Sábado Santo em Nova Friburgo, na serra fria e chuvosa não se enxergava um palmo adiante do nariz. Oportunidade de descansar das duas semanas de trabalho quase ininterrupto, pausado somente quando a mente dava sinais de que o sono era improrrogável. O site de nossa empresa está disfuncional, e só Valeria consegue dar o suporte técnico necessário aos desenvolvedores do novo, em construção.
Considerando que foram quinze ou vinte dias bem complicados, e que os assuntos do dia a dia não ficam, generosos, aguardando na fila até que um problema maior seja resolvido, a névoa que ocultou até a bouganville na janela foi muito bem-vinda.
Entra então uma mensagem da Professora Leila, cerca do meio dia: - Dna Valeria, será que a senhora estaria disponível, e o seu Fernando, hoje mais tarde? Desculpe, sei que a senhora deve estar com sua filha do Rio, seu Fernando com os filhos e netos, mas Lúcia e eu gostaríamos de conversar com vocês, hoje. Depois das quatro horas seria possível?
Lá se foi o descanso! - Claro que seria possível, necessário até! Afinal, ficaríamos em suspense até a segunda feira, ou mesmo até o domingo?!
"Batemos ponto" no Colégio Novo Rumo nos últimos vinte meses, porém, sumimos nos últimos vinte dias; algo deve ter acontecido, seja na Escola, seja na cabeça de Leila e Lúcia, as responsáveis pela direção do colégio, para pedirem uma reunião em pleno Sábado de Páscoa, quando nós poderíamos estar reunidos com a família e amigos, e muito certamente também elas.
Leila e Lúcia estão entre as melhores pessoas que conhecemos. Elas fundaram o Colégio há mais de 20 anos, o Rumo Certo. Comeram o "pão que o diabo amassou com o rabo" para realizarem seu sonho, até abrindo mão de emprego estável no Estado, e junto com o sacrifício de outras abnegadas professoras, como Luiza, Suely e Raquel, fizeram por anos e anos uma educação modelo reconhecida. A pandemia, porém, já encontrou o Colégio, fora de rumo, com dificuldades financeiras. Um "grupo de investidores" assumiu o negócio, mas só conseguiu transformar o buraco em um abismo tão grande que o Colégio seria fechado em julho de 22, momento em que, por vias tortas, minha mulher e eu chegamos. Impregnados, já de há muito, por uma fixação em educação que meu pai tinha, e eu tendo três irmãs professoras a me influenciarem, assumimos a gestão da Escola, e fizemos o que sabemos fazer, saneamento físico, fiscal e financeiro, natural que com um razoável suporte de caixa, utilizando-nos da poupanca que criamos nos 12 anos de nossa empresa, toda a poupança.
A escola, porém, embora com um corpo bonito, não teria alma, se não dotada de um corpo docente também bonito, e foi aí que entraram as "duplo L" , Lúcia e Leila, que retornaram à administração da Escola sem nenhuma remuneração, e que, ao contrário, ajudam como podem a pagar as dívidas pretéritas, especialmente as de cunho trabalhista.
Infelizmente os fornecedores da nossa empresa em São Paulo, indústrias e importadoras, não se sensibilizaram com nossa causa e não se dispuseram a nos ajudar como imaginamos o fariam; num eterno sábado nebuloso, não enxergam o outro, exceto quando lhes é conveniente. O mesmo podemos dizer dos pais de nossa região, os que podem pagar o Colégio, porém, preferem prestigiar outras regiões, confirmando o ditado do santo de casa que não faz milagres.
Fato é que, apesar de tudo, e embora o fluxo de caixa mensalmente negativo, a Escola vai muito bem obrigado, dando um show de como educar, e sendo case comentado nas rodas de papo especializado.
Leila e Lúcia restituiram a credibilidade ao Rumo Certo, que ressurgiu para um Novo Rumo, e hoje, Domingo de Páscoa, esse texto é um reconhecimento a elas, à sua generosidade, competência e resiliência.
Ah, o motivo da reunião que tanto nos preocupou: Elas queriam nos trazer uma garrafa de vinho.
Já fui à igreja hoje e orei por todos. Amém.
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