domingo, 30 de novembro de 2025

A FAMÍLIA, AS CASAS, O TEMPO

Dois irmãos cariocas.
Família pobre de marré deci, 
Nascidos na zona oeste,
Donde queriam fugir. 

Viram o pai ser agredido,
Foram de casa despejados, 
Viram a casa pegar fogo,
Que mais poderia dar errado? 

Interior do interior, luz não tinha, 
Água só na biquinha do quintal. 
Trabalho para o pai, mãe na cozinha, 
Aventuras em cavalos de pau.

Fernando aprendeu a ler com o pai 
Analfabeto, mas criativo, 
Como a Felícia da Maria Clara*, 
Era inteligente e inventivo. 
 
Lobisomens, mulas sem cabeça,
Saci pererê, velha bruxa,
Medo da curva da cruz, 
Até o pai levava a garrucha.

Ganharam uma irmãzinha,
E os dias, lentos, passavam. 
Agora três eles seriam,
Os garotos antecipavam. 

Ainda crianças, mudaram pra cidade, 
Uma vila chamada Varre-Sai. 
Duas ruas calçadas por pedras, 
De terra batida, umas duas mais. 
 
Voavam velozes, qual avião, 
Os dois ao mesmo tempo, 
O menor no quadro ou no guidão,  
E o maior desafiando o vento. 

Bicicleta sem freios, caíram muitas vezes, 
As valas das chuvas os atraíam. 
Cavalos de pau eram mais seguros. 
Joelhos e braços ardiam. 

A resistência dos dois crescia,  
Os saberes também. 
Outra irmã juntou-se ao trio. 
A cada dois anos, um filho vem. 

Primeiro ano de escola. 
Bullying  já existia, era sofrido. 
Para o mais forte ou o mais rico, 
Mãe tinha um bambu comprido. 

A cidade estava cara, 
Trabalho faltava, e dinheiro. 
Voltaram para roça, de novo
Sem luz, sem água e banheiro. 

O pai foi cuidar de animais. 
E pés de café arrancar. 
Comprou uma máquina Singer
Pra mãe poder ajudar. 

A máquina, a mãe dominava, 
Calça, camisa, saia, vestido. 
Ela agora costurava,
Mas tudo era muito parecido. 

Ela era muito procurada,
Todos a encomendar um corte. 
Pra nossa casa e pros vizinhos,
Nossa mãe era o suporte. 

Os garotos iam para a escola,
Quilômetros em sola de sapato. 
No embornal, abóbora ou couve, 
Dá direito a repetir o prato. 

Com seis e oito anos conheciam, 
Todos os insetos que existiam. 
E aprendiam com os pais, 
Que a natureza vale mais.

Cobras que sem ameaça não picam, 
Jacas que penduradas ficam. 
Cavalos de verdade pra buscar leite, 
Boi bravo faz voar por baixo do piquete. 

Maribondos que picam garotos,
Se tiram folha de bananeira,
Pra mãe espalhar o doce
Que se esfria dessa maneira.
 
Arnica que se colhe no pasto, 
E que cura muitos males. 
E capim vassoura, como o nome diz, 
Faz a limpeza dos lares. 

Fogão de lenha, com barro branco, 
Que a cada mês se reforma, 
E cocô de boi, fresquinho e cremoso, 
Que mantém o piso cheiroso.

O Almanaque do Tio Patinhas,
Que produziu leitor voraz.
O pai comprou como livro, 
E sem saber, foi sagaz. 

Mas ele, muito agitado,
Nunca ficava parado. 
Então voltaram para a cidade, 
Em busca de oportunidade. 

Chegou fogão a gás, ainda não a geladeira. 
E sem TV, outra irmã vinha chegando. 
Já eram quatro, agora cinco, 
Mas quem estava contando?

Os garotos se deram bem, 
Em frente ao colégio, na cidade!
Novas aventuras e problemas, 
E muito mais novidades.

O pão com manteiga como do Júlio, 
A mãe não conseguiu preparar. 
Era margarina sem sal, horrível! 
Não a podiam culpar. 

