sábado, 4 de outubro de 2025

YOM KIPPUR

Era tarde, eu dormia, numa rede encostado molemente. Até parece o início de um poema de Castro Alves, mas a semelhança é só essa, já que acordei e me deparei com um mundo diferente do que deixei ao adormecer. Não havia mais os ruídos costumeiros e a balbúrdia conhecida da cidade grande. Perdera, o meu mundo, o frissom do qual parece se alimentar, ou ele adormecera junto comigo, e eu acordei antes?
Curioso fiquei, e como todo curioso deve fazer, fui investigar, não sem antes ir ao banheiro lavar a baba do rosto.
Abro a porta do AP, numa movimentada rua da Tijuca, o velho bairro do Rio de Janeiro. O corredor, espaçoso e silencioso, parece solitário e triste sem o som da TV do meu vizinho de lado, e o canto da Alexa em volume dez, do vizinho doutro lado. Meu terceiro vizinho raramente abre a porta, dele não se ouve mesmo qualquer ruído, seja dia, seja noite.
Chego ao elevador, pressiono o botão "desce", e ele não se anima, continua apagado, também adormecido. Insisto ainda uma e duas vezes, mas com o mesmo resultado, nenhum. Desço as escadas. O que são vinte e quatro pequenos lances, dois por andar? Pra baixo todo santo ajuda, dizia meu pai.
No térreo, não há funcionário na recepção, tenho que usar minha chave para abrir a portaria e sair para a Conde de Bonfim, onde tenho o hábito de respirar de forma mais curta e menos profunda, na vã tentativa de não inspirar muita poluição. Mas, onde estão os veículos, aliás, onde está todo mundo?!!! Poucos veículos, nenhum táxi, poucos pedestres, nenhum comércio funcionando, nem mesmo o bar onde eu pensara tomar um café. Ando mais um pouco, porém sou desestimulado pelo calor da tarde/noite e pelos obstáculos nas calçadas - lixo, caixas, buracos, obras etc. Melhor voltar pra casa e curtir uma noite, ao que tudo indica, tranquila e silenciosa. Chego, um pouco cansado, ao meu prédio e... esquecera, não tenho elevador. Meu pai só falava em ajuda dos santos para descer, para subir penso que terei que contar mesmo só com minhas pobres pernas, então, conto os lances da escada, não tão pequenos como me pareceram antes. 
Entro em casa, ligo a TV bem baixinho para não ferir o silêncio do mundo, descubro que hoje é o Dia do Perdão, para os judeus. O dia em que perdoam-se a si mesmos e aos outros, se reconciliam com Deus em orações, reflexões e sacrifícios como jejuar, não usar perfumes e nem telefones, não fazer sexo, não trabalhar, não dirigir, nem mesmo apertar um botão de elevador. 
De repente, o som estridente de uma buzina assusta, outras não tão incômodas fazem coro, a Alexa do vizinho reproduz um ruído que ele chama de música, meu mundo despertou, e eu volto para a minha realidade.
Acordado, penso em como seria não usar telefone (pelo menos o celular), não usar automóvel (só coletivos e bicicletas), nos conectarmos mais a Deus, (apagar a luz e calar a voz, como sugere Gil), e nos arrependermos com sinceridade, passando a sempre buscar o bem. 
Eu revi recentemente um filme, no qual um vidente afirma mais ou menos o seguinte: "Se você olha para o futuro, o futuro se modifica porque você olhou pra ele, e isso muda todo o resto." 
Olhando por esse prisma, melhor não insistir em saber como seria o mundo modificado por meus sonhos, já bastam os senhores das armas, das togas e das faixas, a interferir tanto nos nossos destinos. Eles olham para o futuro, quase sempre por razões equivocadas e egoístas, e o modificam, e nós pagamos a conta.
Pai, perdoai-os, eles não sabem o que fazem! Eu não sou Judeu e nem Jesus, para mim é mais difícil. 

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