Fiz oito anos agora em novembro. Tá ficando moça, diz minha mãe. Será sempre a menininha do pai, ele diz. Eu só vejo a hora de fazer dezoito, de ser "de maior". Quero ter a minha casa, o meu gato, as minhas coisas, ver TV, quando e quanto quiser, comendo batata frita com sorvete, e não ter ninguém o tempo inteiro reclamando da cama, da louça, dos cabelos, do sapato, das notas... Minhas notas não estão muito boas!
Eu fico muito triste na minha escola, quando meus amigos tiram nota baixa porque não entenderam o que a professora explicou. Eu nem tenho muita dificuldade. Ela ensinou direitinho, eu sei, mas eles não entenderam bem porque estavam olhando para o lado ou desenhando uma mosca com uma só asa. Os pai brigam, a professora briga, mas eles não têm culpa, não fazem de propósito, eles sofrem mais do que os pais deles. Eles ficam nervosos quando tem prova, exercícios ou até ditados. Noutro dia, chamado ao quadro para fazer um exercício bobo, meu amigo travou. Ele sabia que sabia fazer, mas não conseguiu organizar os pensamentos, a mão nem conseguia segurar a caneta. Quando a professora chamou outro colega para fazer o que ele não conseguiu, ele quase chorou ali mesmo, se sentiu incompetente, foi chorar no banheiro, e jurou que não voltaria à escola no dia seguinte. Minha mãe, quer dizer, a mãe dele não deixou, ela disse que conversaria com a professora para entender melhor o que houve, mas que, enquanto isso, ele precisaria enfrentar os medos e prestar mais atenção nas aulas. Ele só voltou depois de uma semana, tinha febre todas as manhãs, sempre na hora de ir para a escola. Somente quando passava a hora é que a febre baixava. Nós fingimos não lembrar do que aconteceu, e ele fingiu acreditar. E a professora também fingiu. Mas ele não consegue tirar notas boas, só se a prova for muito fácil.
Ouvimos que uma tia, psicopedagoga, iria conversar conosco, com todos os alunos da sala, para saber dos nossos sentimentos e emoções, das nossas dificuldades com as matérias, com a escola, com a professora, com os colegas, e também em casa.
Eu não queria participar disso, não preciso conversar com ninguém, porque eu não tenho problemas em casa e nem na escola, amo meus colegas, gosto da minha professora, e minhas notas são boas, acho que nem vou ficar de recuperação. Eu só não gosto de ser chamada ao quadro, fica todo mundo olhando pra mim e eu fico igual ao meu amigo, paralisada. A professora nem me chama mais, ela viu que não adianta e me erra. Desistiu, eu acho; melhor.
A psicopedagoga está conversando com todo mundo, e meus colegas morrem de medo, bem... de curiosidade! Mas o meu melhor amigo, que já conversou com ela, me falou que não é "bicho de sete cabeças". Que é isso?!! O pai dele explicou que isso é um monstro, feio e bravo, e que uma coisa que não é "bicho de sete cabeças" é fácil de tratar ou de resolver, não é feia e nem brava. Resumindo, ele disse que a tia psicopedagoga é "de boa". "Bicho" ou "de boa", eu passo, já disse que não preciso conversar nada com ninguém.
Mas não teve jeito. Por isso quero muito ser "de maior"; tivesse dezoito anos, uma tia não iria me buscar na sala de aula, com todos os meus amigos me olhando, pra conversar comigo noutra sala. Minha mãe fala que "manda quem pode, obedece quem tem juízo", e isso quer dizer que criança terá para sempre que obedecer, afinal, onde já se viu criança mandando?! Eu só vejo isso nos meus sonhos, principalmente durante as aulas de português, que não gosto muito. Aí "viajo na maionese", e me vejo como diretora: Ponho uma TV grande no lugar do quadro, ponho o quadro na parede dos fundos, mando a professora escrever só com letras grandes, e dar aulas só de geografia e história, nunca obrigar aluno a ir falar na frente dos outros, e só chamar à frente quem gosta de aparecer. Quase sempre meu sonho é interrompido pela professora, que me vê como aluna fraca, e me pergunta alguma coisa em voz alta que sabe que não vou responder, e eu, então acordada, percebo que não sou diretora e nunca vou ser, porque o que sou mesmo é uma aluna fraca, que nunca vai melhorar.
Até esqueci que estava contando que fui chamada pra conversar com a psicopedagoga. Ela é legal. Eu estava com medo à toa, ainda bem que não disse pra ninguém estar com medo. Ela perguntou um monte de coisas, respondi a tudo e voltei pra minha sala. Nem doeu! Minha mãe fala assim comigo, depois que faço alguma coisa em casa, como lavar um prato ou um copo, sempre depois de ela pedir mais de uma vez: Doeu?!!!
Estou pensando aqui, enquanto fuço a gaveta do meu irmão: quando eu tiver dezoito, a minha casa e o meu gato, vou ser psicopedagoga, e vou ajudar professoras, e pais e mães, a entenderem melhor as crianças, ver o que elas gostam ou não gostam, no que elas são boas ou não são, o que precisam ou não precisam, se gostam mais de geografia que de português, quando estão com vergonha, quando não conseguem entender alguma coisa e por que não entendem, quando se sentem importantes e quando estão com medo. Agora, eu só estou com medo de não passar de ano.Tenho que ir para o terceiro de qualquer jeito, ou as crianças terão que esperar por mim mais tempo ainda..
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