O barranco era quase uma montanha,
Segurando numa ponta de raiz,
Subiam e desciam como aranha, 
Quando veio o acaso infeliz. 
 
Um domingo terminou, 
Tarde fresca e de mormaço, 
O sentido de aranha falhou.
Fernando caiu, torceu o braço. 

A benzedeira da cidade vai benzer. 
Eu cozo, te cozo, vou cozer. 
E repetindo o mantra até cansar, 
O braço do garoto vai curar. 

O braço se curou, 
A vida continuou. 
Muitas travessuras 
Numa vida de aventuras.

Quatro casas depois, trabalhando em balcão,
Fernando comprou liquidificador e televisão. 
O suco de maçã não era tão gostoso, 
Mas Star Trek era demais, e vicioso!

Copa do Mundo em setenta e quatro,
Seremos campeões outra vez?!
E Fabiano chegou. Se lembra?,
Éramos cinco, agora seis. 

Ainda uma casa, depois uma cidade nova. 
Bom Jesus, duas casas ali.
Outro lugar bom, Nova Friburgo. 
Mais duas casas aqui.

Em Bom Jesus trabalharam, 
Também lá se casaram,
Também lá tiveram filhos , 
E a vida adulta começaram. 

Do calor do Rio e de Bom Jesus, 
Tudo que queriam era escapar. 
Fernando levou pais e irmãos 
Para, em Friburgo, refrescar. 

Somente então o pai parou.
Contra a vontade. É o tempo. 
De verdade, nunca aceitou, 
Mas não tinha argumento. 

Realizou tanta coisa, 
Tanta história construiu. 
E trabalhou até o fim, 
Contra o tempo insistiu.

Os meninos da história
Foram crescendo ricos,
Em vida, em saúde, 
em conhecimento e amigos. 

Seguiram caminhos parecidos. 
Suas origens não esqueceram. 
E depois de muitos anos
Trabalhar juntos, resolveram. 

Um foi lojista, bancário, 
Entre um e outro, escrivão. 
Outro trabalhou no comércio, 
Em banco e na Educação. 

Um casou e ficou. 
Outro descasou e voltou a se casar. 
Ambos jamais deixaram
De a família preservar. 

Como seu pai, resistem ao tempo,
Mas o tempo só sabe passar... 
E passa.

                                                  *Maria Clara Cavalcanti 
                                          uma questão de jardinagem
                                                Hum. Publicações - 2016

