quinta-feira, 30 de outubro de 2025

QUERIA TER FICADO MAIS

/Essa noite tive um sonho, acordei pensando em ti, sonhei que eu não era seu primo, você era um jabuti. /Lá no alto daquele morro,  passa boi, passa boiada, só não passa o Manelzinho, da cabeça achatada. /Maria  Antonha, se eu cair você me panha...
Há cinquenta anos, entre famílias e vizinhos, as crianças brincavam em casa, e brincavam criando rimas, contando e recontando histórias. Meu primo Manoel, um pouco mais novo que eu, divertia e cansava a gente, com histórias que não acabavam nunca, e que ele inventava na hora. Não sabíamos na época, mas aqueles encontros e aquelas brincadeiras valiam como aulas, eram verdadeiros exercícios para os nossos cérebros ávidos de estímulos. Só que inventar demorava demais, e as histórias davam sono. E quando terminava a noite (umas dezenove ou vinte horas, se tanto!), ainda teríamos que enfrentar uns bons quilômetros, a pé, até a nossa casa. Mal chegávamos, porém, e já gostaríamos de voltar! Velhos tempos, belos dias, cantava já o rei, e eu canto hoje; hoje quando a Inteligência Artificial cria histórias e poemas, desenvolve teses, faz projetos, clona vozes e fotografias, e engana muita gente, gente que até se imagina autores mesmo, quer dizer, imaginar é força de expressão, porque imaginação é exatamente o que a IA  nos rouba. Imaginação tinha o Manelzinho, e que faltará a muitos Enzos, Caios, Lunas e Maitês, que, incapazes de imaginar, não saberão fazer as perguntas certas para as respostas que buscam, não saberão avaliar as respostas que recebem, e enquanto insistem, transferem às máquinas uma gama infinita de informações, sentimentos e emoções, que somente o ser humano pode ter, e que até então, eu pensava fossem intransferíveis. 
Esse assunto me ocorreu a partir de um encontro, no Colégio Estadual Pe. Madureira, em homenagem à turma do terceiro ano do ensino médio, e a convite da professora Roneida, não por acaso minha querida irmã. 
As ideias e sentimentos que observamos nas conversas com os alunos, nos mostraram que nem tudo está perdido, que ainda existe esperança. O Matheus desenha, e embora ciente de que a IA faria um desenho mais bonito que o seu, vai redesenhar a sua primeira peça, além de continuar desenhando e expondo; Yuri, se orgulha do brinquedo a pilha que ganhou, e jamais o trocaria por um robô; as meninas ( Nicolly, Luysa, Gabriela, Michelle, Pamela, Juliana) choram, literalmente, e nos fazem chorar, por suas avós e seus animais, saudosas porque morreram ou emocionadas por estarem ao seu lado; Daniel prefere guardar para si os seus sentimentos, demonstrando valorizar a privacidade, em claro desencontro com as redes sociais. 
O relógio, o batom - últimos presentes - a memória das últimas palavras, os brinquedos dos animais amigos, e as lágrimas desses jovens, são a bela surpresa da manhã chuvosa, é disso que precisamos para salvar a humanidade da humanidade: de humanidade. Andar de bicicleta, como o outro Matheus, escrever cartas de amor e amizade, guardar uma peça quebrada, como o Marllon, só pelo que ela representa, chorar pelos entes queridos, amar os animais, não ter vergonha de exprimir as emoções, e nem medo de errar... voltar um pouquinho no tempo,  desacelerar o progresso, ter mais tempo pra si e os seus. 
Como eu disse lá, foram momentos inesquecíveis. Continuem assim... humanos. E obrigado pelo convite... queria ter ficado mais.

