás, e tento compreender as contradições da minha vida vivida, mas ando pra frente, sem parar, pelo caminho que me resta viver, como aconselha o filósofo. Não tem garantias, é verdade, mas quem disse que haveria? Tá bom assim, sem GPS, sem previsibilidade, vivendo o presente, que é, sempre, um presente.

terça-feira, 10 de março de 2026

INVISÍVEIS - UM TOQUE

Passava pelo calçadão da cidade. Passava, não caminhava. Tinha um destino. E o celular à mão. Pedintes atrapalhavam o fluxo. Também amigos que "se trombaram", e que efusivamente se abraçavam, enquanto eu me desviava. Alguém pede licença, talvez por uma orientação. Não sei se era isso, ninguém respondeu. Um sobressalto, sinto um toque no ombro. Minha mulher. Ué, está indo pra onde? - Não estou indo, estou voltando! - Como assim? - Eu vim de lá, te encontrei, mas você só me veria se eu tropeçasse em você. Não enxerga a mulher amada! 
Não tenho defesa. Ela veio em sentido contrário, no mesmo passeio, e eu não a vi! Acontece o mesmo quando estou de carro; ela acena e eu não vejo. Digo que isso acontece com todo mundo, e ouço a resposta óbvia: "Não sou todo mundo". 
De fato, é assim, ensimesmados com nossos próprios problemas, caminhamos, comemos, trabalhamos, vivemos... isolados. Sozinhos, na solidão de todo mundo junto, não vemos, de verdade, ninguém; muitas vezes não vemos de jeito nenhum, tropeçamos nas pessoas, como se numa pedra, numa árvore ou num poste. 
Nas cidades do interior, num hábito que hoje provavelmente não existe mais, os jovens circulavam pela praça principal, conversando entre si; rapazes num sentido, moças noutro. E se olhavam, sorriam, "paqueravam". Era o namoro de olhos, o footing, diriam os ingleses. E enquanto os jovens circulavam pelo passeio, os menos jovens sentavam-se nos bancos, a conversar, brincar, e, por que não, namorar. 
Pois é, acredite, houve uma época em que as pessoas se viam, se reconheciam no olhar do outro. Hoje, as praças estão vazias, ou vazias estão as pessoas que as frequentam; embora cheias de si e de informações, vazias de empatia.
A televisão, a internet, o videogame, a violência, a desconfiança gerada pelo abismo entre as classes sociais, as divergências políticas, a intolerância religiosa, tudo, junto e misturado, forma o amálgama que dá a desculpa  perfeita para o culto ao isolamento. 
Hoje, ninguém visita mais ninguém; é impensável, e constitui  grave falta de educação, bater à porta de um amigo sem aviso prévio. Mas, como marcar com antecedência, um encontro ou uma visita a uma família amiga, quando é justamente a espontaneidade que a torna tão deliciosa?!! 
Ora, o amigo pode não estar preparado, pode não estar animado. 
Então, essa visita pode ser o ponto de inflexão, exatamente o que ele precisava para desabafar, talvez esquecer, talvez repensar. E se não for, se de fato não for um bom momento, é simples, basta dizer, e a amizade continuará, talvez, agora, reforçada por aquela alteração na teia da vida. A oportunidade e a vontade de vermos e revermos os amigos, é que nunca deveriam ser postergadas.
Em nome da privacidade, tão ao gosto do momento, buscamos ficar invisíveis, mas sempre de acordo com nossa conveniência; basta precisarmos de um amigo ou de um familiar, e batemo-lhe à porta. Desesperados, mesmo se nos dizemos descrentes, batemos à porta de Deus. Culpados, então enxergamos o pedinte, e lhe deitamos uma moeda ao prato. Passada a tempestade, nos cobrimos com o guarda-sol da privacidade, e deixamos de fora o resto da humanidade... invisível. 
Invisíveis, não vemos os pobres e miseráveis tão sofridos e expostos; não vemos os trabalhadores que se ocupam de tarefas menos "nobres"; não vemos nossos filhos entretidos nas telas, menos ainda os conteúdos nelas espelhados; não vemos o companheiro que está ao nosso lado, e o quanto ferem as nossas palavras ou o nosso silêncio, as nossas ações e as nossas omissões; não vemos o amigo que precisa de ajuda; as minorias destratadas; não vemos o povo que está abandonado, e as injustiças que são perpetradas, estas desde que não nos atinjam. 
Queremos uma "família margarina" como as das redes sociais, e isolamos a nossa para isso, e como não conseguimos tanta felicidade, nos deprimimos. Privacidade ou egoísmo? Invisibilidade ou cegueira?
Já é passada a hora de baixar a tela e levantar os olhos;  de olhar  para as pessoas, e assim fazê-las, e a nós mesmos, visíveis. Um "toque no ombro" pode nos lembrar que estamos passando por cima das pessoas, que o virtual deveria ficar no passado pandêmico, e que nada substitui o presencial das emoções, dos abraços, da vida plena e pujante.

