sexta-feira, 27 de setembro de 2024

SAUDADES DO FUTURO


Hoje acordei meio estranho, não estava triste; não estava alegre; não estava animado para trabalhar; tampouco desanimado ao ponto de ficar deitado; não estava com fome, apenas o cafezinho de lei, mas sem conversar; não estava com vontade de sair e subir o morro da minha casa, porém também não queria ficar dentro dela; meu telefone me chamava em altos brados, mas eu não estava a fim de me aborrecer de manhã; me forcei a ler as mensagens do WhatsApp por que sabia que iria me aborrecer depois; perguntei-me o que estava errado e não consegui me responder; perguntei-me o que planejara fazer hoje, e me vi sem planejamento; opa!, aí está!, ontem eu não tinha feito a minha agenda de hoje. E como não pensara no amanhã, meu amanhã, que é hoje, está vazio, sem sentido e sem estímulos. Já que me perguntando, refletindo, buscando respostas, me lembrei de um advogado amigo e irmão, muito espiritualizado, e com o qual sempre converso sobre tudo, como os amigos costumam fazer. Ele me disse, na última vez que nos vimos, que o mundo está estranho, que a Justiça, a área dele, não é justa, que juízes ganham demais, não sabem demais, legislam demais, julgam de  menos, enquanto o povo, sofrido, sentido, carente, descrente; está perdido, confuso, desanimado e inquieto, dando mais material para o judiciário legislar. O povo que Affonso Romano de Sant'Anna define, com santa ira, assim: "Povo não pode ser o coletivo de fome. Povo não pode ser um séquito sem nome. Povo não pode ser o diminutivo de homem. O povo, aliás, deve estar cansado desse nome." 
Esse povo cansado que clama por Justiça, recebe as penas da lei, leis feitas por quem não é povo, aplicadas por quem também não é. Meu amigo defende que, não podendo acreditar nas leis, que podem ser alteradas a qualquer momento e por quaisquer circunstâncias, circunstâncias que jamais levam em consideração o povo, ele, esse coletivo abstrato e invisível, inseguro perde a esperança em dias melhores, perde o estímulo de trabalhar, de empreender, de estudar, de criar, de construir o futuro. 
Nesse ponto dos meus pensamentos, retorno ao poeta, escritor e cronista. Ele escreveu que o futuro anda fazendo uma falta enorme a muita gente, gente que não se dá conta disso, como as pessoas cinza-esverdeadas das filas de banco e dos assentos dos ônibus, ou os executivos que gesticulam e falam alto ao celular, mas que giram tontos em seus negócios, como perus bêbados; que esse país já teve uma relação melhor com o futuro; que mesmo mentiroso, imaginário e irrealizável, aquele futuro realizava o presente, as pessoas saíam de suas casas, rumo ao futuro prometido e acreditado, e assim, produziam. E o poeta continua, dizendo "desconfiar que as pessoas hoje estão pensando apenas no presente, e, portanto, pensando curto, parco e pouco". O século XX passou, o século XXI está passando, e o futuro continua nebuloso. Provavelmente daí venha a ansiedade e a angústia, que tantas crises provocam, conclui nosso cronista. 
E eu, na minha manhã apática, cinza esverdeada, concluí, ouvindo o advogado e o poeta, que de fato, sem visualizar o amanhã, não temos interesse em realizar o hoje, e como o amanhã também será um hoje, melhor antecipar o futuro, para que o hoje de amanhã, que se repetirá dia após dia num presente contínuo, seja o nosso futuro e nos leve a, diariamente, acordar sabendo o que fazer. E querendo fazer. Deixo minha cadeira, o morro me espera, o futuro me chama. 


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