sexta-feira, 29 de novembro de 2024

NEURODIVERGENTES

Fiz oito anos agora em novembro. Tá ficando moça, diz minha mãe. Será sempre a menininha do pai, ele diz. Eu só vejo a hora de fazer dezoito, de ser "de maior". Quero ter a minha casa, o meu gato, as minhas coisas, ver TV, quando e quanto quiser, comendo batata frita com sorvete, e não ter ninguém o tempo inteiro reclamando da cama, da louça, dos cabelos, do sapato, das notas... Minhas notas não estão muito boas! 
Eu fico muito triste na minha escola, quando meus amigos tiram nota baixa porque não entenderam o que a professora explicou. Eu nem tenho muita dificuldade. Ela ensinou direitinho, eu sei, mas eles não entenderam bem porque estavam olhando para o lado ou desenhando uma mosca com uma só asa. Os pai brigam, a professora briga, mas eles não têm culpa, não fazem de propósito, eles sofrem mais do que os pais deles. Eles ficam nervosos quando tem prova, exercícios ou até ditados. Noutro dia, chamado ao quadro para fazer um exercício bobo, meu amigo travou. Ele sabia que sabia fazer, mas não conseguiu organizar os pensamentos, a mão nem conseguia segurar a caneta. Quando a professora chamou outro colega para fazer o que ele não conseguiu, ele quase chorou ali mesmo, se sentiu incompetente, foi chorar no banheiro, e jurou que não voltaria à escola no dia seguinte. Minha mãe, quer dizer, a mãe dele não deixou, ela disse que conversaria com a professora para entender melhor o que houve, mas que, enquanto isso, ele precisaria enfrentar os medos e prestar mais atenção nas aulas. Ele só voltou depois de uma semana, tinha febre todas as manhãs, sempre na hora de ir para a escola. Somente quando passava a hora é que a febre baixava. Nós fingimos não lembrar do que aconteceu, e ele fingiu acreditar. E a professora também fingiu. Mas ele não consegue tirar notas boas, só se a prova for muito fácil. 
Ouvimos que uma tia, psicopedagoga, iria conversar conosco, com todos os alunos da sala, para saber dos nossos sentimentos e emoções, das nossas dificuldades com as matérias, com a escola, com a professora, com os colegas, e também em casa.
Eu não queria participar disso, não preciso conversar com ninguém, porque eu não tenho problemas em casa e nem na escola, amo meus colegas, gosto da minha professora, e minhas notas são boas, acho que nem vou ficar de recuperação. Eu só não gosto de ser chamada ao quadro, fica todo mundo olhando pra mim e eu fico igual ao meu amigo, paralisada. A professora nem me chama mais, ela viu que não adianta e me erra. Desistiu, eu acho; melhor. 
A psicopedagoga está conversando com todo mundo, e meus colegas morrem de medo, bem... de curiosidade! Mas o meu melhor amigo, que já conversou com ela, me falou que não é "bicho de sete cabeças". Que é isso?!! O pai dele explicou que isso é um monstro, feio e bravo, e que uma coisa que não é "bicho de sete cabeças" é fácil de tratar ou de resolver, não é feia e nem brava. Resumindo, ele disse que a tia psicopedagoga é "de boa". "Bicho" ou "de boa", eu passo, já disse que não preciso conversar nada com ninguém.
Mas não teve jeito. Por isso quero muito ser "de maior"; tivesse dezoito anos, uma tia não iria me buscar na sala de aula, com todos os meus amigos me olhando, pra conversar comigo noutra sala. Minha mãe fala que "manda quem pode, obedece quem tem juízo", e isso quer dizer que criança terá para sempre que obedecer, afinal, onde já se viu criança mandando?! Eu só vejo isso nos meus sonhos, principalmente durante as aulas de português, que não gosto muito. Aí "viajo na maionese", e me vejo como diretora: Ponho uma TV grande no lugar do quadro, ponho o quadro na parede dos fundos, mando a professora escrever só com letras grandes, e dar aulas só de geografia e história, nunca obrigar aluno a ir falar na frente dos outros, e só chamar à frente quem gosta de aparecer. Quase sempre meu sonho é interrompido pela professora, que me vê como aluna fraca, e me pergunta alguma coisa em voz alta que sabe que não vou responder, e eu, então acordada, percebo que não sou diretora e nunca vou ser, porque o que sou mesmo é uma aluna fraca, que nunca vai melhorar. 
Até esqueci que estava contando que fui chamada pra conversar com a psicopedagoga. Ela é legal. Eu estava com medo à toa, ainda bem que não disse pra ninguém estar com medo. Ela perguntou um monte de coisas, respondi a tudo e voltei pra minha sala. Nem doeu! Minha mãe fala assim comigo, depois que faço alguma coisa em casa, como lavar um prato ou um copo, sempre depois de ela pedir mais de uma vez: Doeu?!!!
Estou pensando aqui, enquanto fuço a gaveta do meu irmão: quando eu tiver dezoito, a minha casa e o meu gato, vou ser psicopedagoga, e vou ajudar professoras, e pais e mães, a entenderem melhor as crianças, ver o que elas gostam ou não gostam, no que elas são boas ou não são, o que precisam ou não precisam, se gostam mais de geografia que de português, quando estão com vergonha, quando não conseguem entender alguma coisa e por que não entendem, quando se sentem importantes e quando estão com medo. Agora, eu só estou com medo de não passar de ano.Tenho que ir para o terceiro de qualquer jeito, ou as crianças terão que esperar por mim mais tempo ainda.. 