sábado, 7 de março de 2026

CARNAVAL, CONVERSA E CAFÉ.

Domingo de carnaval, hóspedes em casa, mesa do café farta e bem apresentada. 
Como sempre acontece entre amigos, e num café, muita conversa sobre muitos e quaisquer assuntos. 
Num mundo sem fronteiras, onde as informações voam por entre e sobre todos, temas não faltam, desde política e politicagem externa, às politiquices internas; desde o programa nuclear iraniano, às bombas produzidas em Brasília; desde as vaidades de Trump, às da primeira-dama brasileira nas avenidas; desde os nossos cães, aos gatos de minhas irmãs; desde os ministros do Supremo aos juízes, promotores e políticos, já que falando de cães e gatos.
Meu amigo é professor, então tema recorrente é escola. Ele sofre como todos os professores, quer mudar de vida como muitos (alguns estão apáticos); digo que o governo vai melhorar o salário da categoria, e ele é cético: -Disseram de onde virão os recursos?!
Ele pensa em constituir uma empresa pra não depender mais de empregador, quer saber se é melhor que o serviço público. 
Pergunta fácil, resposta difícil. 
Eu já estive nos dois lados. Quando era barnabé, trabalhava mais que todos, não me importavam os outros que não se dedicavam, fazia o meu e um pouco mais, e por isso fui promovido várias vezes, mas nunca estava satisfeito. É que eu não via o resultado do meu trabalho, e o resultado que via era mal utilizado, ou mal avaliado, entende? 
Para a maioria, ser funcionário público, tem a ver com estabilidade, nunca com competência; com direitos, quase nunca com deveres; com quem apadrinhou, nunca com resultados; com cumprir ordens, nunca com fazer o que é certo. Cansei. Fui embora. 
E como foi a iniciativa privada? Bem, primeiro, iniciativa significa não ficar esperando ordens, você mesmo planeja, organiza e executa; e segundo, privada é o lugar pra onde dá vontade de fugir, quando o fiscal bate à sua porta, ou quando você olha para os saldos da conta bancária e do contas a pagar. Vê a diferença básica?  O dinheiro que você gasta é o seu, você mesmo tem que produzi-lo, e, embora seu, terá que prestar contas ao fisco.
Numa empresa própria, você terá que dispor do capital inicial para o desenvolvimento do negócio, até que este produza recursos suficientes a se autossustentar, e cada despesa que fizer - papel, café, água, energia, comunicações, limpeza etc, sairá desse capital integralizado, ou seja, do seu próprio bolso. 
O capital é imprescindível, não lançar mão dele para despesas pessoais, é inegociável.
- Nenhuma vantagem então?   
- Naturalmente que sim, meu amigo, porém sob certas condições: 
O objetivo da empresa deve ser adequado ao momento e circunstâncias;  
Você deverá saber, ou contratar quem saiba, administrar a operação;
Os colaboradores devem ser qualificados e com salários que você possa pagar. 
E, obviamente, você deverá contar com a sorte, que nenhuma ocorrência externa (uma pandemia, uma guerra...) interrompa a operação. 
Um problema: As empresas estão subordinadas a leis e regulamentos que provêm do mesmo governo que regula o serviço público, ou seja, quem administra mal as empresas e instituições a seu cargo, é também quem estabelece regulamentos para a administração privada, fazendo-os tão confusos e intrincados, quanto suficiente para provar que somos tão incompetentes quanto ele.
Ainda assim, seu negócio, sob condições normais de temperatura e pressão, tende a prosperar, te trazer muitas vantagens, e dependendo tão somente de você mesmo, sem que precise prestar contas a uma infinidade de superiores hierárquicos. É só trabalhar, honrar os compromissos com empregados, fornecedores e o fisco, e aproveitar o resultado. 
A vantagem é não depender da viúva para as decisões, a desvantagem, é não ter a viúva para assumir as consequências de eventuais decisões equivocadas, como o governo (a viúva) fez com a Caixa, com os Correios, BRB e tantos outros.
A conversa atravessa a manhã: todos à mesa buscam alternativas de sobrevivência digna no país em que vivem, enquanto o presidente antecipa a campanha eleitoral no carnaval das avenidas do país do qual vive,  e gastando  dinheiro público.
Tenho um amigo advogado, lembrei, bom advogado, que ganha dez mil reais mensais para patrocinar cerca de trinta processos! Enquanto isso, a imprensa noticia que parentes das maiores autoridades do país, são contratados por muitos milhões, e por empresas suspeitas de irregularidades ou que têm interesses no governo, o que, por si só, já configura grave irregularidade.
Veja, amigo, como pode ser difícil a iniciativa privada, e como pode ser lucrativo o serviço público, tudo a depender dos valores e princípios, do caráter do indivíduo, ou da falta de.
Estou me estendendo, eu sei, já antecipara que a resposta seria difícil. 
Para quem é mais conservador, não tem simpatia pelo risco, não tem vocação para self-made man,  o serviço público pode ser mais adequado, especialmente se, como diria um ex-presidente, para "se manter dentro das quatro linhas da Constituição". Fora, seria caso de polícia, e ouvimos muitas sirenes a tocar por aí.
Se você, porém, tem o sonho de empreender, acredita em si mesmo e está preparado para a possibilidade do insucesso, vá em frente, você tem muita chance de o sucesso lhe sorrir. Mark Mason escreve: "...ninguém se torna bem sucedido, se não avaliar o risco, a incerteza, os muito fracassos, a quantidade insana de horas dedicadas a algo que possa render absolutamente nada".
Por outro lado, parafraseando a cantora Iza, é preciso ser forte, é preciso ter foco, é preciso ser foda e não fugir à luta, e ter fé pra enfrentar esses filhos da puta. 
Eu quis ser empresário desde o então primário do colégio, quando me disseram sermos o país do futuro. Sessenta anos depois continuamos assim, acreditando, enfrentando e sobrevivendo, apesar deles, tão adequadamente lembrados na música.
O futuro do Brasil depende de que esqueçamos nossas dúvidas, busquemos nossos sonhos, e deixemos de esperar que o governo faça a nossa parte, eles não fazem nem a deles.

