domingo, 26 de abril de 2026

COM QUE ROUPA EU VOU PROS 70?

Em torno dos sessenta e cinco anos, você não pode ter saudade do passado, menos ainda exprimir essa saudade; não pode reclamar do progresso, ainda que manifestamente ruim determinada mudança. Jovem pode, mas você... Você estará em descontrole emocional, em negação, revoltado com a idade. Imagine então reclamar de estar ficando velho, porque se cansou numa escada, numa pequena corrida, porque se enrolou com vários compromissos simultâneos, ou ficou gripado por uma simples garoa!!! Só jovem pode. Ele estará brincando, você, deprimindo.
Mas quando deixamos de ser jovens? Quando perdemos o direito de decidir o que comer, beber, vestir ou falar? De fazer o que temos vontade, e se temos vontade. Qual é o limiar, a fronteira entre o jovem e o velho, que estabelece limites à capacidade do indivíduo? E desde quando uma regra que serviu pra um, servirá certamente para outro, que não necessariamente terá o mesmo biotipo, as mesmas histórias, as mesmas experiências, os mesmos gostos, a mesma resiliência?
Perguntas assim, e outras tais, precisamos fazer, quando estamos ou estivermos indo para o número 70 da Rua Futuro. "Com que roupa eu vou?" já perguntava Noel. Precisamos saber pra não fazer feio, ou estaremos nus.
Eu, quase sete décadas bem vividas, conscientemente busco ouvir os mais jovens, e falar a eles; ouvir os mais velhos, e conversar com eles; revisitar o passado e me confraternizar com ele; trabalhar o presente, e no presente, buscando viver outras décadas sadias, produtivas e alegres como as que passaram.
Tenho objetivos, acordo cedo, saio da cama cedo, mas agora já não tenho pressa, penso primeiro no que vou fazer do meu dia. Preparo o café pra nós dois, ou, se já está pronto, tomamos o café da manhã com calma, e conversamos sobre qualquer coisa, além de sobre os primeiros passos do dia.
A partir de então, pode acontecer tudo muito rápido ou tudo devagar, muitas ou poucas coisas, mas não faltarão contatos com pessoas, leitura, exercícios físicos, cálculos, tomadas de decisão, planejamento e execução do almoço, orçamento de uma venda ou de uma compra, cuidados com o jardim e/ou a horta, subir o morro a pé ou de carro, falar com um professor do colégio ou com uma mãe de aluno. Mantenho-me ocupado.
Ah, preciso fechar o meu dia: ainda teve o café da tarde, o banho pra aquecer do frio da serra, o jantar, a pausa pra assistir um filme na TV! Vou dormir tarde, na cama, digo, pra acordar cedo, e de novo arrumar a cama e repetir a rotina, que, na exata acepção da palavra "rotina", de rotina mesmo não tem nada, porque os dias nunca são os mesmos, até o sol pode vir diferente, ou não vir, a natureza pode estar mais ou menos verde, ou colorida, e eu, posso estar mais ou menos animado, e tudo bem.
Às vezes acontece tudo. Às vezes nada. Às vezes só o que importa. E tá tudo bem. Às vezes viajamos a passeio, às vezes a trabalho, na maior parte das vezes a trabalho e passeio. E no tempo livre - se não pintar eu libero um - vou escrevendo sobre o meu passado, o que lembro de mim ou de outros, o meu presente - o meu e o do mundo em que vivo, os meus amigos - você e o seu mundo, os meus pensamentos e sentimentos - nem sempre fiel ao que pensei ou senti, por limitação de vocabulário, os meus parentes e amigos de sempre - a maioria nem sabe que escrevi. São fragmentos do meu mundo, que vou registrando pra não esquecer. O passado não pode ser deletado, só ele dá sentido à vida, me compraz relembrar tantos caminhos trilhados, inclusive as encruzilhadas nas quais, tantas vezes, escolhi o lado errado. Não aceito o patrulhamento de pensamentos e sentimentos.
Faço parte de uma geração privilegiada, que viu nascer, e viveu, tantas coisas novas, tantas descobertas, um admirável mundo novo, que errar era natural e esperado, tentar de novo era necessário, e, entre um e outro, a vida mudava, e não se discute se pra melhor ou pior, essa avaliação dependerá de cada um. As histórias construídas no decorrer das décadas, as vivências, os erros e os acertos, sinalizam, quase antecipam, como serão as décadas finais, e será essencial buscar equilíbrio entre o passado vivido e o futuro a viver, entre o que dá prazer e o que causa estresse, entre muitos amigos e amigos de verdade, entre passear muito ou passear quando quiser, entre fazer pra si e por si, e fazer pelos outros.
Muita gente - psicólogos, geriatras, os indefectíveis onipresentes educadores físicos e seus seguidores jovens ou velhos, profetas do apocalipse da minha geração - preveem uma velhice triste, depressiva, dependente, solitária, e tantos adjetivos negativos mais que se conheça, da qual, aparentemente, não conseguiremos escapar, a menos que dediquemos horas do nosso dia a exercícios físicos, outras horas a exercícios mentais, outras ao sono, outras a atividades compartilhadas com outros idosos. Imagino que também pensem em horas de trabalho. Haja tempo no dia! E haja paciência para compartilhar com velhos que se acham velhos!
Não bastará isso, porém; necessária uma alimentação regrada: nada de carne de porco. Seis ovos por dia. Pouco arroz ou macarrão, uma fatia de pão, se for integral! Presunto, linguicinha, cervejinha... hein?! Haja... paciência!
Em nome de um futuro que se adivinha sadio, restringem-se pequenos prazeres do dia a dia, censuram-se pequenos confortos que não eram possíveis nos anos anteriores, com família a sustentar, metas a bater, compromissos a honrar; e o infeliz que pensou finalmente poder descansar e curtir a vida que sonhou, sente que era utopia, aquela vida deveria ter sido vivida antes, agora é tarde demais, agora não há liberdade, e o tal futuro sadio parece miragem, a cada dia mais distante.
Por isso, semana passada visitei a cidade da minha infância, revi parentes, amigos, lugares. Hoje eu comi um galopé. E amanhã, se eu quiser, como de novo. 
E continuo trabalhando.

Um comentário:

  1. E a vida segue seu rumo, ainda que sejamos um pouquinho desobediente a ela. Não é? Pensar na e em idade com tanto movimento assim como escreveu, não é ruim; antes, é gratificante. Parabéns!

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