quinta-feira, 25 de julho de 2024

INCONTINÊNCIA

São, agora, quatro horas de uma madrugada muito fria, estamos vivendo madrugadas até mais frias que esta nessa época do ano aqui na serra. Dormi profunda e levemente, depois de várias horas de música na TV; Netflix e Amazon estavam com problemas de sinal, e jornal de notícias já não vejo mais.
Acordei de um sonho bom às três e meia, não me lembro o que, mas sei que era bom por que sei a sensação de um sonho bom; eu, leve como um acorde de viola, preferiria não me levantar, mas minha bexiga discordava, e andei como um sonâmbulo. 
No banheiro, tragédia!, não levantei a tábua do vaso, estava ainda no mundo dos sonhos. O cérebro foi rápido, a PNL explica: "torneirinha aberta - ruído estranho, não é de água - tampa baixada - então, torneirinha fechada incontinenti (incontinenti?!) - tragédia minimizada, pouco xixi pra secar e higienizar". Ai, droga!, eu gemia enquanto o cérebro reagia.
Certa vez, adolescente, fui visitar, noutra cidade, um professor amigo que conhecera na infância e que não via há uns anos. Ele me levou ao banheiro, me apresentou ao vaso sanitário, e me orientou como usá-lo. Eu era humilde e respeitoso demais para perguntar-lhe se pensava que eu era como ele, quando saíra da roça para a cidade. Mas, sim, eu fora igual a ele, na época em que moramos na Arataca, e depois, na Casa das Jaqueiras, em Varre Sai. Lá, os banheiros eram casinhas normalmente de madeira ou estuque, construídas a uns cem, duzentos metros da casa, sobre um curso d'água ou sobre um simples fosso aberto na terra, e o vaso sanitário era substituído por um buraco feito no assoalho de tábuas. Prefiro não me lembrar, ou pelo menos descrever, como se fazia nas eventuais necessidades noturnas, com frio, às vezes chuva, caminho iluminado apenas pela lua, quando a lua não estava com frio. Lembrar como era antes fará até não doer, daqui a pouco ter que higienizar o meu banheiro quentinho, seguro e revestido de azulejos. Progresso! Vantagens e desvantagens. 
Volto para cama, acordado e humilhado, e não consigo dormir, fico "redigindo" mentalmente a história, faz frio pra levantar e ir para a sala. Meu cérebro, generoso e matreiro, me lembra que é durante o sono que as memórias se fixam, são apreendidas, razão pela qual as crianças precisam dormir bem e regularmente, portanto, se eu dormir, o texto que montei estará intacto na manhã. Convencido, me acomodo no calor da minha cama, mas não adianta, num ato falho do cérebro ele deixa escapar que não sou criança há mais de cinquenta anos.
Cinco da matina, melhor voltar ao quarto, vou ao Rio daqui a pouco visitar o meu filho Vinicius, e compromisso é compromisso, seja com frio seja com sol, não importam as tábuas pelo caminho. 


Um comentário:

  1. Às vezes acho assustador como a vida muda tão rápido... se para melhor, ótimo!

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