sexta-feira, 26 de julho de 2024

A COBRA E O GIGANTE

Uma das ocupações de meu pai era empreitar serviços, quer dizer, negociava um valor para realizar um trabalho, podendo obter lucro ou prejuízo, mas executando o combinado de igual modo. Ele contratava homens e os levava para as fazendas a "bater pasto" (roçar o mato com foices ou mesmo arrancá-lo com as mãos), plantar café, arrancar pés de café (por incrível que pareça o governo já pagou para os fazendeiros destruírem os cafezais) construir cercas, e outros serviços "leves".
Como point para esses homens, ele instalou um botequim, um barzinho de cachaça, banana e pão, onde se reuniam para uma pinga, às 4 ou 5 da manhã e às 6 ou 7 da noite. Eu, com 7 anos, anotava o ponto, e as cachaças que eu mesmo servia (50 cruzeiros na primeira marca, 100 na segunda e 200 passando a régua).
Num desses encontros, uma tarde chuvosa, a rua de terra batida, como só duas não eram na Varre Sai daquele tempo, mais parecendo um rio barrento e caudaloso, copinhos pra lá e pra cá, uma voz poderosa berrava palavrões. Isso meu pai não admitia, na casa dele só ele xingava!
- Amós, para de xingar!, pediu com o carinho que costuma tratar o seu grupo. O gigante nem o ouviu. 
- Amós, para de berrar ou vai se ver comigo!, agora já era o "carinho" com que também costumava tratar o seu grupo. E não ouvido... 
- Amós, eu te avisei! Meu pai sempre dizia que três vezes é forca. Ele pulou o balcão num salto ágil, enquanto eu me assustava, os homens se afastavam, e o Amós se via atingido como que por uma marreta de marroeiro, e ia chafurdar na lama de uma rua qualquer de Varre Sai. Morreria afogado, por que nenhum dos espectadores felizes se atreveria a socorrê-lo sem meu pai autorizar. Ele mesmo foi socorrê-lo. 
Um tempo depois, num dos safáris em pastagens distantes, uma jararaca encontra a barriga da perna do gigante, e é sabido que quanto maior o tamanho maior o tombo. Meu pai improvisou um torniquete, fez um corte acima da picada, chupou o  veneno, botou o ferido sobre o cavalo, buscou socorro, e mais tarde levou-o para a cidade, onde ficou entre a vida e a morte por muito tempo, até se recuperar totalmente sob a atenção do Zé Sobreira, como meu pai era conhecido. 
A cobra, o próprio Amós abateu. O amor e respeito entre homens assim, nunca morre. 

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