Dois irmãos cariocas.
Família pobre de marré deci,
Nascidos na zona oeste,
Donde queriam fugir.
Viram o pai ser agredido,
Foram de casa despejados,
Viram a casa pegar fogo,
Que mais poderia dar errado?
Interior do interior, luz não tinha,
Água só na biquinha do quintal.
Trabalho para o pai, mãe na cozinha,
Aventuras em cavalos de pau.
Fernando aprendeu a ler com o pai
Analfabeto, mas criativo,
Como a Felícia da Maria Clara*,
Era inteligente e inventivo.
Lobisomens, mulas sem cabeça,
Saci pererê, velha bruxa,
Medo da curva da cruz,
Até o pai levava a garrucha.
Ganharam uma irmãzinha,
E os dias, lentos, passavam.
Agora três eles seriam,
Os garotos antecipavam.
Ainda crianças, mudaram pra cidade,
Uma vila chamada Varre-Sai.
Duas ruas calçadas por pedras,
De terra batida, umas duas mais.
Voavam velozes, qual avião,
Os dois ao mesmo tempo,
O menor no quadro ou no guidão,
E o maior desafiando o vento.
Bicicleta sem freios, caíram muitas vezes,
As valas das chuvas os atraíam.
Cavalos de pau eram mais seguros.
Joelhos e braços ardiam.
A resistência dos dois crescia,
Os saberes também.
Outra irmã juntou-se ao trio.
A cada dois anos, um filho vem.
Primeiro ano de escola.
Bullying já existia, era sofrido.
Para o mais forte ou o mais rico,
Mãe tinha um bambu comprido.
A cidade estava cara,
Trabalho faltava, e dinheiro.
Voltaram para roça, de novo
Sem luz, sem água e banheiro.
O pai foi cuidar de animais.
E pés de café arrancar.
Comprou uma máquina Singer
Pra mãe poder ajudar.
A máquina, a mãe dominava,
Calça, camisa, saia, vestido.
Ela agora costurava,
Mas tudo era muito parecido.
Ela era muito procurada,
Todos a encomendar um corte.
Pra nossa casa e pros vizinhos,
Nossa mãe era o suporte.
Os garotos iam para a escola,
Quilômetros em sola de sapato.
No embornal, abóbora ou couve,
Dá direito a repetir o prato.
Com seis e oito anos conheciam,
Todos os insetos que existiam.
E aprendiam com os pais,
Que a natureza vale mais.
Cobras que sem ameaça não picam,
Jacas que penduradas ficam.
Cavalos de verdade pra buscar leite,
Boi bravo faz voar por baixo do piquete.
Maribondos que picam garotos,
Se tiram folha de bananeira,
Pra mãe espalhar o doce
Que se esfria dessa maneira.
Arnica que se colhe no pasto,
E que cura muitos males.
E capim vassoura, como o nome diz,
Faz a limpeza dos lares.
Fogão de lenha, com barro branco,
Que a cada mês se reforma,
E cocô de boi, fresquinho e cremoso,
Que mantém o piso cheiroso.
O Almanaque do Tio Patinhas,
Que produziu leitor voraz.
O pai comprou como livro,
E sem saber, foi sagaz.
Mas ele, muito agitado,
Nunca ficava parado.
Então voltaram para a cidade,
Em busca de oportunidade.
Chegou fogão a gás, ainda não a geladeira.
E sem TV, outra irmã vinha chegando.
Já eram quatro, agora cinco,
Mas quem estava contando?
Os garotos se deram bem,
Em frente ao colégio, na cidade!
Novas aventuras e problemas,
E muito mais novidades.
O pão com manteiga como do Júlio,
A mãe não conseguiu preparar.
Era margarina sem sal, horrível!
Não a podiam culpar.
O barranco era quase uma montanha,
Segurando numa ponta de raiz,
Subiam e desciam como aranha,
Quando veio o acaso infeliz.
Um domingo terminou,
Tarde fresca e de mormaço,
O sentido de aranha falhou.
Fernando caiu, torceu o braço.
A benzedeira da cidade vai benzer.
Eu cozo, te cozo, vou cozer.
E repetindo o mantra até cansar,
O braço do garoto vai curar.
O braço se curou,
A vida continuou.
Muitas travessuras
Numa vida de aventuras.
Quatro casas depois, trabalhando em balcão,
Fernando comprou liquidificador e televisão.
O suco de maçã não era tão gostoso,
Mas Star Trek era demais, e vicioso!
Copa do Mundo em setenta e quatro,
Seremos campeões outra vez?!
E Fabiano chegou. Se lembra?,
Éramos cinco, agora seis.
Ainda uma casa, depois uma cidade nova.
Bom Jesus, duas casas ali.
Outro lugar bom, Nova Friburgo.
Mais duas casas aqui.
Em Bom Jesus trabalharam,
Também lá se casaram,
Também lá tiveram filhos ,
E a vida adulta começaram.
Do calor do Rio e de Bom Jesus,
Tudo que queriam era escapar.
Fernando levou pais e irmãos
Para, em Friburgo, refrescar.
Somente então o pai parou.
Contra a vontade. É o tempo.
De verdade, nunca aceitou,
Mas não tinha argumento.
Realizou tanta coisa,
Tanta história construiu.
E trabalhou até o fim,
Contra o tempo insistiu.
Os meninos da história
Foram crescendo ricos,
Em vida, em saúde,
em conhecimento e amigos.
Seguiram caminhos parecidos.
Suas origens não esqueceram.
E depois de muitos anos
Trabalhar juntos, resolveram.
Um foi lojista, bancário,
Entre um e outro, escrivão.
Outro trabalhou no comércio,
Em banco e na Educação.
Um casou e ficou.
Outro descasou e voltou a se casar.
Ambos jamais deixaram
De a família preservar.
Como seu pai, resistem ao tempo,
Mas o tempo só sabe passar...
E passa.
*Maria Clara Cavalcanti
uma questão de jardinagem
Hum. Publicações - 2016
Fiquei emocionada! Um texto inundado de verdade, com palavras carregadas de afeto.
ResponderExcluirE um clamor ! Ao tempo! O que passa! Mas que, enquanto vai passando, enriquece e ensina!