Eu tive poucos grandes amigos, e sempre vindos da escola ou do trabalho, talvez consequência de uma barreira que eu impunha à aproximação, e talvez imponha ainda. Meu amigo Zeca me disse uma vez ser muito difícil ser meu amigo. Trabalhávamos na Caixa Econômica, morávamos numa república, em Copacabana, com outros colegas, e todos éramos... amigos. Ambos casados, as famílias em Bom Jesus do Itabapoana, só tínhamos a nós mesmos de conhecidos, o que facilitou a aproximação, já que em nossa pequena cidade mal nos falávamos. Nalgum momento eu opinei sobre algum assunto ou cobrei alguma coisa dele, e ele me saiu com essa: - Muito difícil ser seu amigo! Argumentei que exigia dos meus amigos apenas o que eu estava disposto a lhes dar, e eu ajo sem limites, me entrego cem por cento. Thiago de Mello canta, "... permanecem os amigos. Poucos. Mas capazes de atravessar o mar só pra me levar uma flor". Eu já atravessei muitos mares e me orgulho disso; hoje, porém, já não exijo tanto dos meus amigos, aprendi que nem todos são, podem ou conseguem ser, cem por cento disponíveis, o que não necessariamente diminui a amizade; eles podem até ser classificados, quanto ao grau de generosidade, lealdade e disponibilidade, como mais ou menos amigos, mas sempre, amigos. E nós precisamos de amigos, por miseráveis, mesquinhos, irascíveis, pobres de espírito que sejamos, não conseguimos viver sós, ou definhamos, fenecemos.
Não vou correr o risco, embora tentado a fazê-lo, de nominar alguns amigos, grande chance de perder os demais, mas vou citar dois que já não estão entre nós (não faz sentido ter ciúmes dos mortos): Seu Oliveira e o Oliveira Jr, pai e filho, o primeiro meu ex-sogro e muito, muito amigo. O Junior foi amigo, foi parceiro, irmão, foi filho.
Seu Oliveira era um homem de trabalho, honesto a toda prova, que me confiaria a própria vida. Ele adorava que eu dirigisse pra ele, acho que por causa da adrenalina; eu sempre corri muito e ele, ao tempo em que ficava com medo, queria sentir a sensação, e eu, naturalmente, e com a irresponsabilidade dos meus vinte um anos, fazia-lhe a vontade. Certa vez, ele dirigindo, fomos obrigados a ir para o acostamento por que um veículo ultrapassava outro, numa estrada de mão dupla, e no acostamento havia um enorme buraco, o que o obrigou a parar o carro. "Viu, Fernando, se você estivesse dirigindo nunca conseguiria parar", ele disse, e riu demais quando eu respondi que se eu estivesse dirigindo, nunca teria me encontrado com aqueles veículos naquele trecho, já estaríamos em casa! Ele sempre contava essa história. Ele me ajudou muito, eu não fiz nada por ele, só o ouvia.
O Júnior, que também se chamava Oliveira Ferreira Magalhães, era tão inteligente quanto controverso, mas amigo a toda prova, teria sido meu braço direito não tivesse viajado antes do combinado. Desses seres que vêm ao mundo e brilham tanto, que se queimam rapidamente na própria luz.
O Zeca, quando me chamou a atenção, me culpando por ser um sujeito difícil, talvez pudesse mudar de opinião se eu tivesse respondido menos laconicamente, se eu lhe tivesse dito com mais assertividade, que quando amigo de alguém, trabalho por esse alguém, me preocupo e me ocupo; já fui fiador, avalista, emprestei dinheiro, transferi propriedade de imóveis e veículos, garanti verdades e também mentiras, ouvi e aconselhei, e sofri muito por não ser reconhecido ou compreendido. Exijo o mesmo de meus amigos e reclamo quando não comparecem, o que pode ser demais pra eles; em minha defesa, porém, não os afasto, não diminuo a minha amizade, talvez só um pouquinho.
Recentemente uma música do O. Montenegro me chamou a atenção, pareceu comigo.
"Você me disse que eu sou petulante, né?
Acho que sou sim, viu!
Como a água que desce a cachoeira
E não pergunta se pode passar.
Você me disse que o meu olho é duro como faca.
Acho que é sim, viu!
Como é duro o tronco da mangueira
Onde você precisa encostar.
Você me disse que destruo sempre
A sua mais romântica ilusão.
E que destruo sempre com minha palavra
O que me incomodou. Acho que é sim.
Como fere e faz barulho
O bicho que se machucou, viu!"
É assim, não pergunto se posso passar, às vezes nem a mim mesmo, tendo a fazer o que é preciso; sou duro com meus amigos muitas vezes, mas nas vezes em que acho importante; e se me sinto ferido e magoado, muitas vezes reajo mal.
Pensando melhor, temo que o Zeca não seria nem mesmo o amigo distante que ainda é hoje, se eu tivesse sido menos lacônico, afinal, "eu destruo sempre com minhas palavras o que me incomodou". Acho que foi sempre assim.
Bonito texto! Profunda reflexão....
ResponderExcluirAcho que é sim, profunda!
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