quarta-feira, 4 de março de 2026

MIGUEL DO CÉU!! COMO PODE?!

Guerreiro, sem dúvida. 
E também é anjo.
Vaidoso sempre,
Vai corrigir: - Arcanjo!

Do aquário ele fugiu.
É Peixe. 26 de fevereiro.
Nasceu forte pra nadar.
Já nasceu aventureiro. 

Energia é o que o define. 
Sempre em agitação febril.
Se parar nalgum momento,
Algum problema sentiu.

Carinhoso como anjo deve ser,
Está sempre sorrindo feliz.
Capeta, que também foi anjo,
Sempre faz arte e se contradiz.
 
Alegria dos pais e da irmã,
Gira, cai, senta e pula.
Enquanto ri de tudo e todos,
Faíscam os olhinhos do caçula. 

Todos o amam, e todos brigam,
Ele não veio para conciliar. 
Ele é sempre provocante, 
Ele veio pra realizar. 

Miguel Arcanjo.
Miguel protetor. 
Rogai por nós.
Oramos por você. 

E ... Parabéns!

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2026

ESPERANÇA NA NATUREZA

João Nogueira, Paulo César Pinheiro... Clara Nunes, esta, então, já conhecida como uma força da natureza. A composição é de 1977, quase cinquenta anos se passaram. Não vou comentar. Dispensável. Só vou transcrever a letra da música deles.
 As Forças da Natureza
Quando o Sol
Se derramar em toda sua essência,
Desafiando o poder da ciência
Pra combater o mal.