domingo, 23 de novembro de 2025

ARTE QUE ABRAÇA E FAZ CRESCER

Roneida, incansável, organizou no nosso Colégio, uma exposição de trabalhos de artistas da região, que ela intitulou "ARTE QUE ABRAÇA". O evento encerrou um ano de inúmeras atividades artísticas, intelectuais e pedagógicas, começando com a inauguração da Biblioteca Marina Colassanti, palco de desfiles de diversos ilustres autores da região, como Anabelle Loivos,  Maria Clara Cavalcanti, Bia Canella,  Maddi Mattos, Janimary, Lúcia Pouchain etc, e berço do nascimento do prazer pela leitura em nossas crianças e jovens, e até em alguns adultos que, desarmados, nos visitaram. 
Da mostra, participaram artistas como Lúcia Mineiro e Ângela com suas tapeçarias e pinturas, Bruna, Carmem e Inês, com arte em cerâmica, Lúcia Pouchain e Bruna com pintura, Lia Luz tbém, mas... com os pés!, o Wanderlei com seus trabalhos em madeira, Elizete e Neuza com croché, Marcy com sua arte em jeans, João e Matheus (não é dupla sertaneja!), com seus desenhos, Rafaelly e Jhuly - também não é dupla - que são jovens, quase crianças, com alma e espírito adultos, escrevendo com fluidez e profundidade sobre temas atuais; Rosilene, minha outra irmã,  tímida  curiosa e profunda como os gatos cuja história conta, e que foi corajosa ao aventurar-se, com êxito, nas letras; até eu estive por lá. O Edgar, qual cientista maluco, com sua ampulheta de luz que marca a linha do tempo e lembra a finitude da vida, mas também que ela pode ser bonita e brilhante; também é dele o caleidoscópio, que bem poderia espelhar as mais diversas formas de se enxergar esses artistas que, mais que exporem, aqui se expuseram, uns muito jovens, outros muito menos; uns muito experientes, outros parecendo admiravelmente experientes; uns de letras, outros de mãos; uns da madeira, outros das tintas, e tecidos, e agulhas; uns de vida, outros... também.
Patrícia Nogueira, escritora friburguense, lembrada por uma leitora no nosso grupo de leitura, escreveu: "... a palavra também é corpo, também sangra, também resiste ". Os textos que vimos na exposição, confirmam a afirmativa. Eles, e os demais trabalhos que vimos, lançam luz sobre a quantidade e qualidade de artistas e pensadores que resistem por aí, escondidos, desvalorizados, desestimulados... sangrando. Janimary, no encerramento, e não por acaso, falou-nos um pouquinho sobre empreendedorismo, uma alternativa ao alcance de todos, que pode levar esses artistas a saírem a céu aberto, se autopatrocinarem, e buscarem sobreviver de sua arte, e talvez fazerem do mundo um lugar melhor. Exposições assim, despretensiosas, servem também pra isso, dar corpo e voz a quem nunca aparece, nunca é ouvido, e acaba achando natural.

quarta-feira, 12 de novembro de 2025

SARAU (Uma homenagem à minha irmã)

