Eu ficava todo orgulhoso, quando em viagem era reconhecido como carioca (nem é difícil, né?), ainda fico, na verdade, só que agora com um quê de tristeza e de saudade, e quase sinto a necessidade de pedir desculpas ao mundo pela decadência da cidade antes maravilhosa.
Meus pais se casaram em Varre Sai, norte do Rio de Janeiro, e foram morar na capital, onde nasci. De lá, eles retornaram, seis anos depois, em busca de qualidade de vida, segurança e educação para os filhos, depois de muitas peripécias, dificuldades e conflitos. Com vinte e cinco anos eu fiz o caminho de volta, e em mais uns dez eu trouxe meus pais e irmãos; eu não percebera que o Rio estava num processo rápido e diuturno de deterioração física e decadência moral mesmo, e a decepção com a realidade me levaram a copiar o meu pai, e, como ele, fugir, voltar ao interior, o que fiz, junto com eles, e sem arrependimentos, subindo a serra há uns dez anos! Muitos anos antes, já colocara no papel um pouco da minha frustração :
MENINO DO RIO
A Voluntários brilha sob o sol das 14 horas. O garoto, quinze anos, talvez mais talvez menos, passeia quase invisível pela paisagem tão cinza quanto ele.
Cabelos secos, calção negro, sem camisa, pés descalços, movimentos lentos, desconcentrados. Dir-se-ia caminhava sem destino e sem objetivo, não fossem os olhos ágeis, vivazes, intensos.
Uma bicicleta ou um tênis de uma criança privilegiada, a bolsa de uma velhinha desavisada ou o colar de uma motorista mais atenta às leis do trânsito que às da sobrevivência, seria suficiente para deflagrar uma sequência de passos rápidos, precisos, treinados, violentos.
Uma vila com carros estacionados. A porta dos prédios desguarnecida. Um reconhecimento rápido constata: toca-fitas se oferece à rapinagem, preto destacando-se em carro branco. Esconde-se enquanto duas senhoras passam e comentam o assassinato do dono do bar próximo, num roubo que deu errado.
Uma pedra é o bastante. Um toque sutil e o acesso está livre. Pequenos arranhões nos braços, alguns cortes na poltrona, o aparelho nas mãos, o risco de disparar o alarme.
O dono do carro só pode chorar o prejuízo, enquanto o menino desliza velozmente pelos becos, deixando saudades de um outro menino, cantado por Caetano, de um Rio que já não existe, e que, embora amado, ficará só. Eu canto pra Deus proteger-te.
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