quarta-feira, 5 de junho de 2024

SERPENTES A BORDO

Três amigos e eu fomos ao Rio, levados pelo meu pai, para prestar concurso para Terceiro Sargento de Aeronáutica. Na época me parecia uma boa ideia ter uma carreira militar, receber pra estudar por três anos, e, depois, poder vir de helicóptero, metido num uniforme branco, buscar a garota que eu amava.
Desde que mudamos para o interior do Estado, com 4 anos de idade, eu não voltara ao Rio, portanto, não conhecia nada de lá. O ônibus que nos levaria à casa dos meus tios chegou e saiu com estrépido, eu sentado no banco do corredor, no meio do veículo, bem posicionado para admirar a minha cidade natal, e segurando um pacote de linguiça de porco, pura, que minha mãe fizera especialmente para meu tio.
Eu não conhecia, porém, a agressividade ao volante, dos motoristas cariocas! Numa das primeiras esquinas tive que optar entre mim e as linguiças, e na dúvida, tentei proteger a ambos, claro que sem êxito. Dobrando a esquina em uma velocidade cantada, e freando num ponto a seguir, o motorista me deixou ajoelhado e envergonhado no corredor, enquanto as linguiças, qual serpentes assustadas, deslizavam e passavam por baixo da roleta lá na frente, meus amigos por testemunhas da minha humilhação. Já ri muito disso, mas no momento foi punk, palavra desconhecida à época.
Muitos anos depois, Aldir Blanc e João Bosco compuseram um samba que conta a história do casal que fora pescar siris no Farol da Barra, e... "na volta, ônibus cheio, o balde derramou em pleno coletivo... o velho trocador até pensou, "não bebo mais, siri passando em roleta mesmo pra mim é demais". É, pra mim também. O casal da história fora pescar para agradar a um compadre querido, e ficou sabendo, depois da aventura, que ele estava proibido de comer exatamente frutos do mar. Frustração total. A música pareceu feita pra mim, uma lenha no ônibus, pra depois chegar ao Maracanã, onde seria a prova, e não passar no concurso (havia matérias que eu ainda nem vira no colégio!). Me identifiquei de imediato, fui ao show do João Bosco, no Teatro Carlos Gomes, e comprei o disco "100ª apresentação", um LP que guardo até hoje, embora não tenha mais onde tocá-lo. 
Essa foi a primeira das três vezes que estive no Maracanã. Nas outras, vi o Fluminense perder uma decisão para o Vasco, e a seleção feminina de vôlei perder outra decisão para a Rússia. Tomei a decisão de não ir mais ao Maracanã. Talvez até devesse ter ido à decisão com a Alemanha em 2014, quem sabe quebrava a escrita?! Ôpa, acabo de escrever e o Lucas já me avisou que esse jogo não foi no Maraca, então o placar não mudaria, eu iria ao estádio errado! 


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