segunda-feira, 3 de novembro de 2025

A GARGANTA DO DIABO

Viajávamos para um congresso em Foz do Iguaçu. Cerca de quatro mil quilômetros de um trânsito caótico em estradas mal conservadas. 
Resolvemos ir ao evento por ser um dos mais importantes da nossa área de atuação, para rever amigos queridos, e também para revisitar as Cataratas, o que faríamos tantas vezes quantas possíveis.
A opção pelo automóvel se impôs pela necessidade de levar materiais e os colaboradores para a feira comercial, inviável pela via aérea. 
É cansativo, verdade, mas, de certa forma,  a estrada longa acalma: as árvores, sinais de trânsito, animais e veículos, passam rapidamente, enquanto o cérebro viaja por outros caminhos, processa assuntos complexos, encontra soluções até então invisíveis, ou simplesmente se desconecta dos problemas e canta com o rádio. 
Nosso cérebro é programável, já o sabemos, e, por isso, ele controla o veículo quase que autonomamente, e as cidades ficam para trás, sem que me lembre de ter passado por elas, motoristas fazem bobagens no trânsito, coisa que eu nunca faço (!!!), e parece que meu veículo reage por si mesmo, evitando o acidente como se tivesse livre arbítrio. Houve um momento em que percebi estar já há longos minutos atrás de uma fila de veículos. Lá na frente, uma Mercedes branca e imponente, andava como uma tartaruga, o que lhe tirava todo o encanto, afinal, sem a velocidade, uma águia é um pássaro qualquer. Provavelmente um garoto ganhou aquele esportivo dos pais, e estava se exibindo, travando o trânsito para, num repente, mostrar o que poderia fazer. Forcei um pouco a passagem até ficar ao lado daquela obra de arte, e o motorista não era um garoto idiota, era um senhorzinho, colado ao volante, que dirigia com os cuidados proporcionais aos seus limites físicos. Acelerei e ganhei novo foco para os meus pensamentos. Aquele velhinho estava curtindo demais aquela máquina novinha, não notei se havia alguém ao lado, acho que ele mesmo não notaria, tão embevecido estava. Talvez tivesse trabalhado uma vida inteira, e só agora conseguira realizar o sonho da juventude. Talvez nunca tenha tido tempo para realizar qualquer sonho. Talvez tenha trabalhado toda a vida para, aos oitenta, se presentear como gostaria de ter feito aos trinta. Que bom que ele conseguiu! Ainda hoje, enquanto viajamos, soube de um amigo, pai de um aluno de nossa escola, que não conseguiu passar dos quarenta. Talvez ele sonhasse comprar uma Mercedes quando se aposentasse. 
Curta, a vida. Não dá pra desperdiçar o presente em nome de um futuro distante. Claro que ser previdente é importante, mas viver é essencial.
Enquanto pensava, a Dutra passava, chegava a Carvalho Pinto, que também passava e meu cérebro "escrevia" esse texto, até chegar às vias urbanas de São Paulo, onde já não é mais possível "escrever" e dirigir.
Dia seguinte, descansados, com o carro cheio de malas e dos "malas", continuamos nossa viagem, e agora já não seria mais possível pensar em nada, o Felipe não permitiria. O Edgar dormia, o Luan ria, a estrada passava, e o novato falava. Nem tem tempo para ouvir, e é difícil entender o que ele fala, sobretudo se estiver empolgado, como quase sempre está, o que definitivamente não é uma crítica. Só cansa. 
Reservamos a quarta feira para passearmos pelas Cataratas, o evento começaria na quinta.  Também nós estávamos empolgados agora, até para levar os nossos amigos ao parque, pelo lado argentino, que é simplesmente espetacular. Então saímos cedo, protetor solar, repelente, tênis de caminhada, garrafas de água...  tudo em cima, e a expectativa também nos píncaros. Seria um passeio delicioso, como de outras duas ou três vezes, porém diferente, cada vez é diferente, e agora, as passarelas tinham sido reformadas, remodeladas e ampliadas, e o que era ótimo ficara ainda melhor: agora o turista pode chegar bem sobre a Garganta do Diabo, onde, embora o nome, a gente se sente mais perto de Deus, tal a quantidade imensurável de águas revoltas e ruidosas que se precipitam garganta abaixo. Donde vêm, para onde vão?! Queria ter levado meus pais até lá, mas fiquei esperando melhor oportunidade, mas, sem combinar com o tempo, o tempo passou. Como quando os levei à Catedral de Aparecida, meu pai teria dito "Eu não podia morrer ser ver isso!". Enfim, voltemos ao nosso passeio. O habitual engarrafamento gigantesco nas filas da alfândega argentina, sob um sol escaldante e um calor úmido, não incomodou, estávamos preparados pra ele, e tudo era motivo para risos. Só não foi engraçado o Felipe não ter um documento físico de identidade, a agente não aceitar o documento virtual, e sermos forçados a pegar o retorno, já em território argentino, e voltar ao Brasil. Ela ainda foi legal conosco, e nos sugeriu, em um português muito melhor do que o do Felipe, que deixássemos o garoto no freeshop  e fôssemos passear sozinhos. Ainda hoje não sei porque não fizemos isso! Talvez porque algo parecido tenha acontecido comigo, há uns anos, quando não aceitaram a minha carteira da OAB. O fato é que acabamos achando graça, xingamos o moleque, e fomos para o Parque das Aves, como prêmio de consolação, e para aproveitar a oportunidade. 
Curta a vida! Não economize riso, não poupe carinhos, não invista em ódio, não perca oportunidades de amar, não guarde rancores, não negue perdão. E se uma diversão não deu certa, tente outra. Aceite que sempre haverá um Felipe pra testar sua  resiliência.
Ah, quase toda viagem tem volta, né? Nosso retorno foi igual à ida, nada mudou, nem o Felipe.

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