 Eu só conhecia sarau, de ler e ver "A Moreninha", de Joaquim Manoel de Macedo. Roneida trouxe o sarau pro Colégio, numa tarde/noite de sábado, que estava fria e assim ficou por pouco tempo. 
Aniversário de Cecília - a Meirelles - bombando, também muitos textos de Manoel de Barros, e Drummond sempre presente. Até Leminski estava lá; também Pedro Bandeira, Quintana, Adriana Lisboa, Hilda Hilst... muita gente!
Me deu vontade de reunir uns amigos, como vez em quando fazemos pra jogar conversa fora, mas desta vez diferente,  jogar palavras pra fora. 
Cada um se apropriaria de um escritor que gostasse. Poucos os amigos, muitos os escritores, então poderíamos assumir mais de um deles.
Ninguém entendeu direito a proposta que eu fazia, eu tentei explicar melhor, mas nem mesmo eu sabia. Foi quando os Titãs, nos lembraram, baixinho, que é caminhando que se faz o caminho. E então nosso sarau começou.
Cecília, era a aniversariante, nós ganhamos o presente: "Eu canto porque o instante existe, e a minha vida está completa. Não sou alegre nem sou triste, Sou poeta. 
... 
Sei que canto, e a canção é tudo, tem sangue eterno, a asa ritmada. E um dia sei que estarei mudo. Mais nada "
Muda, Cecília jamais estará. Nesse nível, ficou difícil continuar, melhor seria uma crônica, pra fugir de comparar.
Então, veio Fernando Sabino... nu!, não ele, o homem, o personagem do livro, claro. Ele, que com a porta fechada por trás de si, pelado viu-se pelo corredor, escada, elevador, tentando ficar invisível enquanto sua porta não se abrisse. E toda a confusão aconteceu apenas para fugirem de um cobrador. Vamos ver o fim da história: 
"Ligaram para a polícia:
-Tem um homem pelado aqui na porta!
Outros vizinhos, ouvindo a gritaria, vieram ver o que se passava. -É um tarado! Não olhe. Já pra dentro, minha filha! 
Maria, a esposa do infeliz, abriu finalmente a porta, para ver o que era. Ele entrou como um foguete e vestiu-se precipitadamente, sem nem se lembrar do banho. Poucos minutos depois, restabelecida a calma lá fora, bateram na porta!
-Deve ser a polícia! disse ele, ainda ofegante, indo abrir.
Não era: era o cobrador da televisão". Não deu pra fugir. 
O Carlos Drummond, outro mineiro, se riu: E agora, Fernando? "... Com a chave na mão, quer abrir a porta, não existe porta. Quer morrer no mar, mas o mar secou. Quer ir pra Minas, Minas não há mais. José, e agora?
Se você gritasse, se você gemesse, se você tocasse a valsa vienense, se você dormisse, se você cansasse, se você morresse, mas você não morre. Você é duro, José... "
A essa altura todos estavam animados, acho que entendemos o que eu queria, se você me entende!
O Mário, ocupado com o tempo, filosofa: "A vida é um dos deveres que nós trouxemos para fazer em casa. Quando se vê, já são 6 horas: há tempo… Quando se vê, já é 6ª feira… Quando se vê, passaram 60 anos! Agora, é tarde demais para ser reprovado… E se me dessem – um dia – uma outra oportunidade, eu nem olhava o relógio,  seguia sempre em frente… E iria jogando pelo caminho a casca dourada e inútil das horas".
Meu amigo pegou pesado com essa leitura, estamos todos na casa dos sessenta, já não podemos ser reprovados. Temos que ler mais e seguir sempre em frente.
Outro mineiro - ainda bem que Cecília é carioca - Paulo Mendes Campos, resolveu fazer graça pra mudar o clima: "Jamais consegui falar razoavelmente ainda uma língua estrangeira. Quem nasce no continente americano não possui língua própria, resignando-se a falar, mal, a língua dos outros." 
E ele mesmo, ilustra a afirmação:
"Fernando Sabino viajava de avião, tendo à sua frente uma cantora francesa e um cantor brasileiro que atende pelo apelido de el broto. O avião jogava muito, e o artista nacional, pretendendo tranquilizar a francesa, virou-se para trás três vezes, perguntando ao escritor como eram, em inglês, as palavras "nuvem", "tempestade" e "não há perigo"... As palavras foram subsidiadas com a advertência de que a moça não era inglesa, e sim francesa. El Broto responde: Mas é que eu não sei falar francês!"... Como?!!!
Tentando manter o astral no alto, fui procurar um poema de Hilda Hilst que fosse divertido. Não encontrei. Verdade que não procurei muito. Mas li um fragmento que me encantou, até por me lembrar de outro que ouvimos no sarau do colégio: "... Dizer que coisa ao homem, propor que viagem? Reis, ministros e todos vós políticos, que palavra além de ouro e treva fica em vossos ouvidos? Além de vossa rapacidade, o que sabeis da alma dos homens? Ouro, conquista, lucro, logro, e os nossos ossos, e o sangue da gente, e a vida dos homens entre os vossos dentes". Poema de 1974, continua crítica atualíssima. E rapacidade é o grão imastigável, de quebrar dente... o grão mais vivo que açula a atenção, na magistral imagem que João Cabral de Melo Neto criou, no poema "Catar Feijão", que ouvimos no sarau escolar.
Não dá pra transcrever aqui, todos os escritores que estiveram presentes ao nosso sarau especial, e nada se compara à leitura bem ouvida se bem lida, como vimos no Colégio Novo Rumo. Esperemos as próximas edições de ambos. Os escritores estão ansiosos. 

domingo, 9 de novembro de 2025

CENÁRIO: A MINHA LEITURA

Não ser de direita ou esquerda, 
No centro não querer estar. 
Votar na direita ou na esquerda, 
No centro se equilibrar. 

Liberdade é poder escolher, 
Não ter mais opções desanima. 
Votar esquerda ou direita, 
É manter a mesma sina. 

Esquerda diz ser do povo, 
Somente para o povo, nada faz. 
Direita argui essa bandeira 
E com o argumento se satisfaz. 

O centro, discursa como tal, 
Mas o centro jamais ganha. 
Só no discurso pensa no povo, 
O que interessa é a barganha. 

Melhor ser amigo do rei, 
Só o lado bom colher. 
Assim não importa o partido, 
Muitos cargos a preencher. 

