domingo, 18 de agosto de 2024

MADRUGADAS VADIAS

Eu tenho sessenta e seis anos, e comecei a perceber, na real, que os anos passavam, a partir de 2020. Dizem que não se passa pelos quarenta em vão. Eu passei. Eu passei num desvão, nem vi, ocupado por demais com coisas sem importância que tanto me importavam, sendo levado numa roda-viva com a certeza ridícula de que eu tinha o controle da roda. Aos sessenta, porém, "deu ruim", me incomodei. Olhei pra trás e não enxerguei o início, tão longe estava. Não desgostei do que vi pelo caminho, mas se me fosse dado refazê-lo, talvez fizesse diferente algumas coisas. Não me crucifico por elas, as que vi, fiz o meu melhor no momento, o que doeu foi o que não vi, as lacunas, os vazios imperdoáveis. Não se pode deixar a vida passar em branco, vivências e ocorrências inconcluídas, esquecidas como se irrelevantes. Quando a recordação de alguém ou de algum evento se insinua na minha mente, incompleta, sem nitidez, percebo que fui omisso, que não valorizei o momento, que agora não passa de um trecho de vida perdido. Um instante apenas pode dar significado a toda uma vida, pode alterar histórias!
Noite dessas resolvi escrever os nomes das pessoas com as quais tive algum tipo de relação, desde família, professores, colegas, amigos, inimigos, namoradas, patrões, etc. Cheguei a ver o início, tão conhecido, de crises de pânico, ao forçar a mente para relembrar, sem êxito, alguns nomes. Percebi, culpado e triste, que tanta gente passou pela minha vida, até deixaram marcas, e hoje não tenho ideia de por onde andam, sequer se estão vivas. Centenas de nomes digitados, de alguns só me lembrei no dia seguinte, a maioria perdida numa vaga lembrança, insossa, inodora e incolor. 
Com essa percepção, decidi, conscientemente, não tratar com superficialidade pessoas e situações, para não produzir mais lacunas, e considerando que o que esqueci, esquecido está, resolvi escrever pra mim mesmo o que me lembro, um registro físico da memória, histórias que povoam a minha mente, e que ao pular para a mente do computador ficam mais seguras na nuvem. É um exercício físico com benefícios adicionais: nessa dinâmica de relembrar e escrever, também resolvo conflitos internos, pacifico a minha mente, aprendo com erros cometidos, explico incidentes antigos, perdoo e me perdoo. Tem sido uma terapia. Cortella já definiu melhor: "Escrever ajuda a elaborar o raciocínio, a sublimar emoções, a organizar o mundo. A escrita tem funções que muita gente não imagina; é útil nas situações mais diversas e inusuais. A humanidade faz isso há séculos: para espantar seus fantasmas, ela escreve". 
Ganhei o título que dei a esse texto, de um Superintendente da Caixa Econômica onde trabalhei, a primeira pessoa a me chamar de Fernando Jorge, assim mesmo, com os dois nomes, o que eu adotei. Memória perene dele me dizendo que ligaria outras vezes "nas madrugadas vadias", pra eu ajudá-lo a registrar suas ideias. Nunca mais ligou, mas me estimulou a escrever. Obrigado, Xerez.
Então, quando os fantasmas das madrugadas surgem, ainda que no meio do dia, pego o telefone, rabisco um esboço da memória revivida, recupero a minha paz e protejo o meu passado. 

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