Ontem, pela manhã, Rafaela dizia, - Amanhã não vou dormir. - Ué, como não vai, ansiedade com a viagem? - Também, mas se dormir não vou acordar e vou perder o passeio; minha mãe também!
Na Escola também estava assim, um frissom geral já na véspera. Passeio escolar é um acontecimento.
Hoje, cinco e meia da manhã, frio mas não muito, muita criança, muita algazarra e alegria, professoras e mães tentando organizar as coisas, o ônibus quase cheio e o motorista quieto, provavelmente também ansioso pela partida embora já faça isso há anos, mas, nesse caso, acho que para se desincumbir logo da imensa responsabilidade de transportar pessoas... e crianças.
Eu queria ser criança outra vez, dormir de perder a hora; não dormir de medo de perder a hora; até querer tomar remédio para enjoo; ter minha mãe e/ou meu pai sempre ao lado; rir de qualquer bobagem inclusive de mim; querer ser motorista de ônibus; me apaixonar pelo amiguinho ou amiguinha; sonhar com a tia ou o tio; me emocionar com uma borboleta de cores vibrantes; vibrar com o sol, nascente ou poente, e com a lua que acalma o sol; admirar o horizonte que emoldura astros e estrelas; gostar dessas viagens loucas, cansativas e desconfortáveis... ora, eu sou uma criança!
Saímos às seis horas, o dia clareando, o trânsito ainda tranquilo, não tinha névoa na serra. Eu achava que iríamos por Teresópolis, mas num ônibus tão grande seria mesmo uma péssima escolha. O guia Thiago falava e todos ouviam como se estivessem numa sala de aula: Aqui é Cachoeiras de Macacu. Município muito grande, embora não pareça. E tem fábricas de doce de banana, de cerveja, envase de água mineral... - Tio, uma pergunta? Nós estamos em Cachoeiras de Macau?! Igualzinho em sala de aula.
Lanchamos em Cachoeiras, seguimos viagem. E o guia seguia também: Vejam lá a Serra dos Órgãos, aqui já estamos em Guapimirim. Já, já vamos pegar a BR040 e depois a serra para Petrópolis. Vamos entrar pelo bairro do Quitandinha, lá era só uma quitanda, uma espécie de venda, de mercadinho, uma quitandinha, daí o nome do bairro, famoso pelo Hotel Cassino do Quitandinha, um prédio imponente e lindo, como também seus jardins e o grande lago. Aprendemos com Thiago segundo, o guia local, que o Cassino fechou, junto com todos os outros quando o jogo foi proibido pelo governo militar de Gaspar Dutra, o hotel faliu, seus apartamentos foram vendidos para famílias, como num condomínio residencial qualquer (só que chiquérrimo), e as áreas de lazer e dos grandes salões foram vendidas ao SESC.
Daí fomos pra a casa de Santos Dumont, o Professor Pardal brasileiro, que qual europeu de raiz, fincou raízes em Paris, mas tão leves que voaram, elevando o nome do Brasil. E o Thiago segundo falava das escadas famosas, com degraus parecendo metades de raquetes, do rústico chuveiro de águas quentes, feito com balde metálico fixado ao teto, com divisões para água quente de um lado, água fria de outro, misturadas por um sistema de comportas acionadas por cordas; e nos ensinou que o BIS do 14, nasceu de ser uma versão aperfeiçoada do décimo quarto modelo que nosso herói tentou fazer voar; tinha o 14, ele o considerou bom e chamou a segunda versão de 14 BIS.
O Thiago segundo fala num tom monocórdico, cronometrado e acerta todas. Sem tirar o olhar da plateia, sem perder o fio e o ritmo, ele orienta o motorista, sabe quando a fábrica que fechou e virou estacionamento está à esquerda (as meninas olharam pra direita), e ainda espera que o motorista diga se entendeu. E se irrita baixinho: "- E ele não responde!", e com o microfone aberto! Mas ele não desiste: - Turminha, foi D Pedro I que comprou o terreno pra fazer a casa de campo dele, ele comprou mas não viu, só D Pedro II curtiu, o pai se mandou pra Portugal.
O Museu Imperial é a razão principal do passeio, e não decepciona. Muita história, muito passado que se torna presente e real, muitos detalhes que vimos na escola e só agora ficam evidentes, e curiosidades que vamos conhecendo a depender do Thiago que estivesse do nosso lado, e lá nos coube um casal de Thiagos, os professores de história Patrícia e Rodney, que esmiuçaram pra nós, o que as telas, joias, os móveis e as carruagens deixavam de dizer.
Enquanto o Thiago segundo falava da esposa do xará dele, o Pedro II... - Tio, eles já morreram?!!! Bom, ainda não tínhamos feito o tour pelo museu, quem sabe na saída a ordem natural se restabeleça! Oremos.
Foi legal ver a linda coroa de D Pedro II. Lamentável que pra fazê-la roubaram as pedras da coroa do pai dele; de uma certa forma continuamos sendo Império, por mais impostos que se cobre, continuamos pobres, nós, os súditos. Por que pedras haviam, e muitas!
Vamos para nossa última parada, o Palácio de Cristal. E o Thiago Segundo continua falando: Adquirido da França, pelo Conde d'Eu, para abrigar a primeira feira de flores de Petrópolis, na Primeira República foi abandonado, uma chuva de granizo destruiu parte dos cristais, e o que sobrou... sumiu. O tempo passa, o tempo voa, e as histórias de ladroagem continuam numa boa, e como vimos, começaram há muito tempo. Nem sei como não levaram a estrutura metálica do Palácio, afinal, as do viaduto da Rodrigues Alves, no Rio, eram maiores e muitíssimo mais pesadas e sumiram também, como se "sumir" fosse possível! Mágica da Cidade de Pedro, mas também das cidades, estados e países de muitos outros nomes.
A volta de um passeio desses, divertido mas extenuante, normalmente é mais tranquila. Sem sobressaltos, descemos e subimos essas serras dessas terras maravilhosas que Deus nos deu e nas quais temos o privilégio de morar, e que sobrevivem, aos trancos e barrancos, por mais de meio século, a essas figuras, de ou fora de governos, capazes de abandonar a cultura, apagar a memória, desviar joias, roubar cristais, espoliar o povo; gente que adoraria estar dentro daquelas liteiras que vimos expostas, enquanto trabalhadores sem salários os carregaríamos pelas ruas.
Precisava voltar ao tom leve do texto, mas deu ruim, já não consigo. Fico por aqui, com a certeza de que fizemos um passeio lindo, e a julgar pelo que ouvi das crianças, um passeio com um conteúdo riquíssimo, que foi apreendido e que elas não esquecerão. Falando por mim, eu também jamais esquecerei, aprendi muitas coisas novas, e reafirmei coisas que já sabia, sobretudo como é bom conviver em paz com gente, e com vocês pais que estiveram conosco.
Obrigado e até já.
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