Os três lados são diferentes, 
São iguais nas diferenças. 
Todos têm seus interesses, 
Mas ao povo, só a crença. 

Em comum, nada do bem.
Os crimes são esquecidos
Benesses se acumulam  
Suspeitos são escolhidos. 

Engarrafam vento 
E o povo colhe tempestade. 
O ditado está errado, 
Mas a queixa é verdade.

Uns imbrocháveis, imbatíveis,
Motoboys e teimosos, 
Negam vacinas, flertam com a cadeia, 
São deslumbrados, presunçosos. 

Eles entram e saem das prisões, 
Combinam o jogo com quem joga. 
E o povo assiste, da geral, 
Aos julgamentos, que droga!

Veja agora a COP30. 
Estados Unidos não vêm.
O presidente fica num iate, 
"Prestigia" o povo de Belém.

O povo não é coletivo de fome, 
Um séquito sem nome, 
Diminutivo de homem, 
E está cansado desse nome, 

Já dizia Affonso Romano. 
Ele tem dificuldade em aceitar, 
Que para poder sobreviver, 
Estranhos o têm que governar. 
 
Governos dão bolsas vazias,
Que mais parecem esmolas. 
Desestimulam a trabalhar, 
E matam por não darem escolas.

Uns vitimizam os traficantes, 
Outros os usuários legalizam,
Todos de olho nas pesquisas 
A vida humana banalizam.

Foi tirado do contexto. 
A frase foi infeliz. 
Se a reação não foi boa, 
É só desdizer o que se diz 

Educação não é de fato prioridade. 
Só a presença já mede
O desempenho do governo
Nos números do IDEB. 

Governantes saem ou são saídos, 
Ministros e decanos também. 
E a dança das cadeiras
Dão esperanças a ninguém. 

Nada muda no cenário. 
O futuro nunca vem. 
E o povo acredita, otário, 
Nos que o olham com desdém

Três poderes independentes. 
Para a independência moderar, 
Um quarto talvez pudesse, 
Os conchavos evitar. 

Por enquanto, tangidos como boiada, 
Seguimos caminhando. 
E centro, direita e esquerda, 
Seguem se locupletando.

Até quando?!

