domingo, 1 de junho de 2025

LOUCURA DE UM DOMINGO FRIO


Eu estou pensando em adotar um bebê. Acordei hoje com essa ideia maluca na cabeça.
“- Mas não é maluca!", você talvez discorde, argumentando que, afinal, a cada dia mais crianças nascem de mães crianças e morrem abandonadas e desnutridas, ou sobrevivem maleducadas, subnutridas e frágeis; que a população mundial envelhece, e as gerações futuras não se mostram capazes de gerir os recursos do planeta. Me recordará que a China já estimula que famílias tenham três filhos - a pouco tempo só era permitido um, e que o Brasil paga às famílias por filho vacinado e escolarizado. 
E você concluirá, entusiasmado ao me imaginar esse ser humano puro, engajado e despojado, que adotar uma criança, para educá-la adequadamente,  buscando equilibrar um pouco o nível do pensamento mundial, é uma ideia exemplar e generosa.
Sua viagem por um sonho que não era o meu, me provocou a viajar pela nossa realidade: vi a juventude despreparada para os desafios que herdarão, crianças que recebem uma educação superficial, definida por gente que não é do meio e que obedece apenas a critérios políticos; adultos sobreviventes, que, pais, não têm tempo para seus filhos; professores, não têm energia para suportar os diversos colégios aos quais são obrigados a servir; governantes, não patrocinam de verdade o trabalho e a educação, num círculo vicioso que não estimula sonhos alegres, pelo contrário, esses governantes são capazes de enfraquecer um povo inteiro para que não possam reagir; são capazes de fazer guerra e matarem milhões, só pra se manterem no poder enquanto ela durar; são capazes de expulsar milhares de pessoas para depurar a raça; nunca pensam de verdade nos mais frágeis que não seja para o voto.
O Brasil paga às famílias, como você diz, por filhos vacinados, mesmo que a vacina perca de lavada para as valas negras não lavadas; e por filhos matriculados, mesmo que a escola não ensine como poderia, mesmo que professores não ganhem como deveriam, mesmo que os alunos não aprendam como aprendiam, e sejam promovidos sem aprender.
Você argumentará ainda, que adotar é uma forma de repovoar o planeta antes que seja tarde demais, salvando vidas e criando  jovens saudáveis e educados, buscando compensar as perdas para as drogas, as guerras, a fome, a estupidez... para o tempo que, inexoravelmente, passa. 
Enquanto você, otimista,  chegava ao fim da sua viagem, eu, que fiz a minha por outras sendas, só confirmei o que sentia: decepção com o nosso mundo, com as pessoas, com o Brasil país do futuro. 
Eu disse que a ideia é maluca, e você discordou sem ouvir tudo. Ela não iria, iria no passado porque acabo de desistir, ela não iria resolver os problemas, e ainda iria contribuir para um futuro próximo distópico, escuro, obscuro e solitário, no qual as pessoas fogem da realidade por ser ela muito difícil de engolir. Um mundo dominado por máquinas, controladas por homens-máquina, de pessoas que não se falam e não se sentem. 
Eu opto por continuar a ser humano. 
Eu pensava adotar um bebê reborn.

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