quarta-feira, 28 de maio de 2025

RIO PARA POUCOS

Quando eu morava no Rio, um amigo que mudou de horário e local de trabalho, me contou da sua preocupação com a novidade, e falamos da cidade e suas ruas, que só conhecíamos do dia e da parte, digamos, "circulável" da noite. 
Para registrar o momento, eu o descrevi em forma de crônica, fantasiando um pouco. Meu amigo nunca viu isso. Foi lá pelos anos noventa, e eu datilografei como "Rio para poucos". 
"Depois de anos enfrentando o tumulto do ponto de ônibus e do trânsito das manhãs cariocas a caminho do trabalho, Fabiano recebe a notícia de que o seu horário mudou. Doravante terá que iniciar a sua aventura diária ainda noite, ainda escuro, quatro horas da manhã! Depois de vencer todos os demônios que o aconselham a continuar dormindo, terá que enfrentar os outros, os que o ameaçam nas ruas do Rio, e cujas sombras imaginadas quase o convencerão a voltar para casa.
Noite de insônia e perguntas, o desconhecido assusta.  Quais as estatísticas de assaltos na madrugada? Quantas sombras existirão no trajeto silencioso até o ponto? Alguém já estará lá?  E o ônibus, chegará no horário? O que fazer enquanto ele não chega? 
Lava o rosto ainda sob o som estridente do despertador, troca de roupa e, coração aos pulos, vai à luta contra o medo e a ansiedade. 
As lojas ainda às escuras, só alguns automóveis circulam, porteiros tagarelam entre si, transeuntes se cumprimentam como velhos conhecidos. Fabiano mal reconhece o bairro onde mora, e não fosse o seu agora acordado senso de realidade, pensaria estar numa cidade do interior. No ponto do ônibus, pessoas parecem aguardar uma excursão, tanto brincam, riem, falam alto; uns poucos quietos, talvez sonolentos. O ônibus chega com estrépido. Todos sobem, cumprimentam Antônio e depois Joana, e continuam a conversar, agora em duplas, enquanto o veículo se movimenta.
No Aterro do Flamengo, onde a noite começa a ser vencida, o sol que se anuncia também anuncia um lindo dia, um dia carioca de calor e tumulto, difícil de ser imaginado pelos passageiros da madrugada, habitantes de uma cidade dentro de outra, eles que somente retornarão quando já for noite outra vez.
Nos próximos dias, Fabiano provavelmente dormirá bem, despertará relaxado, andará até o ponto do ônibus como num passeio, encontrando amigos. Bom dia, Antônio! Bom dia, Joana! Bom dia, Rio!"
Espero que tenham sido mesmo assim, as idas e  vindas do meu amigo; conhecendo a cidade, porém, tenho cá as minhas dúvidas. Mesmo com toda a capacidade humana de adaptação ao meio, Rio de Janeiro, em qualquer mês e hora, não é para amador!

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