sexta-feira, 14 de junho de 2024

COSTURANDO HISTÓRIAS

Minha mãe fazia nossas roupas, ela não era beeem uma costureira, mas se virava. Diz-se que "o sapo pula por precisão", éramos oito pessoas a serem vestidas, meu pai não tinha como pagar, e ela supria as necessidades, às vezes até socorria algum amigo ou parente.
Uma tarde, acompanhei meu pai à cidade, para comprar uma máquina de costura para minha mãe. Ele deve ter "namorado" aquela máquina por muito tempo e poupado dinheiro para adquiri-la, ou comprou fiado, disso não me lembro. Sei que fomos pra cidade, ele, e eu do alto dos meus oito anos.
Morávamos no Sítio das Jaqueiras, distante uns 5 Km, não sei se tanto, porém para mim era muiiiito longe! E íamos a pé, naturalmente. 
Na volta, alguém nos levou numa pick-up, e meu pai pediu a um dos seus amigos para ajudar-nos até onde era possível ao veículo chegar.
Da estrada até o local da nossa casa eram uns bons 500 metros de descida íngreme, em meio ao pasto, por um caminho acidentado que nem caminho era, mas a vala por onde as águas pluviais desciam, erodindo agressivamente o solo.
Esse episódio ficou marcado na memória da criança, mais especialmente por duas razões:
A uma; quando voltávamos pra casa, os três na carroceria da pick-up, aprendi uns versos que meu pai falava para o "Tuca", muito engraçados e que não posso transcrever aqui, e que mostravam o homem alegre, irreverente e muitas vezes criança que ele era. Como reflexão, se este fosse um texto sério e eu tivesse alguma competência para desenvolver o tema, isso também serviria para demostrar como as crianças são perceptivas e memorizam o que aprendem, especialmente se for "porcaria", donde deveríamos ter mais cuidado com os exemplos que damos. Mas que era uma delícia ouvir meu pai falando bobagens, lá isso era!  A duas; a máquina saiu da caminhonete para os ombros do meu pai lá na estrada, desceu todo o caminho escuro e irregularmente desenhado, até chegar à nossa casa, e tudo num só fôlego, sem parar e sem conversar, talvez apenas uns gemidos provocados pela dor nos ombros, nos quais o móvel robusto, de madeira e ferragens, provocava sulcos na pele.
Eu o vi repetir proeza assim pelo menos mais duas vezes, uma quando segurou sozinho uma caixa d'água que instalávamos na lage da minha casa e a danada se negava a subir as escadas; e outra, quando mudamos para a casa que construímos em Nova Friburgo, e ele transportou nas costas, por uns 200 metros, sozinho e encurvado, um guarda roupas de 3 portas. Eu vi. Nem sei se é verdade minha, tão absurdo era!
Houve outras inúmeras demonstrações de força, sobretudo de força de vontade, como... Bom, já seria outra história.
Ah, a máquina está até hoje comigo. Meu irmão Fabiano queria levá-la quando nossa mãe faleceu, mas ele, que ao contrário de mim gosta de objetos antigos, foi generoso ao saber do meu interesse. Ela está no mesmo lugar. Um pedacinho dos meus pais e da nossa história. Para que mexer com as histórias?! 

2 comentários:

  1. Desta eu não me lembro! Acho que não fiz parte do grupo que foi às compras...

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  2. Porém, me lembro e muito bem, do "touro" que ele era. Estive muito perto em quase todos estes momentos: na lavoura (nas plantações de milho, feijão e arroz, e por ultimo nos cafezais), nos pastos (quando para limpar era preciso arrancar o mato que não é pastagem à mão); Eu ía, quase sempre após a escola, levar a merenda do café da tarde, a pé quando era perto de casa ou à cavalo quando era mais longe e muitas vezes ficava por lá até o final do dia; nas construções de casas em Varre-Sai e em Bom Jesus. Não estive perto, mas me lembro bem, quando passava a noite inteira apagando incêndios nas matas e voltava como um "tronco de carvão" para casa.
    Esta merenda do café da tarde também me traz lembranças interessantes, porque não se tratava de pão, bolo, etc... mas de banana d'água verde, cozida em latas (20 lts) de margarina "Anderson Clayton", e/ou inhame rosa (que só tem a cabeça, não tem dedos) e em fogueiras improvisadas no quintal com pedras e tijolos.

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