O filho de um amigo querido me procurou em busca de conselhos, ou do alívio que costumamos obter quando compartilhamos nossos problemas.
Ele se queixa de não ser reconhecido por seu pai e sua irmã, de ser sempre muito cobrado e nada receber em troca, ainda que se desdobre para fazer o seu melhor. Ele está deprimido.
Procurei ajudá-lo com as costumeiras frases de apoio, coloquei-me à sua disposição para conversar sempre que quisesse, e me comprometi a observar com um pouco mais de atenção, e quando tivesse oportunidade, o comportamento dos três, a ver se, de alguma forma, eu poderia ajudá-lo.
Os problemas dos outros, por vezes, nos levam a esquecer os nossos próprios.
O garoto, já não tão garoto assim, tem os seus problemas emocionais, uma história de vida meio conturbada, um TDAH tardiamente diagnosticado, embora desde sempre observado sem ser chamado pelo nome, e, por consequência, uma autoestima baixíssima. Assim, na maior parte do tempo se sente menor, e por isso, introvertido e recluso, e no tempo que sobra, estimulado por uma leitura, um exemplo de um amigo ou um conselho de um analista, ele fica eufórico, pode se sentir forte, e se comportar como tal, perder a inibição e o bom senso, e se expor demasiadamente.
Meu amigo ama o filho, certamente que sim, mas ele se perde, e até exagera, nas inúmeras tentativas de levá-lo a se estabilizar emocionalmente, e, cansado e sem êxito, se sente impotente para fazer alguma coisa.
Sua filha, por outro lado, sentindo-se segura da sua própria vida, certa de que fez as melhores escolhas, acreditando ser independente, não tem uma opinião muito honrosa de seu irmão, parece vê-lo fraco, sem força de vontade, muitas vezes irresponsável, e seus sentimentos transparecem nos momentos em que estão juntos, nos poucos momentos, já que ambos não fazem qualquer esforço para se aproximarem, e, em consequência, o irmão se fecha mais, se ausenta mais, e ela e seu pai acabam naturalmente se aproximando mais um do outro. Essa dinâmica viciada, aumenta os sentimentos negativos do filho, confirma a impressão do pai, de que ele não tem jeito, e a certeza da filha, de que ele é um estranho e desleixado, que não quer participar da família.
Amo os três, e me vejo, agora, no centro desse círculo, porque assumi o compromisso de observar o trio. Soubesse antes, a complexidade da situação, e as variáveis envolvidas, e não teria... ora, eu teria me comprometido da mesma forma. Ninguém merece o que o Alex está vivendo, ou o pai dele, que também sofre com essa situação, para a qual não vê saída. A garota, por outro lado, com o seu dia a dia ocupado, e as certezas da pouca e rasa experiência, acho que não sofre; não percebe o mal que faz ao irmão ao decidir não se aproximar embora os riscos, nem o tanto que ele precisa dela, e como seria bom, para os três, que estivessem mais unidos. Tivesse ela consciência disso, talvez pudesse fazer algo para ajudar; por enquanto, vive a sua vida, e cresce no seu trabalho, como quem "nem tá aí". Como dizem, a ignorância traz paz ao espírito.
Bem, gaiato nesse navio, eu navego em meio a dúvidas:
Devo mostrar objetivamente ao Alex, que a ele compete sair, viver a sua vida, ocupar-se de si mesmo, antes e mais do que dos outros, encontrar equilíbrio nas suas emoções, sem se esconder nem tampouco se expor em demasiado? Afinal a vida é dele, só ele pode mudar, só ele deveria saber o que lhe convém.
Devo pedir ao meu amigo, para, talvez até junto com a filha, fazer um movimento no sentido de atrair o filho para o espaço gravitacional deles, de forma a que ele encontre segurança no seu núcleo familiar, se perceba aceito? Já até tentei provocar o assunto, mas meu amigo não acha que ainda haja alguma possibilidade de encontrar uma normalidade no comportamento do filho. Ele desistiu. Acha até que esse distanciamento pode ser terapêutico.
E quanto à filha? Ela diz que seu irmão escolhe estar longe, e que, nos poucos momentos em que se encontram, ele os desperdiça provocando-a, criticando qualquer coisa que ela diga ou faça, que é insuportável ficarem juntos. Ela não vai mais tentar fazer nada. Acho que ela não percebe que a forma como ela vê o seu irmão, reforça esse comportamento negativo nele, e as coisas tendem a piorar para a família. Aqui, outra dúvida: Dizer isso para ela, não poderia prejudicá-la, colocá-la frente a frente com uma realidade conflituosa que ignora? Ela teria que rever um comportamento de anos, atitudes que sempre achou corretas, e com as quais viveu, cresceu, se tornou adulta e boa profissional; estará preparada para ser jogada de encontro às suas certezas?
Não vou ajudar, se deixar por isso mesmo, as coisas não vão mudar por si só. Por outro lado, como conversar com pessoas que têm, cada uma, somente certezas a respeito de si e do outro, e não percebem que precisam se abstrair de si mesmas, olharem de fora, para conseguir entender a situação em que estão envolvidas, e ter alguma chance de enxergar alternativas? Ora, bem que eu poderia ter estudado Psicologia! Não sei, e não posso, me aventurar nos labirintos da mente, vou me contentar em ouvir de verdade o Alex, deixá-lo chorar, desabafar quando e quanto quiser, e, talvez, nalgum momento, vou poder dizer-lhe as coisas que pensei aqui.
Enquanto isso, vou pensar em mim. Os problemas dos outros, por vezes, nos estimulam a resolver os nossos próprios problemas.
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