Amigos, colegas de trabalho, conhecidos, e até parentes, me veem como um sujeito bem sucedido, com uma família bonita, um trabalho gratificante, um carro bacana, saúde boa, envolvido com ações de solidariedade... um cara de sorte e feliz! E tudo isso é verdade, de um certo ponto de vista... só não é sorte.
Os terapeutas de plantão (sempre tem um, e no Instagram, muitos), eles, se eu digo que às vezes fico inseguro, que olho pra trás, preocupado com algo que nem sei o que é, que me angustio com a possibilidade de situações do passado se repetirem, se demonstro medo, me aconselham a não olhar pra trás, apenas à frente, com foco nos pontos positivos, e permitir que a felicidade entre.
Meus amigos, meus colegas, meus parentes... e os terapeutas, não sabem de nada!
Já andei de bicicleta por toda a cidade, fazendo cobrança, até arrebentar os suados chinelos nos pedais, e os ovos, no quadro. Você fica em pé sobre os pedais, para conseguir subir a ladeira, e vê o pé escorregar, e depois disso, só vê estrelas. Quem viveu essa experiência dolorosa sabe do que estou falando. E, sobre uma bicicleta velha e dura, trabalhando de sol a sol por míseros trocados, como pode um cidadão pensar num futuro brilhante, família e carro bonitos, sentir-se feliz ou sortudo, sentado à beira do caminho com a corrente... e o resto, arrebentados? É de chorar na rampa, ou no meio-fio! Eu chorei.
Já trabalhei como servente de pedreiro, balconista, frentista, cobrador, vendedor de bananas cesto aos ombros pelas ruas da cidade, fui bancário em cidade de praia, em cidade de serra, na cidade louca e maravilhosa, na capital da corrupção, já estive desempregado, e daí, um pouco por vocação, e mais pelas circunstâncias de momento, acabei empresário, mesmo sem conhecimento do ramo.
Os amigos e parentes disseram: Viu como ele cresceu, como foi corajoso? Deixou a Caixa e virou empresário! Consultores ensinariam: você deveria ter decidido pela mudança somente depois de avaliados riscos e oportunidades, e só então desistido do passado, explodido as pontes pelas quais passara, e ido em frente.
Meus amigos, meus parentes, os terapeutas... e os consultores, não sabem de nada!
Muitos colegas meus fizeram isso, a maioria se arrependeu ou mesmo desistiu. Quanto a mim, eu não tinha tempo para planejar com objetividade e decidir com segurança, eu havia perdido para o Estado, na primeira empreitada assumida na nova vida, todo o dinheiro que conseguira amealhar em dezenas de anos de trabalho; então enfrentei a oportunidade que a vida me oferecia. Eu já havia mesmo explodido as pontes, e ninguém me disse ser impossível, então eu fui em frente!
Antes de tudo isso, criança na periferia do Rio de Janeiro, meu pai decidiu morar no interior, na roça. Lá, o padre dizia, "Evidente que Deus proverá, acreditem!". Evidente era uma palavra nova pra mim, e eu adorava ouvi-la. O padre já morreu.
Eu trabalhava como ajudante do pedreiro e do padre de plantão, sonhava com a Soninha, a Adalgisa, a FAB, o helicóptero que me levaria para além das montanhas que cercavam o meu mundo, e minha mãe e meus amigos diziam "Pare de sonhar! Sonho não enche o bucho!". Não foi voando, mas na carroceria de um caminhão velho, qual retirantes, nós fugimos em busca dos sonhos, os meus sonhos, que certamente estariam para além do horizonte adivinhado.
Amigos, parentes, terapeutas, consultores... o padre, eles não sabem de nada. Meus pais também não sabiam; eles, porém, acreditavam num Deus provedor, em si mesmos e nos filhos!
De volta ao hoje, dois casamentos depois, filhos e netos, todos seguindo seus próprios caminhos que não são os meus, eu olho pra trás e... como passou tanto tempo em tão pouco tempo?!!! E quão pouco tempo falta!!!.
Nesses momentos de reflexão, me vejo, vez em quando, surpreendido por uma sensação de falta, de ausência, de carência, de angústia, de medo mesmo; talvez saudade do que a minha vida teria sido numa outra realidade, talvez saudade de uma outra vida que eu mesmo esteja vivendo numa linha do tempo distinta. Uma saudade do não vivido, acho. Melancolia? Nesses momentos eu não sou feliz, não me sinto com sorte, não estou completo, e então, resta apelar para os amigos e parentes, os terapeutas e os consultores, o padre ou o pastor, buscar uma conexão com Deus. Talvez, afinal, eles saibam alguma coisa que eu só pensava saber. Olho pra trás, e tento compreender as contradições da minha vida vivida, mas ando pra frente, sem parar, pelo caminho que me resta viver, como aconselha o filósofo. Não tem garantias, é verdade, mas quem disse que haveria? Tá bom assim, sem GPS, sem previsibilidade, vivendo o presente, que é, sempre, um presente.
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