/Essa noite tive um sonho, acordei pensando em ti, sonhei que eu não era seu primo, você era um jabuti. /Lá no alto daquele morro, passa boi, passa boiada, só não passa o Manelzinho, da cabeça achatada. /Maria Antonha, se eu cair você me panha...
Há cinquenta anos, entre famílias e vizinhos, as crianças brincavam em casa, e brincavam criando rimas, contando e recontando histórias. Meu primo Manoel, um pouco mais novo que eu, divertia e cansava a gente, com histórias que não acabavam nunca, e que ele inventava na hora. Não sabíamos na época, mas aqueles encontros e aquelas brincadeiras valiam como aulas, eram verdadeiros exercícios para os nossos cérebros ávidos de estímulos. Só que inventar demorava demais, e as histórias davam sono. E quando terminava a noite (umas dezenove ou vinte horas, se tanto!), ainda teríamos que enfrentar uns bons quilômetros, a pé, até a nossa casa. Mal chegávamos, porém, e já gostaríamos de voltar! Velhos tempos, belos dias, cantava já o rei, e eu canto hoje; hoje quando a Inteligência Artificial cria histórias e poemas, desenvolve teses, faz projetos, clona vozes e fotografias, e engana muita gente, gente que até se imagina autores mesmo, quer dizer, imaginar é força de expressão, porque imaginação é exatamente o que a IA nos rouba. Imaginação tinha o Manelzinho, e que faltará a muitos Enzos, Caios, Lunas e Maitês, que, incapazes de imaginar, não saberão fazer as perguntas certas para as respostas que buscam, não saberão avaliar as respostas que recebem, e enquanto insistem, transferem às máquinas uma gama infinita de informações, sentimentos e emoções, que somente o ser humano pode ter, e que até então, eu pensava fossem intransferíveis.
Esse assunto me ocorreu a partir de um encontro, no Colégio Estadual Pe. Madureira, em homenagem à turma do terceiro ano do ensino médio, e a convite da professora Roneida, não por acaso minha querida irmã.
As ideias e sentimentos que observamos nas conversas com os alunos, nos mostraram que nem tudo está perdido, que ainda existe esperança. O Matheus desenha, e embora ciente de que a IA faria um desenho mais bonito que o seu, vai redesenhar a sua primeira peça, além de continuar desenhando e expondo; Yuri, se orgulha do brinquedo a pilha que ganhou, e jamais o trocaria por um robô; as meninas ( Nicolly, Luysa, Gabriela, Michelle, Pamela, Juliana) choram, literalmente, e nos fazem chorar, por suas avós e seus animais, saudosas porque morreram ou emocionadas por estarem ao seu lado; Daniel prefere guardar para si os seus sentimentos, demonstrando valorizar a privacidade, em claro desencontro com as redes sociais.
O relógio, o batom - últimos presentes - a memória das últimas palavras, os brinquedos dos animais amigos, e as lágrimas desses jovens, são a bela surpresa da manhã chuvosa, é disso que precisamos para salvar a humanidade da humanidade: de humanidade. Andar de bicicleta, como o outro Matheus, escrever cartas de amor e amizade, guardar uma peça quebrada, como o Marllon, só pelo que ela representa, chorar pelos entes queridos, amar os animais, não ter vergonha de exprimir as emoções, e nem medo de errar... voltar um pouquinho no tempo, desacelerar o progresso, ter mais tempo pra si e os seus.
Como eu disse lá, foram momentos inesquecíveis. Continuem assim... humanos. E obrigado pelo convite... queria ter ficado mais.