Meu pai trabalhou numa pedreira. Ele quebrava pedras com uma marreta, a popular "sexta-feira", e dizia, com um certo orgulho, que era "marroeiro".
Certa feita, por causa de um acidente de trabalho não devidamente reconhecido pela empresa, nós fomos despejados da casa em que morávamos, e vimos, mediante força policial, nossos móveis e utensílios jogados na calçada, na rua mesmo.
Meu pai bateu às portas da Justiça, naturalmente que através da defensoria pública, e durante a audiência sentiu que o advogado não se empenhava, era apenas mais um processo para ele, assalariado do Estado.
Com a voz forte e alta, imagino que, com pouco mais de trinta anos, muito mais forte e alta ainda do que a voz que aprendemos a temer e respeitar, ele se dirigiu ao Juiz, coisa inimaginável:
- Eu posso falar com o senhor, sua Excelência?
O Defensor Público se assustou, e puxou-o pela mão:
- Seu José, senta seu José!
E o Juiz, grave (Sorriria por dentro?):
- Fale, seu José!
E meu pai falou, discursou emocionadamente, e disse que era marroeiro mas não era burro, sabia que aquilo era uma injustiça. E o Juiz fez Justiça. Ele ganhou a causa e a ideia fixa de que eu seria advogado. Voltamos para nossa casa com o orgulho vingado.
Eu queria ser médico e fiz Direito. Acaso do destino?
Meu pai era marroeiro, também foi advogado.... antes, era Pai.
Ele repetiu essa história muitas e muitas vezes... foi verdade!
Ele também foi enfermeiro, salvando um homem da morte por picada de cobra; foi policial, prendendo um bandidinho que machucou o meu irmão; foi açougueiro, tendo abatido centenas de suínos pela vida; foi leiloeiro nos leilões da igreja; construtor, líder de equipe, veterinário, promotor de bailes, dançarino, foi pai, ótimo pai, e foi filho depois, humilde filho, ao se reconhecer dependente dos filhos que tão bem soube criar. Meu pai foi exemplo.
Esse era o José Roque, um homem muito forte! Talvez pelas pedras da tal pedreira! E marrento! Talvez, pelo martelo, também da tal pedreira! Será que devemos quebrar pedras por aí? Ou já quebramos e nem nos damos conta?
ResponderExcluirBelo texto!
A Benção meu pai!!! (com os olhos marejados)
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