Dizem que coincidências não existem. Bruxas também não existem, porém, como diriam os colombianos, "Yo no creo en las brujas, pero que las hay, las hay."
Acabava de assistir à série de TV que traz para as telas parte da história da família Buendía, até então somente conhecida do best-seller do colombiano Gabriel Garcia Marques, sua obra prima, CEM ANOS DE SOLIDÃO, uma história ambientada na terra dele, com generosa dose de magia e fantasia: homem comido por formigas, gente comendo terra, chuva de flores amarelas em sepultamento, bebê com rabo de porco, pragas, crendices, alquimia etc. Enquanto mergulhava no fantástico mundo de Macondo, o povoado construído por José Arcádio e Úrsula, recebi um convite de minha prima Isabel, para escrever sobre uma cidadezinha do norte fluminense chamada Varre-Sai, onde passei minha infância e adolescência, na época pouco mais que um povoado.
Relembrei, então, o sítio onde vivi, quando criança, numa região chamada Arataca, encravada num vale escondido entre as montanhas, sem energia elétrica ou qualquer outro serviço público, habitada por meia dúzia de famílias que estranhamente eram felizes lá, junto com lobisomens, mulas sem cabeça, sacis-pererês e outros seres também estranhos, dos quais éramos todos íntimos, tão presentes eram nas conversas ao redor de lamparinas e fogões de lenha. Coincidentemente, na mesma época em que vivíamos na Arataca cheia de histórias e de fantasias, Gabriel Garcia Marques escrevia um dos livros mais lidos no mundo, inspirado nas histórias que ouviu de sua "abuella" na cidade de, vejam só, Aracataca! Consultei o Google! Ela é famosa por ser o berço desse escritor e jornalista, internacionalmente conhecido e reverenciado.
Arataca, a nossa casa, em bom português quer dizer armadilha, arapuca, e fazia sentido para aquele lugar, ao qual somente se chega depois de subir uma montanha e descê-la pelo outro lado, e donde não se saía se chovesse, as estradas vicinais eram pouco mais que trilhas para animais e pedestres. Desceu, ficou preso, embora uma prisão que, paradoxalmente, represente também liberdade, já que o indivíduo, imerso no vale, se sente intimamente ligado à natureza, de volta às origens, livre e distante dos males do progresso, que embora lento, inexoravelmente chega a todos os rincões.
Fiquei pensando que, se o colombiano tivesse vivido aqui, na nossa Arataca, poderia ter escrito o mesmo livro que escreveu na Aracataca dele. O povo daqui acreditava também que casamento entre primos era impossível, também aqui a vida era difícil, a sobrevivência dependia da imprevisibilidade da terra, pessoas eram perseguidas por mortos de mal humor (ou de bom humor?), notícias sobre fantasmas percorriam tardes e noites de todos os lares, cães miavam com os rabos entre as pernas, e o país, ainda sob o jugo militar, bem poderia ser palco de uma guerra civil. Perfeitamente possível que membros de uma família qualquer, de Menezes, Sobreira ou Possodelli, ou duas dessas, se unissem embora primos, criassem coragem, e alçassem voo do vale, em busca dos seus sonhos, de suas crenças, de viver aventuras e, quem sabe, encontrar um destino melhor do que o que o vale prometia (meus pais, mesmo, eram primos em primeiro grau).
Talvez o Garcia Marques, da Arataca, até encontrasse um final diferente para sua obra, e o representante da dinastia dos Possodelli, em vez de morrer, se casasse num cafezal, com uma chuva de flores brancas caindo sobre a cidade, quem sabe se transformasse num grande suinocultor, ou ainda enriquecesse transformando ferro em ouro; tudo menos nascer com rabo de porco ou morrer devorado por formigas, para fazer valer uma sina ou praga prevista há um século. Vivendo ou morrendo ao final, a admirável saga da estirpe da Arataca não teria solidão, mas cem anos de alegria, produtividade e progresso. Talvez o livro não fosse o mais lido do mundo, mas a vida teria valido a pena
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