sexta-feira, 22 de novembro de 2024

MANHÃS DE TODOS OS DIAS



[6:59] Willian:  Bom dia, patrão.
[7:20] Fernando Jorge: Bom dia, Willian. Tudo bem?
[7:20] Willian: Sim. Já saí, vim fazer o portão na Maracanã. Você precisa de mim?
[7:21] Fernando Jorge: Bom dia, Lucas. Quando chegar, veja primeiro o cavalinho, se ele está mamando, tá? 
[7:25] Lucas La Luna: Tá bem, Senhor. Bom dia. 
[7:30] Fernando Jorge: Não, Willian, obrigado. Bom trabalho. Amanhã, sim, precisarei. Vamos consertar as calhas, antes das chuvas fortes, e lavar o telhado do colégio. 
[7:31] Willian: Não dá pra fazer tudo num dia só, não, patrão! 
[7:31] Fernando Jorge: Ué, mas tem que começar! Começaremos amanhã, ok? 
[7:31] Jose Celso: Bom dia, Fernando. Vocês estão bem? Te enviei a planilha pelo e-mail, você viu? 
[7:31] Lucas La Luna: Senhor, o cavalinho tá mamano. Vai ter cevada hoje? Estamos zerados! 
[7:32] Fernando Jorge: Vou ver se tem. Economize aí. E vamos tirar capim. 
[7:32] Lucas La Luna: Tá bom.
[7:32] Fernando Jorge: Vi não, Celso; também, nunca entendo mesmo aquela planilha! Mas vou ver. Tudo bem por aqui. Bom dia. 
[7:40] Ricardo Vilanova: Bom dia, amigo. Aprove o pedido Angelus que te enviei ontem, hoje é o último prazo!
[7:40] Fernando Jorge: Oi, Ricardo. Bom dia, garoto. Certeza que tinha respondido ontem.
[7:41] Ricardo Vilanova: Rsrsrs. 
[7:41] Fernando Jorge: Tá rindo de quê?! Rsrs
[8:00] Edgar: Paizinho, bom dia. Fechei um congresso com uma equipe de amigos nossos, você não me atendeu ontem, decidi sozinho. Oito “pau“! 
[8:10] Fernando Jorge: Paizinho é o cacete! Bom dia, Edgar, me chama às oito em ponto pra fingir que chega sempre na hora? Esqueceu que tem câmeras na loja?! 
[8:10] Fernando Jorge: Ué, se você decidiu, você paga. Zero problema!
[8:10] Leila: Seu Fernando, a que horas você e Dna Valeria virão para o Colégio? A reunião é às dez, mas queríamos conversar antes.
[8:11] Edgar: Eu não, véin! Decidi pela empresa, como vou dizer agora que não pode?
[8:11] Fernando Jorge: Oi Leila, bom dia. Va está na academia. Desço daqui a pouco. Bjo.
[8:12] Fernando Jorge: Ok, Edgar, ok, tá bem. Envie o contrato. Bjo e bom dia.
[8:15] Fernando Jorge: Ricardo, entrevistou o candidato que iria ontem, ou ele também não foi?
[8:15]  Fernando Jorge: Rui, já tem o orçamento do outdoor?
[8:16] Fernando Jorge: Vanderlei, bom dia. Não esqueça de ver, hoje, o tacógrafo da van. Você lembrou daquele aluno novo? O pequenininho? Tínhamos que buscá-lo às sete! 
[8:20] Fernando Jorge: Eri, acelere o projeto, por favor, a parte alta, os parceiros estão me cobrando. Nunca começamos tão cedo a cuidar disso, e vamos terminar tarde demais de novo. Janeiro tá aí! 
[8:21] Fernando Jorge:  Zé, bom dia. Te enviei enviei ontem, por e-mail, um resumo daquele assunto. Você recebeu? Sei que o prazo da contestação já está correndo, né?
[8:25] Ricardo Vilanova: Fernando, o cara é ruim demais, não sabe nem formular uma frase, deve ter feito curso cem por cento EAD, até as provas.
[8h25] Fernando Jorge: Valeria vai chamar outros, Ricardo. Temos uns cinquenta pré-selecionados, mas eles se assustam quando são chamados, não querem trabalhar mesmo, só se candidatar. 
[8:30] Flávio: Fernando, você não me respondeu à noite. Viu o "contas a pagar" de hoje? Não temos caixa pra tudo. Tiro de onde? 
[8:30] Fernando Jorge: Oi, Flávio, nem vou dizer o que estou pensando. Valeria vai ver onde tem disponível. Fale com ela mais tarde. Bom dia.
[8:30] Vanderlei: Bom dia, Seu Fernando, peguei sim. Já estou aqui na escola de novo. 
[8:30] Rui: Tio, você deposita antes das nove o valor do médico? Eles são muito inconvenientes no trato com a gente! 
[8:31] Fernando Jorge: Caramba, cara, troca logo de médico! 
[8:31] Jose Celso: Fernando, a que horas posso ligar pra você? 
[8:35] Lúcia: Oi, Fernando, bom dia. A que horas vocês vão para o Colégio? 
[8:35] Fernando Jorge: Bom dia, Lúcia, já falei com Leila. Já, já. 
[8:36] Luiz Carlos: Bom dia, Fernando. Tenho médico hoje cedo e exames à tarde, tá? Não posso ir aí hoje. 
[8:37] Fernando Jorge: Oi, Luiz. Também ontem e na semana passada. É muito médico e muito exame, não? Tá feia a coisa! 
[8:37] Lucas La Luna: Senhor, o Bil pode me ajudar com a limpeza hoje? 
[8:37] Fernando Jorge: Não, Lucas, ele tem que ajudar o Vilson, no salão. E você tem que ir comigo, à tarde, pra Casa Verde. 
[8:40] Contador- Letícia: Bom dia Fernando, você pode atender?
[8:40]  Fernando Jorge: Oi, Letícia, contabilidade pela manhã é problema. Pode ligar, claro. 
[8:51] +55 71 967246-6399: Bom dia, o senhor é vendedor? 
[8:51] Fernando Jorge: Bom dia. Sempre. O que posso fazer por você? Meu nome é Fernando. 
[8:51] +55 71 967246-6399: Preciso de uns materiais. Quero os mais baratos. 
[8:52] Fernando Jorge: Envie a lista, por favor. Como é seu nome? 
[9:00] Va: Amor, subindo. Quer alguma coisa? 
[9:00]  Fernando Jorge: Não, nos encontramos na Escola. Descendo. Bjo. 
☝️E ainda são nove horas... 