segunda-feira, 27 de outubro de 2025

PALHAÇOS, PROFESSORES E BOMBEIROS

Reunidos na cozinha, ao redor do fogão, como fazem todas as noites, a família conversa sobre o dia, e os dias. Numa dessas ocasiões o filho se sai com essa: "Pai, quando crescer quero ser palhaço." Todos riem, o circo estava na cidade. Noutra família, os pais querem saber o que a filha quer ser  e ela responde, sem exitar, que, bombeira. Também aqui riram. O uniforme, e os veículos vermelhos e com sirenes, chamam mesmo a atenção de todos, especialmente dos pequenos. 
O Colégio Rumo Certo, onde ambos estudam, promovia anualmente um teste vocacional, traçando os perfis dos alunos. Não apareciam palhaços, às vezes alguns queriam ser militares, mas eram mais comuns tendências para medicina, magistério, engenharia, veterinária, e alguns, ainda indefinidos. 
Numa outra família e em outro momento, o filho surpreende a mãe, ao pausar o videogame pra dizer que queria sair da escola e aprender a programar jogos de computador - "Renda certa e rápida, mãe, e é um trabalho "da hora"! "Sua irmãzinha, que o ouvira do quarto onde estivera desde que voltara do colégio, gritou que também não queria mais estudar, ela já ganhava alguns trocados divulgando produtos e se apresentando como modelo nas redes sociais, e com mais tempo disponível, certamente ganharia mais dinheiro. Os pais se entreolharam pasmados, talvez nem soubessem que sua filhinha de dez anos, proibida até de cantarolar uma música dita secular (somente gospel era permitido), estaria posando, na privacidade do seu quarto, para milhares ou milhões de estranhos, sem qualquer privacidade e sem controle. 
O Colégio Novo Rumo realizava, naqueles dias, outra rodada de pesquisa e estudo com seus alunos, buscando ajudá-los a identificar as suas aspirações e orientá-los o quanto possível quanto às carreiras profissionais para as quais tinham perfis ou tendências. O estudo demonstrou que poucos gostariam de ser médicos ou engenheiros, que nenhum queria ser professor, que todos queriam exercer funções e profissões que trouxessem resultados imediatos, e que tivessem o glamour que as redes sociais oferecem. 
Enquanto o nosso colégio deixava de ser Rumo Certo para ser Novo Rumo, mas com a meta de que o novo também fosse o certo para os novos tempos, ser médico ou engenheiro passou a ser menos interessante, e ser professor (nem pensar!) deixou de ser uma profissão admirada e almejada pelos jovens, na medida em que mal remunerada e sem apoio dos setores público e privado. 
Não temos mais jovens querendo ser bombeiros, a geração Z não quer riscos e stress. E não temos mais circos pelas cidades. Mas temos nós, os adultos, muitos de nós que ainda acreditamos que governos podem substituir as famílias no dever sagrado de educar nossos filhos. Aos governos cabe ofertar a educação, mas às famílias compete fazer a sua parte, é preciso trabalho, unido e persistente, em prol de que a educação seja efetiva e eficaz. É preciso derrubar o mito da educação para todos representada por promoções anuais consecutivas, pela chantagem da frequência em troca de refeições, pela promessa às famílias de que nossos filhos sairiam de escolas gratuitas com um diploma na mão e um emprego a esperá-los na esquina. 
Isso é um engodo, um ledo engano. Empresas não contratam diplomas, mas profissionais. Profissionais dependem de bons professores para se formarem. Alunos não querem ser professores mal remunerados. Professores, obrigados a dupla e até tripla jornada, e tendo que promover alunos despreparados, não têm tempo e nem interesse em se aprimorarem.  E o círculo vicioso se fecha, sem deixar chance à esperança.
Eu tenho uma amiga, muito amiga, muito antenada, muito preparada e muito crítica - feliz de quem tem! E ela me diz, quando lê um texto meu (sempre lê e sempre diz), que eu reclamo e exponho as mazelas, mas não apresento soluções. E é assim mesmo, eu sei. O que eu não sei é justamente a solução!
Ontem, sábado, num curso de Compreensão Leitora que nosso colégio oferece aos professores, com a Prof Carmem Lúcia Goebel, o professor convidado Alfredo Cunha, nos apresentou ao ditado africano "É preciso uma aldeia inteira para educar uma criança". Nessa grande Aldeia Brasil, o povo não se sensibiliza pela educação, os políticos não priorizam o povo, os governos não governam para o povo, educação é só mais um serviço dentre os demais tão mal prestados, e o padrão se estende às demais camadas sociais, onde empresários nunca podem ajudar, pais se confortam culpando o governo, e até professores estafados, já não reagem mais, e seguem a onda. Como Pilatos, lavamos as mãos, e assim, abandonamos as gerações futuras. 
Desculpe amiga, mas não vejo solução mesmo! Seria necessário que a aldeia inteira se unisse, ênfase para "inteira", e que todos trabalhassem para e pela educação, pensando no bem de todos, não de uns. Mas como isso iria acontecer, se mesmo quando um ou outro ajuda altruisticamente, é visto com desconfiança, porque não estamos acostumados à ajuda sincera, não movida por interesses mesquinhos? Quem precisa de ajuda desconfia de quem quer ajudar, e quem se aventura a ajudar, se decepciona e desanima, e novamente o círculo vicioso se fecha. E a esperança perde novamente.
Quando eu crescer, gostaria de aprender.

