Um gato apareceu na casa da minha irmã. Rajado com predominância de cinza, daqueles invisíveis na paisagem, o bicho é arisco, e só se aproxima à noite pra buscar alimento, coerente com a natureza solitária e a personalidade forte dos gatos.
Vantagens dos gatos sobre os cães, são o voto de silêncio que quase sempre praticam, a tranquilidade que passam e a higiene individual. Esse gato porém, o "selvagem", de uns tempos pra cá passou a emitir sons lamuriantes durante a noite, como o som característico de cio, e não conseguimos dormir. Assim mesmo, não conseguimos, no plural, por que minha irmã é minha vizinha, e o gato que escolheu a casa dela levou a minha de brinde. E por casa, entenda-se a varanda, o telhado, os carros, alguma roupa recém lavada...
O Arthur e a Yara concluíram que ele tinha algum problema, e com alguma esforço, conseguiram se aproximar o suficiente pra notar-lhe uma ferida na cabeça, que poderia ser consequência de um acidente, de uma picada de inseto ou mesmo de uma doença, e que poderia ser grave.
Remédios ministrados junto com o alimento noturno não foram suficientes, porém, pra curar a ferida, e os miados foram ficando maiores, mais doloridos e mais desesperados, eram mais uivos.
A alternativa que restou foi aprisionar o bichano numa gaiola, aproveitando a fome que cegou a sua desconfiança, e levá-lo à clínica veterinária.
Claro que fui eleito pra levá-los naquela noite gélida de sexta, mas, tudo por amor aos animais... e à volta das minhas noites tranquilas.
A auxiliar estimou que nos atenderia em uns vinte minutos, mas ela deve ter começado a marcar esse tempo umas duas horas depois. A médica chamou o bichinho de "selvagem", porque não tinha nome mesmo, nem dono, porque era muito arisco e bravo, e porque ela sofreu pra dominá-lo, depois que o deixou escapar da gaiola.
Nós o levamos de volta dopado, com uma ferida feia, mas tratada, e um olho inutilizado. Somente em cinco dias o laboratório diria se era uma doença, e aí poderia ser grave e perigosa inclusive para os humanos, ou mesmo uma ferida comum. E, enfim tivemos uma noite tranquila; uma!, a seguinte já foi dominada pelo som tão conhecido do gato, agora, caolho.
Gatos são assim, à primeira vista não confiam em ninguém; se não estão contentes na casa onde estão, vão embora sem nem um miado; escolhem outra casa sem perguntar se o aceitam; se ficam doentes, fazem chantagem para obter cuidados; somente a fome é capaz de desarmar suas defesas, só dão carinho a quem elegem, e não o recebem de quem não querem. Guardam todos os segredos dos mundos nos olhares fixos e profundos, e não contam pra ninguém. Não olhe nos olhos do seu gato, você pode descobrir coisas que não gostaria de saber.
Hoje o laboratório informou que o bichinho é saudável; e ele deve ter ficado muito alegre, compartilha sua alegria conosco todas as noites e as noites inteiras.
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