E o mar, 
Com suas águas bravias,
Levar consigo o pó dos nossos dias,
Vai ser um bom sinal.

Os palácios vão desabar
Sob a força de um temporal.
E os ventos vão sufocar,
Com um barulho infernal.

Os homens vão se rebelar,
Dessa farsa descomunal.
Vai voltar tudo ao seu lugar,
Afinal.

Vai resplandecer.
Uma chuva de prata do céu vai descer.
O esplendor da mata vai renascer.
E o ar de novo vai ser natural.

Vai florir.
Cada grande cidade o mato vai cobrir.
Das ruínas um novo povo vai surgir.
E vai cantar afinal.

As pragas, as ervas daninhas, 
As armas e os homens de mal,
Vão desaparecer 
Nas cinzas de um carnaval.

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2026

QUARTA FEIRA DE CINZAS

O filho de um amigo querido me procurou em busca de conselhos, ou do alívio que costumamos obter quando compartilhamos nossos problemas.
Ele se queixa de não ser reconhecido por seu pai e sua irmã, de ser sempre muito cobrado e nada receber em troca, ainda que se desdobre para fazer o seu melhor. Ele está deprimido. 
Procurei ajudá-lo com as costumeiras frases de apoio, coloquei-me à sua disposição para conversar sempre que quisesse, e me comprometi a observar com um pouco mais de atenção, e quando tivesse oportunidade, o comportamento dos três, a ver se, de alguma forma, eu poderia ajudá-lo. 
Os problemas dos outros, por vezes, nos levam a esquecer os nossos próprios.
O garoto, já não tão garoto assim, tem os seus problemas emocionais, uma história de vida meio conturbada, um TDAH tardiamente diagnosticado, embora desde sempre observado sem ser chamado pelo nome, e, por consequência, uma autoestima baixíssima. Assim, na maior parte do tempo se sente menor, e por isso, introvertido e recluso, e no tempo que sobra, estimulado por uma leitura, um exemplo de um amigo ou um conselho de um analista, ele fica eufórico, pode se sentir forte, e se comportar como tal, perder a inibição e o bom senso, e se expor demasiadamente. 
Meu amigo ama o filho, certamente que sim, mas ele se perde, e até exagera, nas inúmeras tentativas de levá-lo a se estabilizar emocionalmente, e, cansado e sem êxito, se sente impotente para fazer alguma coisa. 
Sua filha, por outro lado, sentindo-se segura da sua própria vida, certa de que fez as melhores escolhas, acreditando ser independente, não tem uma opinião muito honrosa de seu irmão, parece vê-lo fraco, sem força de vontade, muitas vezes irresponsável, e seus sentimentos transparecem nos momentos em que estão juntos, nos poucos momentos, já que ambos não fazem qualquer esforço para se aproximarem, e, em consequência, o irmão se fecha mais, se ausenta mais, e ela e seu pai acabam naturalmente se aproximando mais um do outro. Essa dinâmica viciada, aumenta os sentimentos negativos do filho, confirma a impressão do pai, de que ele não tem jeito, e a certeza da filha, de que ele é um estranho e desleixado, que não quer participar da família. 
