Ela estava muito acima de mim, era muita areia para o meu caminhão, mas muita mesmo, tanto que eu a admirava sem me aproximar, tal a distância que a via de mim, um abismo. Mas eu a via. Trabalhávamos na mesma área, éramos colegas mas não amigos. Numa noite fui convidado, junto com a turma da qual eu meio que participava, para o aniversário de uma amiga comum no ap delas, com todo o glamour e a carga romântica que Copacabana carrega consigo. Minha amiga aniversariante, recém separada, cantava, com os pulmões de outra Fafá, a de Belém, "Jogue a cópia da chave, por debaixo da porta, que é pra não ter motivos de pensar numa volta, fique junto dos seus, boa sorte, adeus", e repetia entusiasmada. À meia luz, ela brilhava, e quando tocou, claro, como sempre toca, a eterna "Whisky a go-go", ao primeiro acorde já estávamos um nos braços do outro. Mais forte que a sensação de muito gelo e cuba libre, me eletrizava a energia que lhe fluía da pele. No fim da festa não houve beijo, não sei como a noite terminou, aquela noite não terminou. Marcamos de sair no dia seguinte, e saímos, fomos conversar ao som das ondas, as mesmas que Cecília diz "...se quebram tão debruçadas na areia, quase vida, quase morte, quase canto de sereia". E aquela sereia, do pedestal que construí pra ela, da crista da onda, descia até mim, um humano qualquer. Poderia ser uma linda história de amor, não tivessem as águas desenhado nas areias um caminho diferente.
No dia seguinte, eu ainda processava aquela impressionante sequência de ondas que se precipitaram sobre mim e me inundaram corpo e alma, quando soube que ela tinha viajado de urgência, seu pai falecera inesperadamente. Ela era muito ligada ao pai, muito mesmo, mas mesmo assim não tenho explicação para a mudança radical e repentina que então se produziu. Não houve um recado, não houve um bilhete, whatsapp não havia. Algo aconteceu no interior daquela estrela e ela não voltou a brilhar em nossa constelação, não voltou ao trabalho, não voltou a comandar as ondas com seu riso fácil, a liderar os amigos com sua delicadeza de alma, ela não voltou pra mim.
Soube que se casou uns poucos meses depois, com um homem muito mais velho, viúvo e com filhos, num acerto qualquer que nunca entendi. Não sei se foi assim, assim ouvi. Impactado com a fantástica sensação de ter passado de simples mortal a namorado de sereia, e sereia de Copacabana!, tive que assimilar a realidade de voltar à insignificante mortalidade, e contrariando o meu perfil, fiquei paralisado e inseguro como um minúsculo tatuí, inexpressivo e invisível, e como tal nada fiz para tentar esclarecer o mistério, me deixei esquecer na areia.
A vida é o que se inventa, diz a canção, então inventei outras vidas e o tempo passou, e hoje, como canta o poeta, "lembrei de nós, do que não foi, e se não foi, não vai ter final". Não tem final um relacionamento que não aconteceu, momentos que não se concretizaram, uma história que não teve desfecho. Ela viveu bem, eu imagino, eu também, tenho certeza, e um sonho a mais não faz mal.
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