"Ali o sol se põe, atrás daquelas árvores, ali ele se esconde."
Estávamos no terreirão de secar café, na fazenda do Célio e da prima Inês, em Varre-Sai.
Uma tarde de verão, um calor de Rio de Janeiro, uma cervejinha gelada, e uma conversa afiada sobre a labuta e os desafios do cafeicultor.
O terreirão, vazio, parece ainda maior. Ele e os equipamentos aguardam, entediados, que os grãos de café ainda presos aos galhos das quinhentas mil árvores, sejam derriçados, para então trabalharem frenéticos, homens e máquinas, sol e suor, até que o sagrado cafezinho chegue à nossa mesa, às mesas do mundo, especialmente às chinesas; a China que, para variar, copiou o nosso hábito de beber café, e já é um dos principais destinos desse nosso delicioso commodities Assim os preços sobem para consumidores e para produtores; e enquanto uns riem, outros choram... como sempre.
Isabel, minha outra prima, fizera uma programação para nossa visita, um roteiro: de manhã com ela, à tarde com a Inês, manhã de domingo com a Fátima, e à tarde, a volta para casa. Tentamos cumprir, a baixinha é brava. Já estivéramos com ela, o marido Afonso e os garotos, por toda a manhã. Falávamos de quê? - Claro, café, a região é quase que integralmente dedicada a ele, inclusive o próprio Afonso. Daí que fomos visitar o "Café Rodolphi" e o "Café Pelegrini", produtores de cafés especiais, gente que não se limita a produzir e comercializar os grãos in natura, mas que os industrializam com técnicas adequadas a alcançar a bebida de excelência, reconhecida e premiada.
O Afonso é espirituoso, os meninos são inteligentes e prestativos, a Isabel se desdobra, e a mesa é sempre farta.
Farta também a mesa do jantar da Inês, e das filhas Jacinta e Luciana. Gente alegre e feliz, filhas queridas e presentes, neto que é um presente. Nossa tarde/noite com eles deixava saudade antes mesmo de terminar, mas era assim, uma visita, e um roteiro "a la Isabel" a ser cumprido.
Finalmente, a Fatinha, a sucessora da Tia Luzia, seu carinho sem limites, a simpatia e alegria de suas três filhas, a algazarra dos seus netos, o apoio dos genros, e uma casa que parece ter sido construída, há sei lá quantos anos, para reunir amigos, produzir alegrias, receber e distribuir bênçãos. Almoço, sobremesa, licores, chocolates, artesanatos, muita conversa, muita história, muitas risadas.
Viemos embora, tínhamos que vir, viemos mais leves, até por um pedacinho de nós que ficou por lá, três pedacinhos que foram morar, sem pedir licença, nessas três casas nas quais nos sentimos como se em nossos próprios lares.
Na véspera, tínhamos visitado a Arataca, e eu que retornava sessenta anos depois, senti que o progresso, ao passar por lá, levou luz elétrica e... mais nada. Não sei se é bom ou ruim para os de lá, sei que foi assim que senti ao ver as ruas de terra, intransitáveis com chuva, e as mesmas casas simples e rústicas da minha infância.
Na casa do sítio das jaqueiras, doutro lado da cidade, não vi as jaqueiras, tampouco a casa, lá o progresso mudou toda a paisagem e geografia, e, de novo, não sei se é bom ou ruim.
O boom nos preços do café, e a capacidade de trabalho daquele povo, levaram a uma explosão demográfica que tanto pode salvar quanto destruir a região. E o que se vê, na desorganização urbana da cidade, e na precariedade de serviços básicos, não é um bom prenúncio. Que o Deus desse povo tão religioso lance luz sobre os seus governantes, ou o dinheiro do café não só não será suficiente para transformar positivamente a cidade e a região, como não o será nem mesmo para resgatar os valores e a paz que existiram antes, e que tanta falta fazem aos que conheceram os dois momentos.
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