segunda-feira, 11 de novembro de 2024

MAL-ENTENDIDOS

Minha mãe está na cozinha preparando o jantar, e o almoço de amanhã pra nós quatro, ela, meu pai, eu e meu irmão. Só eu fico em casa de manhã, mas ainda não sei fazer comida. Acabei de chegar da Escola. Estou cansada demais, não gosto de calor, ele me deixa mole. Deixei minha mochila na cadeira que uso pra fazer dever, meus tênis na varanda da sala (minha mãe diz que tenho xulé), e vim descansar um pouco no sofá da sala. Ligo a TV no Discovery Kids, e já estou com sono. Minha mãe me acorda: "- Desligue! Já disse que é só depois do jantar e dos deveres. Vá tomar banho, menina!" O banho é sagrado, minha mãe diz sempre, e lá vou eu para o chuveiro. Eu não gosto de calor, mas na hora do banho... como é bom o tempo quente! Aliás, o tempo esquentou lá fora, enquanto eu tomava banho. Meu pai chegou, nervoso com alguma coisa do trabalho dele, brigou com minha mãe, que também já não está nada satisfeita com o trabalho dela, e os dois resolveram brigar um com o outro, como se os dois trabalhassem no mesmo lugar. Acho que trabalhar junto sempre dá briga. Quando meu irmão briga comigo, porque a namorada dele olhou para outro garoto, eu pergunto, "E o que eu tenho com isso?", e ele responde, "Você não tem nada, mas não pode ficar achando graça!". Eu rio mesmo, porque isso acontece sempre, como ele não percebe?! Será que meu pai riu da minha mãe, ou ela riu dele? Por que a gente ri dos problemas dos outros? Acho que a gente deve rir de nervoso, como já vi minha mãe falando. 
Meus pais estão ocupados demais para se lembrarem de mim, vou ligar a TV outra vez. Lá na minha escola, hoje, aconteceu uma confusão enorme, e eu também ri. A van do Colégio chegou com um monte de meninos e meninas que moram mais longe. Hoje, uns gritavam com outros, que devolviam os gritos, enquanto eu e todo mundo olhávamos. Meu amiguinho, assustado, me perguntou o que houve, eu segurei a mão dele e disse que não sabia. E nem a Diretora devia saber, porque ela estava perguntando, muito irritada, e tendo que gritar mais do que eles: "- O que aconteceu? Por que vocês estão brigando?“. Ela perguntou mais de uma vez, até conseguir ser ouvida. E todos nós, que já estávamos em fila para entrar, queríamos também saber o que causou a confusão. Engraçado é que também eles queriam saber, nenhum sabia o motivo de estarem brigando; gritavam, apenas, defendendo o lugar em que moravam, como se Lumiar, Stucky, São Pedro, Boa Esperança, e mais uns outros bairros que não me lembro, Varginha eu acho, estivessem sendo ofendidos. Acho que estavam discutindo sobre qual lugar era mais legal, e acabaram brigando. A tia perguntou quem começou, e eles não sabiam. Perguntou quem não gosta de um ou de outro daqueles bairros, e ninguém falou nada. Perguntou se alguém tinha alguma queixa, e ninguém tinha. Ela disse que eles estavam é com tempo sobrando, que tinham pouca coisa pra fazer, e que iriam ter trabalho dobrado na sala de aula para ocupar a cabeça com coisas importantes. E foi então que eu ri, e todos me acompanharam... menos