Amo os três, e me vejo, agora, no centro desse círculo, porque assumi o compromisso de observar o trio. Soubesse antes, a complexidade da situação, e as variáveis envolvidas, e não teria... ora, eu teria me comprometido da mesma forma. Ninguém merece o que o Alex está vivendo, ou o pai dele, que também sofre com essa situação, para a qual não vê saída. A garota, por outro lado, com o seu dia a dia ocupado, e as certezas da pouca e rasa experiência, acho que não sofre; não percebe o mal que faz ao irmão ao decidir não se aproximar embora os riscos, nem o tanto que ele precisa dela, e como seria bom, para os três, que estivessem mais unidos. Tivesse ela consciência disso, talvez pudesse fazer algo para ajudar; por enquanto, vive a sua vida, e cresce no seu trabalho, como quem "nem tá aí". Como dizem, a ignorância traz paz ao espírito. 
Bem, gaiato nesse navio, eu navego em meio a dúvidas: 
Devo mostrar objetivamente ao Alex, que a ele compete sair, viver a sua vida, ocupar-se de si mesmo, antes e mais do que dos outros, encontrar equilíbrio nas suas emoções, sem se esconder nem tampouco se expor em demasiado? Afinal a vida é dele, só ele pode mudar, só ele deveria saber o que lhe convém.
Devo pedir ao meu amigo, para, talvez até junto com a filha, fazer um movimento no sentido de atrair o filho para o espaço gravitacional deles, de forma a que ele encontre segurança no seu núcleo familiar, se perceba aceito? Já até tentei provocar o assunto, mas meu amigo não acha que ainda haja alguma possibilidade de encontrar uma normalidade no comportamento do filho. Ele desistiu. Acha até que esse distanciamento pode ser terapêutico.
E quanto à filha?  Ela diz que seu irmão escolhe estar longe, e que, nos poucos momentos em que se encontram, ele os desperdiça provocando-a, criticando qualquer coisa que ela diga ou faça, que é insuportável ficarem juntos. Ela não vai mais tentar fazer nada. Acho que ela não percebe que a forma como ela vê o seu irmão, reforça esse comportamento negativo nele, e as coisas tendem a piorar para a família. Aqui, outra dúvida: Dizer isso para ela, não poderia prejudicá-la, colocá-la frente a frente com uma realidade conflituosa que ignora? Ela teria que rever um comportamento de anos, atitudes que sempre achou corretas, e com as quais viveu, cresceu, se tornou adulta e boa profissional; estará preparada para ser jogada de encontro às suas certezas?
Não vou ajudar, se deixar por isso mesmo, as coisas não vão mudar por si só. Por outro lado, como conversar com pessoas que têm, cada uma, somente certezas a respeito de si e do outro, e não percebem que precisam se abstrair de si mesmas, olharem de fora, para conseguir entender a situação em que estão envolvidas, e ter alguma chance de enxergar alternativas? Ora, bem que eu poderia ter  estudado Psicologia! Não sei, e não posso, me aventurar nos labirintos da mente, vou me contentar em ouvir de verdade o Alex, deixá-lo chorar, desabafar quando e quanto quiser, e, talvez, nalgum momento, vou poder dizer-lhe as coisas que pensei aqui.
Enquanto isso, vou pensar em mim. Os problemas dos outros, por vezes, nos estimulam a resolver os nossos próprios problemas.