segunda-feira, 3 de novembro de 2025

A GARGANTA DO DIABO

Viajávamos para um congresso em Foz do Iguaçu. Cerca de quatro mil quilômetros de um trânsito caótico em estradas mal conservadas. 
Resolvemos ir ao evento por ser um dos mais importantes da nossa área de atuação, para rever amigos queridos, e também para revisitar as Cataratas, o que faríamos tantas vezes quantas possíveis.
A opção pelo automóvel se impôs pela necessidade de levar materiais e os colaboradores para a feira comercial, inviável pela via aérea. 
É cansativo, verdade, mas, de certa forma,  a estrada longa acalma: as árvores, sinais de trânsito, animais e veículos, passam rapidamente, enquanto o cérebro viaja por outros caminhos, processa assuntos complexos, encontra soluções até então invisíveis, ou simplesmente se desconecta dos problemas e canta com o rádio. 
Nosso cérebro é programável, já o sabemos, e, por isso, ele controla o veículo quase que autonomamente, e as cidades ficam para trás, sem que me lembre de ter passado por elas, motoristas fazem bobagens no trânsito, coisa que eu nunca faço (!!!), e parece que meu veículo reage por si mesmo, evitando o acidente como se tivesse livre arbítrio. Houve um momento em que percebi estar já há longos minutos atrás de uma fila de veículos. Lá na frente, uma Mercedes branca e imponente, andava como uma tartaruga, o que lhe tirava todo o encanto, afinal, sem a velocidade, uma águia é um pássaro qualquer. Provavelmente um garoto ganhou aquele esportivo dos pais, e estava se exibindo, travando o trânsito para, num repente, mostrar o que poderia fazer. Forcei um pouco a passagem até ficar ao lado daquela obra de arte, e o motorista não era um garoto idiota, era um senhorzinho, colado ao volante, que dirigia com os cuidados proporcionais aos seus limites físicos. Acelerei e ganhei novo foco para os meus pensamentos. Aquele velhinho estava curtindo demais aquela máquina novinha, não notei se havia alguém ao lado, acho que ele mesmo não notaria, tão embevecido estava. Talvez tivesse trabalhado uma vida inteira, e só agora conseguira realizar o sonho da juventude. Talvez nunca tenha tido tempo para realizar qualquer sonho. Talvez tenha trabalhado toda a vida para, aos oitenta, se presentear como gostaria de ter feito aos trinta. Que bom que ele conseguiu! Ainda hoje, enquanto viajamos, soube de um amigo, pai de um aluno de nossa escola, que não conseguiu passar dos quarenta. Talvez ele sonhasse comprar uma Mercedes quando se aposentasse. 
Curta, a vida. Não dá pra desperdiçar o presente em nome de um futuro distante. Claro que ser previdente é importante, mas viver é essencial.
Enquanto pensava, a Dutra passava, chegava a Carvalho Pinto, que também passava e meu cérebro "escrevia" esse texto, até chegar às vias urbanas de São Paulo, onde já não é mais possível "escrever" e dirigir.
Dia seguinte, descansados, com o carro cheio de malas e dos "malas", continuamos nossa viagem, e agora já não seria mais possível pensar em nada, o Felipe não permitiria. O Edgar dormia, o Luan ria, a estrada passava, e o novato falava. Nem tem tempo para ouvir, e é difícil entender o que ele fala, sobretudo se estiver empolgado, como quase sempre está, o que definitivamente não é uma crítica. Só cansa. 
Reservamos a quarta feira para passearmos pelas Cataratas, o evento começaria na quinta.  Também nós estávamos empolgados agora, até para levar os nossos amigos ao parque, pelo lado argentino, que é simplesmente espetacular. Então saímos cedo, protetor solar, repelente, tênis de caminhada, garrafas de água...  tudo em cima, e a expectativa também nos píncaros. Seria um passeio delicioso, como de outras duas ou três vezes, porém diferente, cada vez é diferente, e agora, as passarelas tinham sido reformadas, remodeladas e ampliadas, e o que era ótimo ficara ainda melhor: agora o turista pode chegar bem sobre a Garganta do Diabo, onde, embora o nome, a gente se sente mais perto de Deus, tal a quantidade imensurável de águas revoltas e ruidosas que se precipitam garganta abaixo. Donde vêm, para onde vão?! Queria ter levado meus pais até lá, mas fiquei esperando melhor oportunidade, mas, sem combinar com o tempo, o tempo passou. Como quando os levei à Catedral de Aparecida, meu pai teria dito "Eu não podia morrer ser ver isso!". Enfim, voltemos ao nosso passeio. O habitual engarrafamento gigantesco nas filas da alfândega argentina, sob um sol escaldante e um calor úmido, não incomodou, estávamos preparados pra ele, e tudo era motivo para risos. Só não foi engraçado o Felipe não ter um documento físico de identidade, a agente não aceitar o documento virtual, e sermos forçados a pegar o retorno, já em território argentino, e voltar ao Brasil. Ela ainda foi legal conosco, e nos sugeriu, em um português muito melhor do que o do Felipe, que deixássemos o garoto no freeshop  e fôssemos passear sozinhos. Ainda hoje não sei porque não fizemos isso! Talvez porque algo parecido tenha acontecido comigo, há uns anos, quando não aceitaram a minha carteira da OAB. O fato é que acabamos achando graça, xingamos o moleque, e fomos para o Parque das Aves, como prêmio de consolação, e para aproveitar a oportunidade. 
Curta a vida! Não economize riso, não poupe carinhos, não invista em ódio, não perca oportunidades de amar, não guarde rancores, não negue perdão. E se uma diversão não deu certa, tente outra. Aceite que sempre haverá um Felipe pra testar sua  resiliência.
Ah, quase toda viagem tem volta, né? Nosso retorno foi igual à ida, nada mudou, nem o Felipe.