Tenho contado muitas histórias de meu pai aqui, e ainda há muitas pra contar, histórias que demonstram o homem que ele foi e explicam um pouco do homem que eu sou. Eu sou o meu pai.
Tudo que vivi e como vivi, tudo que sou e como sou, decorreu de como vi meu pai ser e viver.
Ele era trabalhador, teimoso, incansável e persistente, e eu sou assim. Não era o dono da verdade, mas dava trabalho convencê-lo de algo, como a mim.
Ele era advogado de si mesmo, e me queria advogado. Eu me formei em Direito, para orgulho dele, que não sabia a diferença entre ser formado e ser advogado. Aliás, tive outro pai na Faculdade, o Orlando Tupini, amigo de meu pai, muito mais velho que eu, que foi pra Cachoeiro comigo, e foi meu pai por diversas vezes, assinando os documentos do crédito educativo na Caixa Econômica. Estudei de graça, os contratos não tinham correção monetária, e a inflação corroeu o valor da dívida. O Orlando, já velho como eu o sou hoje, se formou também.
Meu pai dividira comigo o protagonismo na família, me queria nessa posição por que a assumira na sua própria família, quando solteiro.
Então, fomos para Bom Jesus por que eu queria, e depois para Nova Friburgo só por que eu queria. E depois para o Rio por que estavam muito sozinhos. E de volta para Friburgo por que no Rio faltava natureza, faltava verde, faltava ar. Agora falta muito mais do que isso, falta tudo, especialmente beleza, numa cidade antes "maravilhosa".
Fiz tudo o que pude pelos meus pais, só não sei se fiz o que eles de fato queriam. Acho que, por eles, nunca teriam saído de Varre Sai. Uma máquina do tempo à minha frente, e eu digitaria as coordenadas da Arataca de 1970. Será?!!!!
O fato é que, repetindo os passos de meu pai, com um pouco mais de assertividade por que tive a educação que ele me deu; cometendo muitos erros pela impulsividade que herdei dele; mudando, ou mudando-os qual ciganos, pela minha inquietude típica dele; vivemos uma vida cheia, dinâmica e rica, que ele, em seus longos e emocionantes discursos de aniversário, sempre fez questão de pontuar, de enfatizar, dizendo-se feliz pela família que construiu e vitorioso por ter vivido mais que o dobro do que previa. Meu pai viveu 90 anos mas sempre achou que morreria com 45, e me assombrava com isso.
Viveu muito e muito intensamente; se dizia muito feliz e eu acredito que foi. E o legado que deixou perpetua a sua presença.
Que o exemplo dele sirva para ao menos um pai, e essas memórias já se justificarão. O exemplo de um pai que viveu para a família, que foi pobre a vida inteira mas, ainda assim, educou os seus filhos, deu-lhes ética e dignidade, ensinou-os a amarem o próximo, a respeitarem os mais velhos e a serem generosos. Ele que dizia "Deus não dá asas a cobra", sempre que queria ir mais longe e limitações financeiras o impediam, foi muito além do que esperava. Deus deu-lhe asas.
Amém! Quase uma oração esse texto! Uma prece de gratidão pelo nosso pai. Amém, amém, amém!
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