domingo, 22 de setembro de 2024

QUARTOS COLORIDOS DE MIM

Você diz que eu sou ingênuo, que o meu cérebro é dominado pelo quadrante vermelho, que privilegia as relações e as emoções... e acho que é sim, viu? Fiquei pensando nisso desde ontem, e vejo que você acertou, o teste é bom mesmo. 
Você diz que eu quero ajudar a todo mundo, e que demonstro isso o tempo todo, mas que pessoas que nem precisam tanto se aproveitam disso. Eu concordo, vejo acontecer. 
Você diz que, emocionado com um pedido mais inteligente ou mais apelativo, eu baixo a guarda, se guarda tenho, e me exponho a ser manipulado, e eu acho que isso acontece mesmo. 
Você diz que o meu  quadrante que pensa com mais objetividade, que faz cálculos lógicos e que projeta resultados futuros para determinar as ações do presente, está, digamos, um azul pálido, meio que enfraquecido pelo calor do vermelho, pela tranquilidade do verde e pelo brilho do amarelo; que emoção, organização e criatividade, estão desequilibrando meu sistema neural, e minhas sinápses estão carentes do azul. Sei lá, minha mulher diz, mesmo, que homem não sabe nada de variação de cores. 
Noutro dia ouvi, do Cortella, que quando alguém reage mal a algo que dizemos ou fazemos, por melhor que tenha sido o que fizemos ou dissemos, o que a pessoa disse ou fez em resposta não tem a ver conosco, mas com ela mesma. Daí que não devemos nos deixar atingir pelo que as pessoas falam ou fazem, isso diz respeito tão somente a elas. Gostei de ouvir isso, e mudei minha cabeça na mesma hora. Mas eu, vermelhinho, nunca consegui me abstrair, e sempre reagi dizendo coisas como: "Não ponho preço no seu serviço, não venha botar preço no meu!". Ou, "Se você não tem tempo pra fazer o seu trabalho, por que aceitou o trabalho? " Ou ainda, " Se você não quer para o seu filho, por que quer que eu faça com o filho dos outros? “ E por aí vai. E por aí, perco contatos, contratos e amizades. E aí precisa do remedinho azul, precisa que o azulzinho entre em cena, potente e pragmático, para restabelecer o equilíbrio. 
Acho que sou mesmo assim, emocional e ingênuo. 
Se um amigo precisa de um empréstimo bancário, empresto meu carro pra ele ofertar em garantia; até um imóvel já transferi para o mesmo fim! Se outro precisa de trabalho, adapto o perfil do cargo para o acolher. Se um cliente está em dificuldade com pagamentos, elasteço o prazo, libero os juros, reabro o crédito. Se uma pessoa me procura pra pedir ajuda, de alguma forma vou ajudá-la, certamente. Sempre confio primeiro, e só depois do dissabor posso mudar de opinião, porém não sem uma segunda ou terceira chances. E já faltei a compromissos importantes para ajudar a pessoas que nem conhecia direito, sem pensar no que perdia. Se me oferecem um negócio, que também é uma oportunidade de fazer o bem, não titubeio; avalio, sim, os riscos, porém se tenho condições de fazer o negócio, pondero os riscos frente às oportunidades, e decido superar uns para alcançar outros, sobretudo porque a oportunidade poderá não se repetir. 
Na minha ingenuidade, acreditei sempre estar ganhando, de uma ou outra forma, mesmo perdendo nalgumas situações. Emprestei meu nome, ganhei restrições; meu carro e o imóvel, e os perdi; dilatei muito prazo de devedores e a inadimplência persistiu; confiei em muitas pessoas que me decepcionaram; maaaas, ganhei amigos, ganhei satisfação pessoal, vi pessoas que ajudei prosperarem, móvel ou imóvel que perdi não me fizeram falta, e até por causa disso ou a partir disso, constituimos uma empresa que sustenta dezenas de famílias e até uma Escola, esta também a partir de um desses erros vermelhos; e se o azul está pálido, é de vergonha, por ter que reconhecer logicamente estar dando certo. Meu vermelhinho não faz nada para ter quinze minutos de fama, nem pra deixar de ser oprimido para ser opressor (talvez isso seja mais coisa do azul), ele age talvez por um pouco de egoísmo, fazer o bem hoje para estocar coisas boas para amanhã, ajudar quem parece precisar, para merecer ajuda quando de fato precisar, enfim... um "egoísmo bom", se isso existe. 
Você me diz que eu me desgasto ouvindo a todo mundo, tentando ajudar a todo mundo, me enganando e me decepcionando às vezes, quando deveria me preservar mais, ficar mais azul vez em quando, para guardar energia pra quando eu mesmo precisar, ou até pra ajudar mais e melhor a mais pessoas, e acho que é sim, viu? 
O propósito do teste foi alcançado, temos um diagnóstico, um rx do funcionamento do meu cérebro que demonstra um certo desequilíbrio entre os quadrantes; só não sei se devo, ou se quero, trabalhar pra mudar isso, e então resolvi escrever pra mim mesmo; me ouço melhor quando escrevo, faço muito ruído quando falo, e às vezes me desvio, ou deixo outros desviarem, por rumos, pra mim, menos importantes. 
Buscando, no infinito azul, alguma resposta ou alguma inspiração, não me vejo como sensível em excesso e pouco objetivo, embora me veja assim algumas vezes, e embora já tenha decidido assim muitas vezes; vejo mesmo que, nos erros que cometi por decidir mais avermelhado, os prejuízos foram empalidecidos pelos resultados satisfatórios e mensuráveis que obtive. Sei que o capitalismo enaltece essa dureza dos Abílios, Jorges, Elons, mas eu, na minha insignificância feita de umas dezenas de anos, vividos quase todos no lado fraco da corda, não acho que ensine a ninguém repetindo os erros que esse pessoal comete, e morre cometendo. Quero viver diferente, não como São Francisco ou Madre Teresa (estou longe de ser santo), mas como um Fernando qualquer, que chegou mais longe do que um Terceiro Sargento de Aeronáutica, o máximo que sonhou um dia pudesse alcançar (sem qualquer demérito ao cargo), e não passou no concurso. Fato é que estou desgastado, não por agir assim, mas por ter que defender o tempo todo essa linha de ação, seja para os que me vêem como concorrente, seja pra quem me ama, seja para quem não vê o que eu vejo e quer me fazer ver diferente. Como o poeta, eu diria: Metade de mim é abrigo, mas a outra metade é cansaço. 


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