sábado, 4 de outubro de 2025

YOM KIPPUR

Era tarde, eu dormia, numa rede encostado molemente. Até parece o início de um poema de Castro Alves, mas a semelhança é só essa, já que acordei e me deparei com um mundo diferente do que deixei ao adormecer. Não havia mais os ruídos costumeiros e a balbúrdia conhecida da cidade grande. Perdera, o meu mundo, o frissom do qual parece se alimentar, ou ele adormecera junto comigo, e eu acordei antes?
Curioso fiquei, e como todo curioso deve fazer, fui investigar, não sem antes ir ao banheiro lavar a baba do rosto.
Abro a porta do AP, numa movimentada rua da Tijuca, o velho bairro do Rio de Janeiro. O corredor, espaçoso e silencioso, parece solitário e triste sem o som da TV do meu vizinho de lado, e o canto da Alexa em volume dez, do vizinho doutro lado. Meu terceiro vizinho raramente abre a porta, dele não se ouve mesmo qualquer ruído, seja dia, seja noite.
Chego ao elevador, pressiono o botão "desce", e ele não se anima, continua apagado, também adormecido. Insisto ainda uma e duas vezes, mas com o mesmo resultado, nenhum. Desço as escadas. O que são vinte e quatro pequenos lances, dois por andar? Pra baixo todo santo ajuda, dizia meu pai.
No térreo, não há funcionário na recepção, tenho que usar minha chave para abrir a portaria e sair para a Conde de Bonfim, onde tenho o hábito de respirar de forma mais curta e menos profunda, na vã tentativa de não inspirar muita poluição. Mas, onde estão os veículos, aliás, onde está todo mundo?!!! Poucos veículos, nenhum táxi, poucos pedestres, nenhum comércio funcionando, nem mesmo o bar onde eu pensara tomar um café. Ando mais um pouco, porém sou desestimulado pelo calor da tarde/noite e pelos obstáculos nas calçadas - lixo, caixas, buracos, obras etc. Melhor voltar pra casa e curtir uma noite, ao que tudo indica, tranquila e silenciosa. Chego, um pouco cansado, ao meu prédio e... esquecera, não tenho elevador. Meu pai só falava em ajuda dos santos para descer, para subir penso que terei que contar mesmo só com minhas pobres pernas, então, conto os lances da escada, não tão pequenos como me pareceram antes. 
Entro em casa, ligo a TV bem baixinho para não ferir o silêncio do mundo, descubro que hoje é o Dia do Perdão, para os judeus. O dia em que perdoam-se a si mesmos e aos outros, se reconciliam com Deus em orações, reflexões e sacrifícios como jejuar, não usar perfumes e nem telefones, não fazer sexo, não trabalhar, não dirigir, nem mesmo apertar um botão de elevador. 
De repente, o som estridente de uma buzina assusta, outras não tão incômodas fazem coro, a Alexa do vizinho reproduz um ruído que ele chama de música, meu mundo despertou, e eu volto para a minha realidade.
Acordado, penso em como seria não usar telefone (pelo menos o celular), não usar automóvel (só coletivos e bicicletas), nos conectarmos mais a Deus, (apagar a luz e calar a voz, como sugere Gil), e nos arrependermos com sinceridade, passando a sempre buscar o bem. 
Eu revi recentemente um filme, no qual um vidente afirma mais ou menos o seguinte: "Se você olha para o futuro, o futuro se modifica porque você olhou pra ele, e isso muda todo o resto." 
Olhando por esse prisma, melhor não insistir em saber como seria o mundo modificado por meus sonhos, já bastam os senhores das armas, das togas e das faixas, a interferir tanto nos nossos destinos. Eles olham para o futuro, quase sempre por razões equivocadas e egoístas, e o modificam, e nós pagamos a conta.
Pai, perdoai-os, eles não sabem o que fazem! Eu não sou Judeu e nem Jesus, para mim é mais difícil.