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2026

FELIZ ANIVERSÁRIO

Cinco da manhã do dia 10
Ela saiu a passear.
Outras paisagens conhecer,
Ver os pássaros cantar.

Andou por todo o sítio
Se apaixonou pelo que viu.
Foi ver o sol nascer,
Seguiu a trilha até o rio.

Cansada dormiu sob a árvore,
Alimentou-se da natureza.
O tempo passou rapidamente,
Encantou-se com tanta beleza.

Mas tinha que voltar pra casa
Fugir da ventania
Melhor que qualquer novidade
Algo mais importante havia.

Mamãe, eu estou de volta
Hoje é dia 11 de fevereiro.
Nenhum outro lugar é melhor
Lugar nenhum tem seu cheiro.

Não fique triste, porém, 
Se outras vezes eu sair. 
Amor rima com liberdade,
Voltarei pra você sorrir.

Mia...u.

domingo, 8 de fevereiro de 2026

FELIZ ANIVERSÁRIO, ONTEM!

Semana passada foi meu aniversário! - Puxa, por que você não avisou?
Até eu às vezes esqueço, acredite; agora, imagine se iria avisar aos outros! 
É engraçado essa coisa de comemorar aniversários: Há quem faça absoluta questão de comemorar; há quem faça absoluta questão de comemorar o aniversário dos outros, e há quem não se lembre do aniversário de quase ninguém. Eu, por exemplo. 
Muitos dizem que eu não gosto de receber cumprimentos no meu aniversário, até mesmo pessoas muito próximas de mim dizem isso. Ledo engano! Gosto sim, gosto muito, apenas gosto que seja espontâneo, de coração, e por isso, escondo, o quanto posso, a data, para não receber cumprimentos apenas sociais, de pessoas que me conhecem só "de vista"; de colegas de trabalho, apenas colegas; de funcionários que talvez nem gostem de mim. Pela mesma razão também não gosto do programa "aniversariante do mês" e do "amigo oculto", que de tão oculto, continua não sendo amigo mesmo depois da brincadeira. - Fale algumas características do seu amigo, pra ver se adivinhamos. - O meu amigo oculto é..., hum..., bem, ele é o único que está vestindo camisa preta. Nossa, quanta amizade!
Um dia, na escola, uma professora dizia fazer questão de receber os parabéns: Eu sempre esqueço!!! Se é tão importante, me avise então na véspera, eu a alertei. E ela avisou. Passei na Casa Verde, colhi e montei, eu mesmo, um lindo buquê de rosas, lirios, palmas, antúrios e folhagens, e levei, feliz, para a escola, na hora da entrada, pra impactar. E impactei a todos mesmo: - Fernando, foi ontem o aniversário dela!, eles riram. Eu bem que te avisei, Carol!
Certa vez, umas oito da noite, eu, no trânsito voltando do trabalho, meu irmão me convida pra ir à sua casa.  Sua mulher fizera um prato que eu gostava muito. Dispensei. Ele insistiu. Eu também. Tava cansado e aborrecido, e não fui.  E era aniversário dele! Ainda aborrecido. 
Já lembrei do aniversário da minha mulher quando ia abrir a porta da nossa casa. Como lembrei, continuo tendo a chave.  
Eu sou um caso perdido, e acho graça de alguns que competem comigo nesse quesito:
Recebi msg de minha irmã, no dia seguinte ao meu niver sem nenhuma menção ao atraso. 
Um casal de cunhados queridos que nunca esquecem, também enviaram msg uns dias depois. "- Sempre acho ser dia cinco."
Minha prima, com quem falo sempre, pediu meu número à minha irmã, disse tê-lo perdido, e então me enviou uma msg.
Um amigo sempre comenta que meu aniversário acontece durante um congresso do qual participamos todo ano. Neste ano, na véspera do dia, ele falou que iríamos cortar o bolo no dia seguinte. Eu viajei no dia, e ele esqueceu!
Outros, que também participam do mesmo congresso, sempre esquecem. Eu não me incomodo que não se lembrem, sei quem me quer bem... acho.
Já aprendi, porém, com quem se lembra e valoriza, que comemorar o dom da vida, agradecer por ela, homenagear os que gostam de nós e de quem gostamos, é importante, então, que cada um o faça de seu jeito e que todos participemos... se lembrarmos.
Meu pai, um advogado sem nem  mesmo o colegial, adorava fazer aniversário, sempre queria fazer festa e discurso de gratidão. Ele tinha muitos argumentos e sabia usar. Poderia até ser ministro, afinal...
Fernando Sabino conta ter sido testemunha ocular do aniversário de uma menininha pobre, comemorado pelos pais na lanchonete, com uma pequena fatia de bolo comprada a duras penas. Uma oração, uma vela usada, uma singela festa de três, e era suficiente. Felicidade na simplicidade.
Meus pais fizeram uma festa de aniversário pra mim, com direito a bolo e cajuzinhos, quando eu fiz dez anos, acho que vou fazer a segunda, sessenta anos depois!
Veríssimo, porém, outro xará, diz que o "parabéns", após uma certa idade, soa irônico e meio temerário.  Fazemos aniversário, e os aniversários vão nos desfazendo. Acho que concordo, não pensei que chegaria a tantas dezenas de anos que nem vi passar, porém, como não me cantaram muitos parabéns, também acho que estou com crédito. Então, até o próximo fevereiro, sem "parabéns pra você".

domingo, 18 de janeiro de 2026

O MURO E O RATO

O muro prometia forças,
O muro prometeu alegrias,
Coragem, resistência, energia.   
O muro pariu um rato. 

Três meses de vida "normal",
Mas por novos hábitos, regrada. 
Vida em alerta para não voltar.
Vida sofrida, lenta, parada. 

O muro, se abrindo, revelou,
Que a luta é O caminho 
E que é nobre lutar.

Há que se viver um dia, 
Para obter direito de viver outro,
E no dia seguinte recomeçar.

O muro fechado, convida 
A para ele não retornar.
A vida extramuros é tudo.