terça-feira, 13 de maio de 2025

ESTAVA ESCRITO


Eu já contei aqui, pra vocês, algumas histórias que eu vivi nos meus oito anos, agora perto dos nove. 

Acho que não falei que nós viemos do Rio para Friburgo. Sempre ouço histórias de lá, que explicam por que meus pais resolveram se mudar, e de vez em quando, uma nova. 

Esta é velha:

Meu irmão tem uma cicatriz no braço, acho que o esquerdo, de um curto que ele provocou numa extensão elétrica que meu pai estava usando. Você sabe o que é extensão, né? Um fio grande, que liga uma tomada na parede a um ponto mais distante, onde você vai usar um equipamento elétrico. Acho que isso não é muito seguro, meu irmão tem certeza que não! O fio pegou fogo e colou no braço dele, meu pai desligou correndo, e isso deve ter salvado a vida do meu irmão. Minha mãe conta que besuntou com manteiga o braço sem pele, para aliviar, enquanto ele gritava de dor e susto. Meu irmão adorou. Lambeu todo o "remédio", e pediu mais para sarar mais rápido.

Numa outra ocasião, meu tio que morava conosco, dormiu fumando, botou fogo no colchão, na cama, na bicicleta, e até nele mesmo. Minha mãe deveria ter passado manteiga nele todo, ia ser engraçado. Será que ele iria se lamber?

Mas, a gota d'água, como minha mãe gosta de falar, foi que, num dia de domingo, tomando sol da manhã sentados sobre a tampa de madeira do poço que tínhamos no quintal, um sujeito entrou pelo portão e bateu na cabeça do meu pai, e era sangue e grito para tudo que é lado.  Deu ambulância e tudo. Ouvi minha mãe dizer: - A violência dessas ruas queria entrar aqui há muito tempo, agora conseguiu. Chega, vamos embora desse lugar!

Quando meu pai sarou, eles decidiram mudar para um lugar tranquilo, para criar a gente longe daquela violência. Meu irmão não queria vir, ele já tinha alguns amigos lá. Minha mãe dizia "amigos" com um tom e um jeito esquisitos, como se quisesse dizer outra palavra.

Já eu... minha mãe cuidava de mim e do meu irmão, o dia inteiro, e quando meu pai chegava do trabalho, eles ajudavam com os deveres de casa, ficavam conversando até mais tarde sobre o dia deles, ele dizia que queria ganhar dinheiro para que mamãe não precisasse trabalhar e a gente tivesse escola boa... eu tava muito feliz.

Então, viemos pra cá. Meu irmão foi estudar em escola pública, e eu, imagine só, descobrimos uma escola particular pertinho da minha casa. E sabe o nome? Rumo Certo! - "Maktub", minha mãe disse. Eu não sabia o que isso queria dizer, mas claro que é coisa boa, porque ela falou amassando minhas bochechas e com os olhos brilhando.

As coisas não foram tão bem como meu pai pensou, ele demorou a arrumar emprego, meu irmão e minha mãe tiveram que trabalhar também, mas todas as noites meu pai fala com a gente coisas como: - Não foi tão bom como eu esperava, mas Deus sabe que é muito melhor do que lá. E trabalhar é nobre, ensina a ser forte, respeitar os mais velhos e as autoridades, ter disciplina, e conviver com os outros, especialmente com quem é diferente de nós.

Minha mãe fala que os problemas acontecem para nos fazer mais fortes e mais inteligentes, ela diz que é quando temos que buscar as soluções dentro de nós, exigir mais do coração e do cérebro. 

E meu pai conta as encrencas que acontecem no trabalho dele e como ele resolve. - Pai, vai dizer que você resolve tudo quanto é problema?! E quando tem um que você não consegue resolver?Vocês já viram que meu irmão é um encrequeiro, né! Meu pai vai brigar com ele, eu acho.

Mas que nada, meu pai falou que claro que ele não resolve tudo, que aí o jeito é ser humilde, aprender com os erros, reconhecer que não sabemos tudo, e pedir ajuda. Meu irmão deve ter enfiado a viola no saco, como minha mãe mandou. Mais uma coisa pra minha listinha de perguntas pra minha mãe esclarecer.

Nossas noites são deliciosas. 

Minha escola exige muito, não passa de ano se não aprender, precisa ter uniforme e chegar na hora, respeitar os professores, e ter carinho e cuidado com todos os colegas, mesmo os diferentes. E meus pais dizem que tem que ser assim mesmo.

Minha mãe contou para o meu pai que a professora me elogiou, porque eu ajudei um colega autista, e disse que eu sou carinhosa com todo mundo. Ele chorou, eu vi, ela também chorou. Agora então é que vou melhorar mais ainda. 

Um dia contei pra minha mãe que o colégio ia mudar de nome, ficou preocupada, Rumo Certo estava maktub, fosse lá o que isso fosse. Mas quando mudou para Novo Rumo, obras iniciaram, professores novos, mais experientes e sorridentes vieram, ela chegou em casa feliz, e o assunto da noite quando meu pai chegou, foi de como eles estavam certos ao decidirem se mudar, e como o futuro agora poderia ser melhor. Estava escrito na estrelas.

Nenhum comentário:

Postar um comentário