terça-feira, 27 de agosto de 2024

ESPELHO, ESPELHO MEU.

As casas da roça geralmente são dotadas, na sua entrada principal, de um grande quintal, também chamado terreiro ou pátio, que é usado para secagem de café, arroz, milho, feijão, mamona, algodão, etc., também para a fogueira de São João e para os arrasta-pés sob o ritmo da sanfona e da viola, que nem só de pão vive o homem. 
Meu pai  costumava "descansar"  varrendo aqueles terreiros ou realizando outras tarefas leves e mecânicas. Eu copiei esse hábito, e ultimamente venho percebendo outros que copiei pela vida. Por exemplo, eu observava meu pai todo o tempo, e o via, carinhoso, plantar, orgulhoso e satisfeito, colher; e o ouvia dizer, sempre, que assim era a vida, colheríamos o que plantássemos e como plantássemos. Não se expressava assim, não entendíamos assim, mas era isso que ele queria dizer, assim ele vivia nós hoje o sabemos. Eu também o acompanhava quando construía um galinheiro, um curral ou uma casa (os projetos eram mais ou menos similares), inclusive, mais tarde, fui servente de pedreiro na obra da igreja. A propósito, por uns anos convivi com um padre, e ouvia música clássica diturnamente (Pe Manoel tinha um toca-discos Sonora, cuja fidelidade de som quem conheceu não esquece). Na mesma fase da vida, trabalhei no armazém do meu padrinho Baptista, que atendia a todos com uma enorme atenção, sempre sorrindo e com uma anedota pronta para alegrar o momento e vender mais. Não me esqueço da frase, repetida dezenas de vezes, "meias pra senhoras, pretas", sem a pausa da vírgula, que arrancava um sorriso da cliente. Também com ele aprendi a usar uma palavra código para marcar os preços de custo e de venda dos produtos; segredo absoluto para os clientes que só viam letras onde ele via números... eu também, embora ele não soubesse. 
Claro que, desde a minha infância e adolescência, vejo muita maldade, muita preguiça, preconceito, muito desprezo pelo próximo, testemunhei muita gente se dar bem fazendo o mal, vi muito desespero também, frente aos obstáculos da vida, mas não espelhei o meu comportamento nesses exemplos ruins. Gosto de construir, e sei um pouco; adoro cultivar plantas e amigos; não sou um aficionado pela música clássica, mas não caí no extremo oposto do mau gosto musical; atendo sempre com alegria, carinho e respeito os meus clientes, embora com firmeza e sinceridade; e tento sempre olhar a vida e as pessoas pelo lado positivo.
Por que eu não segui os exemplos ruins que também tive, mesmo quando eram mais atraentes?! 
Um exemplo vale por mil palavras, diz a sabedoria popular, e a ciência já comprovou que as nossas ações muitas vezes são influenciadas por outros e influenciam a terceiros. É imperativo tomar muito cuidado com o que sentimos, como agimos e reagimos. Mas a questão que me assaltou, e permanece, eu a deixo para algum incauto que venha a, eventualmente, ler esse texto:  O que leva um indivíduo, exposto a bons e maus exemplos, a seguir a uns em detrimento de outros? É uma escolha consciente? Educação, religião, amigos, posição social, interferem nessas escolhas? 
Reflexão sob medida para a sonoridade de pianos e flautas, mas também vale pensar ouvindo um samba-canção. O que vai ser hoje? 

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