Minha mãe disse que o que tenho é uma virose, então é. Eu acho que é diarreia mesmo, daquelas que te deixam no banheiro o tempo todo, mesmo com o frio que está fazendo! Então, não vou poder ir com meus colegas da Escola à cidade de Petrópolis, terei que esperar o próximo ano. E eu queria tanto! Paciência!, diz minha mãe, vá com a sua imaginação. Como se fosse a mesma coisa, ora! Já conheço a cidade, de fotografias, vídeos e até por uma colega de nove, do oitavo ano, mas não é igual.
A viagem já começaria na noite anterior, quando fosse dormir. Como dormir?! Ia ficar acordada até não aguentar mais, já me vendo sair de casa sem nem tomar o café direito, correr até o meu Colégio, encontrar os amigos (quase todos com seus pais), as tias, os tios, e um ônibus enorme e colorido, com uma faixa também enorme, escrito "COLÉGIO NOVO RUMO DESCOBRINDO O BRASIL". Minha mãe ia ficar muito feliz se pudesse ir comigo, eu sei porque ela ficou muito triste quando eu levei o convite da minha escola e ela disse que não poderia faltar ao trabalho, e olhe que também ela não conhece Petrópolis. Eu queria ir falar com o patrão dela, aposto que o convenceria do quanto é importante os pais ficarem junto com os filhos, principalmente nos momentos de descoberta, imagine, descobrir como o Brasil começou e depois ficar trocando ideias em casa! Mas ela só sorriu quando eu pedi; acho que não acreditou na minha capacidade, ou talvez tenha pensado que o patrão dela é um pai insensível, sei lá. Que sei eu, com meus sete anos?!
Mas agora é tarde, na minha imaginação o ônibus já voa por curvas e retas, subidas e descidas, o motorista silencioso enquanto todos falam ao mesmo tempo. Minha tia nos mostra as grandes plantações, e nos ensina os nomes em ordem alfabética: agrião, alface, brócolis, cebolinha, couve, espinafre, pimentão, repolho... nossa! só vi tanta verdura junta assim, na feira ou no supermercado. Já vi um pouquinho na horta da minha Escola, até ajudei a plantar, mas não tem nem comparação. Eu gostaria de estar lá com aquelas pessoas plantando e colhendo. Será que elas gostariam de ir comigo a Petrópolis? Será que o patrão delas deixaria? Será que os pais delas iriam junto, ou todos estão trabalhando? Outras paisagens desviavam os meus pensamentos, e acabei indo cantar com meus amigos. Delícia de viagem! Acho que minha mãe até cantaria comigo.
Vi uma placa: BEM-VINDO A PETRÓPOLIS! A tia disse que estava escrito corretamente, duas palavras separadas, porém ligadas por um tracinho chamado hífen. Nunca mais vou errar isso. Descemos todos do ônibus, professoras na frente, os pais com os filhos, os filhos sem pais, outros professores atrás. Meu amigo estava com a mãe dele e me deu a mão. Minha tia, então, foi cuidar de outras crianças. Dizem que a cidade é fria, mas não estava, deve ser a emoção do passeio e a ansiedade de conhecer o Palácio Imperial, a Casa de Santos Dumont, o Palácio de Cristal, o restaurante do hotel... acordei com água na boca!
Estava sonhando, não era viagem de verdade. Minha mãe prometeu que ano que vem será, então será.
Que história gostosa meu amigo! Mexeu com a minha memória infantil. Me lembrou de coisas que até hj qdo falo pros filhos e netos eu digo: Minha mãe dizia ... e falo com autoridade das crianças que sabem que a mãe qdo fala é vdd. Ainda que seja só pra acalmar o nosso coração rsrsrs Ah que saudade... Gratidão por compartilhar
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