terça-feira, 10 de março de 2026

INVISÍVEIS - UM TOQUE

Passava pelo calçadão da cidade. Passava, não caminhava. Tinha um destino. E o celular à mão. Pedintes atrapalhavam o fluxo. Também amigos que "se trombaram", e que efusivamente se abraçavam, enquanto eu me desviava. Alguém pede licença, talvez por uma orientação. Não sei se era isso, ninguém respondeu. Um sobressalto, sinto um toque no ombro. Minha mulher. Ué, está indo pra onde? - Não estou indo, estou voltando! - Como assim? - Eu vim de lá, te encontrei, mas você só me veria se eu tropeçasse em você. Não enxerga a mulher amada! 
Não tenho defesa. Ela veio em sentido contrário, no mesmo passeio, e eu não a vi! Acontece o mesmo quando estou de carro; ela acena e eu não vejo. Digo que isso acontece com todo mundo, e ouço a resposta óbvia: "Não sou todo mundo". 
De fato, é assim, ensimesmados com nossos próprios problemas, caminhamos, comemos, trabalhamos, vivemos... isolados. Sozinhos, na solidão de todo mundo junto, não vemos, de verdade, ninguém; muitas vezes não vemos de jeito nenhum, tropeçamos nas pessoas, como se numa pedra, numa árvore ou num poste. 
Nas cidades do interior, num hábito que hoje provavelmente não existe mais, os jovens circulavam pela praça principal, conversando entre si; rapazes num sentido, moças noutro. E se olhavam, sorriam, "paqueravam". Era o namoro de olhos, o footing, diriam os ingleses. E enquanto os jovens circulavam pelo passeio, os menos jovens sentavam-se nos bancos, a conversar, brincar, e, por que não, namorar. 
Pois é, acredite, houve uma época em que as pessoas se viam, se reconheciam no olhar do outro. Hoje, as praças estão vazias, ou vazias estão as pessoas que as frequentam; embora cheias de si e de informações, vazias de empatia.
A televisão, a internet, o videogame, a violência, a desconfiança gerada pelo abismo entre as classes sociais, as divergências políticas, a intolerância religiosa, tudo, junto e misturado, forma o amálgama que dá a desculpa  perfeita para o culto ao isolamento. 
Hoje, ninguém visita mais ninguém; é impensável, e constitui  grave falta de educação, bater à porta de um amigo sem aviso prévio. Mas, como marcar com antecedência, um encontro ou uma visita a uma família amiga, quando é justamente a espontaneidade que a torna tão deliciosa?!! 
Ora, o amigo pode não estar preparado, pode não estar animado. 
Então, essa visita pode ser o ponto de inflexão, exatamente o que ele precisava para desabafar, talvez esquecer, talvez repensar. E se não for, se de fato não for um bom momento, é simples, basta dizer, e a amizade continuará, talvez, agora, reforçada por aquela alteração na teia da vida. A oportunidade e a vontade de vermos e revermos os amigos, é que nunca deveriam ser postergadas.
Em nome da privacidade, tão ao gosto do momento, buscamos ficar invisíveis, mas sempre de acordo com nossa conveniência; basta precisarmos de um amigo ou de um familiar, e batemo-lhe à porta. Desesperados, mesmo se nos dizemos descrentes, batemos à porta de Deus. Culpados, então enxergamos o pedinte, e lhe deitamos uma moeda ao prato. Passada a tempestade, nos cobrimos com o guarda-sol da privacidade, e deixamos de fora o resto da humanidade... invisível. 
Invisíveis, não vemos os pobres e miseráveis tão sofridos e expostos; não vemos os trabalhadores que se ocupam de tarefas menos "nobres"; não vemos nossos filhos entretidos nas telas, menos ainda os conteúdos nelas espelhados; não vemos o companheiro que está ao nosso lado, e o quanto ferem as nossas palavras ou o nosso silêncio, as nossas ações e as nossas omissões; não vemos o amigo que precisa de ajuda; as minorias destratadas; não vemos o povo que está abandonado, e as injustiças que são perpetradas, estas desde que não nos atinjam. 
Queremos uma "família margarina" como as das redes sociais, e isolamos a nossa para isso, e como não conseguimos tanta felicidade, nos deprimimos. Privacidade ou egoísmo? Invisibilidade ou cegueira?
Já é passada a hora de baixar a tela e levantar os olhos;  de olhar  para as pessoas, e assim fazê-las, e a nós mesmos, visíveis. Um "toque no ombro" pode nos lembrar que estamos passando por cima das pessoas, que o virtual deveria ficar no passado pandêmico, e que nada substitui o presencial das emoções, dos abraços, da vida plena e pujante.

Nenhum comentário:

Postar um comentário