eles. Na sala de aula, minha tia disse que brigas entre as pessoas quase sempre acontecem por mal-entendidos, seja lá o que isso quer dizer, eu acho que por razões bobas que ficam sérias porque as pessoas estão estressadas e acabam dizendo coisas que não queriam dizer. Eu mesma já falei que odiava a minha mãe, imagine!, eu que a amo mais que tudo no mundo. Quando isso aconteceu, eu é que chorei, porque ela me deu um beijo e não falou nada. Acho que fiquei com vergonha e arrependida; nunca mais vou me irritar com minha mãe, pra ela não sofrer. Será que meu pai e minha mãe estão estressados? Será que não veem que um não tem culpa do problema do outro? Não quero nem pensar neles se separarem, tenho um montão de amigos que não têm pai ou mãe em casa, e às vezes eles ficam muito tristes! Melhor desligar a TV antes que minha mãe brigue comigo também, e ir de fininho para o meu quarto esperar que se acalmem. "-Filha, vem jantar, princesa!". Meu pai me chamando?! E todo carinhoso?! Opa, acho que eu é que estou  estressada, para eles deve ter sido apenas um mal-entendido. 

domingo, 3 de novembro de 2024

ANGELS

Quarta-06, à noite. Preguiça impede fazer a mala. 
Quinta-07, cedinho. Mala feita às pressas, Uber que atrasa, cancela, chama outro que se perde e é cancelado. Táxi comum. Voando, amigo! 
Será que o dinheiro dá? - só tenho 81 reais.
Quase chegando ao aeroporto, surpresa! Esqueci meus documentos.
Ligo pro Jonas. Não atende. Uma, e outra, e muitas vezes. Nada.
Ligo pra Renata pra chamar o Jonas. Uma, e outra, e muitas vezes. Nada.
Aeroporto. Táxi R$ 79,00. Deu! 
Renata e Jonas não atendem. 
Atendente: - R$ 500,00 por passageiro, pra mudar o horário. Nossa! 
Motorista do Uber chama. Não tinha sido cancelado. Não adiantou, não quis esperar o Jonas atender. Cancelou-se, agora sim! 
Estamos esperando dar no show
Renata atende enfim, localiza os documentos, bota o Jonas num Uber.
 - Até o Jonas vai chegar a tempo do vôo original, e nós não poderemos ir!
Insight! Façamos o check in. Se não der tempo, não importa, já vamos pagar mesmo... 
Apanhamos da máquina. Pressa que impede a perfeição! Time Out
Vamos para o atendimento, será mais rápido. 
- Recife! Recife!
- Não dá mais, senhor. 
- Ajude-nos! Estávamos com o pessoal do atendimento, lá do outro lado. 
História contada. 
- Vocês têm uma só mala, fazemos o check-in, despachamos a mala, se o senhor não conseguir, sua esposa viaja e o senhor vai depois. Pode ser? 
- Faça. 
- Melhor ainda, vamos imprimir o seu cartão de embarque, até 8 horas o senhor pode pegá-lo aqui comigo. 
Angels! 
Chegada do Uber prevista para 7h56!
Chamo o Jonas: - Avise ao motorista que às 7h55 perco o vôo. Acelerem! Estou no portão A. 
Uma oração baixinho. Duas, e três vezes!
7h53, o carro placa 1653 chega. 
O funcionário do check in, o anjo, solícito, interrompe um atendimento, não acha o cartão,  reimprime o cartão, quase me toma pela mão, vai comigo por uma porta lateral, muda de fila no Rx, me leva até o finger
- Obrigado amigo. 
- 32E, 27E. 
- Tá ótimo! 
- Boa viagem. 
- Amém. 
Thank You, God.